cidade-abertaHá certo vazio naqueles que deixam sua cidade natal para viverem em outro lugar. A cidade atualmente habitada não é exatamente sua, não da mesma forma que é para aqueles que nela nasceram ou cresceram. É como se as tais raízes não existissem, ou fossem móveis, podendo rapidamente se mudar para outro lugar. “Criar raízes” não é assim tão fácil, mesmo depois de anos convivendo com as pessoas e as características deste lugar. Teju Cole talvez tenha conseguido criar essas raízes com Nova York apenas depois de terminar de escrever Cidade aberta. Pelo menos ele sentiu que gostava muito mais da cidade depois de tê-la posto no papel através de sua própria visão.

O primeiro livro do norte-americano criado na Nigéria não era para ter se transformado em uma carta de amor à Nova York, disse Cole na Flip desse ano. Era para ser um livro sobre como a cidade funciona, como ela é “cruel” e “esquece” as pessoas que vivem nela. Mas, no final, conservou certa característica de um relato carinhoso de um morador sobre o lugar em que vive. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras, o livro é narrado por Julius, um nigeriano, psiquiatra residente no Columbia Presbyterian Hospital que há anos vive na Big Apple. Longe de seu país e de sua família, com quem não mantém mais contato, ele narra as caminhadas que faz pela cidade, um relato pessoal do que é visto na cidade pós-11 de setembro e um resgate das suas próprias raízes e história.

As caminhadas de Julius não são trilhas planejadas e nada têm de turísticas; ao sair do trabalho, toma um rumo qualquer e anda até onde achar ser possível, às vezes longe o bastante para se cansar e ser obrigado a retornar de metrô. Nenhuma caminhada tem um objetivo certo, ele apenas observa aquilo que se coloca à sua frente: as pessoas, os cenários, as cenas que se formam, as interações entre estranhos com seus amigos e suas famílias. E enquanto percorre esses caminhos, se deixa engolir pela própria história, a infância na Nigéria, sua condição de estrangeiro, africano, negro em um país rico, tão diferente de sua terra natal, e predominantemente branco nos locais que costuma frequentar. “É uma coisa que não posso deixar de notar; reparo toda vez e tento não ver. Parte do processo é uma complexa e rápida série de adaptações: repreender a mim a mim mesmo por até mesmo ter percebido isso, deplorar os sinais de como nossa vida continua dividida, irritar-me por saber que tais pensamentos podem muito bem voltar a passar pela minha cabeça mais tarde, na mesma noite” (p. 303). Essa é só uma das passagens em que a questão racial é medida por Julius, em muitas ele evidencia a relação com outros negros, africanos ou não, que se cumprimentam como “irmãos” e até o congratulam pelo “status” alcançado.

Julius sente um isolamento social que, talvez, fosse amenizado por suas andanças. “Caminhar por partes agitadas da cidade significava que meus olhos viam mais pessoas, centenas e até milhares de pessoas a mais do que eu estava habituado a ver ao longo de um dia inteiro, mas a impressão daqueles rostos incontáveis de nada adiantava para aplacar minha sensação de isolamento; na verdade, aumentava a sensação.” (p. 13). As diferenças entre ele e o resto das pessoas que encontra nas ruas, muitas tão estrangeiras quanto ele, parecem ainda mais marcantes quando evidencia o contraste entre o lugar em que cresceu e aquele em que vive agora. Julius não demonstra muito empenho em se integrar mais a esse lugar e fazer parte de sua história; ele tenta voltar à sua origem, resgatar suas lembranças, reencontrar seu passado para se definir. Com esse objetivo parte para a Bruxelas, onde, imagina, talvez ainda viva a sua oma.

Sem família em Nova York e sem contato com o que restara dela na África ou na Europa, a viagem parece uma tentativa de se reaproximar daquilo que não mais existia, seus laços de sangue, com as caminhadas nova-iorquinas sendo substituídas pelas conversas com um funcionário de uma lan house que frequentava. A sabedoria de Faruq e as questões por ele levantadas levam Julius a resgatar mais lembranças, refletir ainda mais sobre sua origem e seu lugar no mundo. Lugar esse que volta a ser Nova York, suas ruas, os prédios e o metrô. A cidade que, ao mesmo tempo em que o rejeita em alguns momentos, parece ser sua única opção acolhedora.

A narrativa de Teju Cole não leva o leitor necessariamente a algum lugar. Não é uma história com início, meio e fim, com um objetivo claro a ser alcançado. São apenas lembranças, pensamentos que revelam a natureza estrangeira, solitária e sem rumo do protagonista, seu papel de “estranho” dentro de uma cidade que o abriga, mas que não é sua. As caminhadas são uma forma de reconhecer esse lugar, se integrar com a cidade e sentir fazer parte dela, algo que parece sim fazer algum efeito. Nova York, no fim, se mostra uma cidade aberta a todos que nela queiram entrar e viver, sem oferecer maiores resistências para quem desejar percorrê-la ou chamá-la de lar.