Capa Granta 9.inddToda antologia que pretende reunir o “melhor” de qualquer coisa vem carregada de polêmicas. Como a recepção de um texto é muito baseado na subjetividade – suas preferências e experiências determinam o que será apreciado ou não, mesmo reconhecendo a qualidade literária de um texto que pouco agrada –, a lista dos 20 melhores jovens escritores brasileiros de cada um seria diferente da que os jurados da Granta formaram. Sempre haverá alguém para dizer que aquele outro escritor merecia estar no lugar desse aqui, que gosta dos livros e contos de X mais do que dos de Y. Que reclama que W nem ao menos tem um livro próprio publicado ainda, então o que está fazendo nessa lista? Reclamações à parte, falta dizer que a palavra “melhores” não quer dizer nada. Cada um tem os seus “melhores”, e nesse caso, ela vem para mostrar alguns destaques que, futuramente, podem ser reconhecidos como os “melhores” de nossa literatura.

Fazendo um comentário geral, quando os nomes dessa nona edição da Granta em português foram anunciados, achei as escolhas bem justas e previsíveis. Parte dos escolhidos eu já havia lido, outra parte eu já havia ouvido falar com elogios. O resultado foi o esperado: nomes bem vistos pelos críticos, com uma ou duas surpresas que mostram que não são só os já “famosos” que ganham espaço na revista. A expectativa ao começar a ler, claro, é grande, se espera realmente o “melhor” de cada escritor, pois foi assim que a revista foi vendida. Mas apesar de bons, não é exatamente o melhor que se encontra – novamente, a subjetividade da literatura.

Uma prova disso está logo no primeiro texto de um ótimo escritor. Michel Laub abre a Granta com o conto “Animais”, em que um homem fala sobre o dia em que seu pai teve que lhe anunciar a morte de seu cachorro, e essa lembrança é o gatilho para outras memórias de sua infância vir à tona. A estrutura do texto é a mesma que o autor usou em Diário da queda – parágrafos curtos e numerados que não seguem exatamente a ordem cronológica –, dando a sensação de familiaridade, de aquilo já ter sido lido antes. A pequena trama é bem construída, mas parece que “Animais” traz um “mais do mesmo” do autor, como se fosse um apêndice de Diário da queda.

Antônio Prata também aborda em seu conto as memórias da infância. Em “Valdir Peres, Juanito e Poloskei”, seu protagonista narra um momento de sua infância em que seus amigos de rua brincavm igualmente jogando bafo para conseguir mais figurinhas de futebol, “até o dia em que o Rodrigo apareceu com o Jeep de controle remoto”. O texto mostra a gradual mudança entre os pequenos amigos provocada pela ascensão financeira dos pais, narrando uma rivalidade infantil ainda inocente entre os meninos marcada pelas suas poucas posses. Antônio Prata resgata muito bem o ambiente dos anos 80, seus brinquedos e brincadeiras, narrando tudo de forma bem humorada, um dos textos mais deliciosos de ler.

Dos novos nomes que poucos conhecem, a Granta traz Luisa Geisler e Vinícius Jatobá. A primeira mostra em “O que você está fazendo aqui” segurança e intimidade com a escrita, destacando a rotina de deslocamento e solidão de seu protagonista que tanto viaja a trabalho, não mantendo relações mais profundas com os lugares e pessoas que encontra. Há a dúvida acerca do objetivo de seu cacoete “Weltanschauung”, que me pareceu uma forma de autorreflexão do protagonista tentando entender o que faz, onde está e o que quer. Vinícius Jatobá surpreendeu com “Natureza-morta”, que entre a descrição de uma casa visivelmente abandonada, conta a história de toda uma família sendo narrada pelos seus próprios integrantes. Pai, mãe e filho fazem um relato íntimo de seus anseios que revelam aos poucos o destino dessa família, a linguagem bem fluida e com as vozes facilmente identificáveis. É um dos textos mais bem amarrados, com personagens desenvolvidas e bem exploradas.

Alguns contos se aproximam em tema e tempo. Julian Fuks e Miguel Del Castillo utilizam em suas histórias um mesmo momento histórico: a ditadura argentina. Em “O Jantar”, Fuks relata o reencontro de um homem com sua tia, uma mulher insuportável, de extrema direita, que irrita o protagonista e o leitor a cada frase que diz. Enquanto ela fala, ele rebate mentalmente seus argumentos, trazendo à superfície traumas dos prisioneiros da ditadura, as torturas e a morte iminente. O conto constrói um ambiente desconfortável, mas ao fim parece deixar algo solto, não especifica claramente qual o papel do protagonista nesse momento, nem o que surge para atormentá-lo ainda mais no final. Em “Violeta”, Del Castillo conta a história de uma mulher obstinada em proteger e depois encontrar o filho revolucionário, narrada pelo filho de seu sobrinho, uma história que começa no Uruguai, passa pelo Chile e Argentina em seus maiores momentos de crise e governos ditatoriais. O que parece ser um texto tratando da coragem de Miguel Angel revela tratar das dores de sua mãe e da perseverança em ainda encontrá-lo, com uma boa dose de drama que mistura a narração do protagonista com as afirmações em espanhol da mulher.

Muitos dos textos da Granta não são contos, mas sim fragmentos de futuros romances que, curiosamente, funcionam bem apresentados assim, em pedacinhos. É o caso de “Apneia”, de Daniel Galera, “F para Welles”, de Antônio Xerxenesky, e “Faíscas”, de Carol Bensimon. A princípio espera-se que falte algo nesses textos, que fiquem incompreensíveis por não revelarem toda a história já se sabendo incompleta, mas apesar disso, os textos despertam a curiosidade pelo que ainda está por vir. O leitor fica curioso para saber do resto da história do pai que revela ao filho querer se matar, da assassina contratada para eliminar Orson Welles que estuda seus filmes, e das duas amigas que partem em uma road trip pelo Rio Grande do Sul. Vanessa Barbara também enviou à revista um trecho de seu romance, e mesmo que “Noites de alface” coloque dentro desse curto espaço toda a vida conjugal de seu protagonista solitário – desenvolvendo sem rodeios as características das personagens – queremos saber o que mais ela pode apresentar sobre Otto.

Seria exaustivo comentar cada conto individualmente, então, como uma avaliação geral, a Granta com Os melhores jovens escritores brasileiros é uma boa amostra do que está sendo produzido pelos “novos” nomes da literatura nacional. Ainda destacaria os contos de J.P. Cuenca, Chico Mattoso e Carola Saavedra pela boa narrativa que apresentam – respectivamente, tratando de um futuro de favelas invadidas pela classe média no Rio de Janeiro, a morte imaginada de uma mãe e o encontro de uma jovem com um escritor. A Granta provavelmente não traz o melhor de todos esses nomes, mas sim boas promessas, uma justa lista para observar e acompanhar o que mais será produzido. A impressão é de que sim, esses escritores poderão ser o grande destaque da nossa literatura daqui a alguns anos – e alguns já o são, como Daniel Galera e Michel Laub –, mas essa não é uma sentença definitiva. Escritores além desses vinte selecionados também irão se destacar, assim como alguns desse grupo podem não trilhar uma carreira assim tão comentada, mas para um primeiro contato, e para levar para fora o que temos, essa edição mostra que a ficção produzida no Brasil está muito bem, obrigada.