Na praia, de Ian McEwan

Hoje é raro um casal chegar na sua lua de mel sem saber o que deve – e como – fazer. O sexo não é mais aquele ato “sagrado”, que deve ser praticado apenas quando as duas almas apaixonadas estão ligadas pelos laços do matrimônio e toda essa lenga-lenga que persistiu a reprimir desejos durante tanto tempo. O homem sempre teve essa liberdade de ter algum tipo de relação sexual antes do casamento, e inclusive fora dele. Já para a mulher, sua virgindade era seu selo de honra, e tratar desse assunto com quem quer que fosse era um ato impudente. Existe ainda certo conservadorismo quando o assunto é a sexualidade da mulher, um conjunto de regras que deve reger o comportamento das “boas moças”, as “para casar”. Tudo besteira.

Na praia se passa no início dos anos 60, uma época em que os jovens estão começando a experimentar maior liberdade em tudo: sexo, família, estudos; é a década da libertação, da quebra de regras conservadoras ultrapassadas. Florence e Edward estão recém-casados, em um hotelzinho na praia de Chesil, na Inglaterra, comemorando o matrimônio e a enfim entrada na vida adulta. Agora podem fazer o que quiserem, são os donos da própria vida. Porém, a ansiedade e medo resultados da inexperiência de ambos tornam a noite de núpcias uma sucessão de angústias, e não de prazer. Neste livro, Ian McEwan revela o pensamento retrógrado dos dois jovens presos pela noção de dever que o homem e a mulher possuem no casamento, “educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível.”

Florence é uma jovem violinista, filha de um casal rico e conservador de Oxford. Cursou a faculdade de música em Londres, formou um quarteto de cordas que procura por um espaço nas apresentações de música clássica, e nessa noite, no hotel, está totalmente amedrontada pela ideia de ter que se deitar com seu marido. Ela o ama, mas apesar disso repudia o fato de que deve se entregar a ele. De “por fim, ele entra nela e felizmente, logo depois de ele ter entrado nela… será que ela precisava servir de portal para Edward na noite de núpcias?”, se pergunta. Ela nunca falou sobre sexo com sua mãe ou amigas, a única coisa que sabe sobre isso é o que leu no “manual das noivas”, cujas descrições dos “deveres de esposa” a deixaram enojada, e enquanto jantam, tenta encontrar uma forma de dizer isso a ele.

Edward é formado em História e conheceu Florence em um pub em Oxford durante uma reunião contra a fabricação de bombas nucleares. É um jovem humilde e promissor, meio desconfortável dentro do mundo “superior” de Florence, e nessa noite sua única preocupação é não assustar sua esposa. Florence sempre ofereceu resistência a quaisquer avanços de Edward, a sugestão de uma visão ou toque a mais a assustava e a fazia fugir. Ele tenta conter esse seu desejo irrefreável para que, justamente nessa noite, ele não a amedronte e, principalmente, não a decepcione. McEwan estende a primeira noite dos noivos com prolongada descrição do que se passa individualmente entre Edward e Florence. Enquanto nada se concretiza, ele descortina o pano de fundo da relação do casal, como se conheceram, como esperam que o outro se comporte e, principalmente, suas diferenças, a impaciência de Edward com a frieza de Florence.

A forma com que o autor apresenta essa história e desenvolve as personagens faz parecer que a trama pertence a um tempo anterior aos anos 60. Enquanto muitas pessoas estão experimentando a libertação das convenções sociais, eles são uma ilha ainda nas antigas regras da moral e bons costumes. Algo que evidencia muito bem isso é como Florence se comporta na noite de sua primeira vez: ela tem total horror ao que deve fazer – sexo com Edward –, mas toma todas as iniciativas para que isso aconteça, pois esse é o seu “dever de mulher”, é o que uma esposa deve fazer. McEwan oferece toda a descrição necessária para o leitor entender o contexto social em que os protagonistas cresceram e também as mudanças que essa sociedade enfrenta e como elas destoam do comportamento que eles ainda mantêm.

Essa descrição detalhada também dá o tom de ansiedade à leitura. Ele estende a expectativa sobre o que acontecerá entre os protagonistas, trabalhando com intensidade todo e qualquer movimento que o casal faz:

“Quando Edward a puxou para os braços dele, não foi para beijá-la, mas primeiro para apertá-la contra o corpo, e em seguida pôr a mão na sua nuca, procurando o fecho do vestido. A outra mão estava espalmada e firme sobre o delgado das costas dela, enquanto ela sussurrava alguma coisa no seu ouvido, tão forte e tão perto, que ele só ouvia um rugido de ar quente e úmido. Mas não dava para abrir o zíper com uma única mão, pelo menos não ao longo dos primeiros dois ou três centímetros. Era preciso segurar o vestido reto no alto com uma das mãos, enquanto se puxava o fecho com a outra, do contrário o tecido fino se dobrava e o zíper emperrava.”

A tensão e expectativas que McEwan constrói fazem aquilo que ele confessou adorar causar no leitor: ele o manipula a adiantar um caminho para a trama, mas depois dá o seu real desfecho, que pode não ser aquilo que o leitor espera, mas algo maior e melhor. Na praia é um livro curto que narra de forma arrebatadora o início da vida adulta desse casal, uma vida freada pelos medos e expectativas de uma sociedade que não é mais obrigada a viver conforme as regras e dogmas.

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4 Responses to Na praia, de Ian McEwan

  1. Aline T.K.M. says:

    Fiquei bem interessada no livro. Aliás, a Companhia das Letras tem livros excelentes no catálogo. Achei interessante esse olhar voltado a uma época anterior, a costumes e moral “ultrapassados”, e também a percepção de que o medo e a repulsa não são mais do que consequências de falta de informação e de diálogo. O pano de fundo do casal que se desdobra a partir da situação é um aspecto que me atraiu, acredito que com isso conhecemos realmente os personagens, suas motivações e questões bem interiores. Pelo menos, é a impressão que me passou.
    Gostei muito do post e fiquei mesmo com vontade de ler o livro.

    bjs
    escrevendoloucamente.blogspot.com

  2. Taize Odelli says:

    Valeuzão, Aline!

    O único comentário que posso fazer sobre o catálogo da Companhia é: <3 hahaha

    E se ficou com vontade de ler o livro, só posso dizer também que leia. Ele é muito bom mesmo, e a tua impressão está certa. Provavelmente vai gostar =D

  3. Rick says:

    É verdade, parece mesmo um livro ótimo.
    E, sobre o autor, que escreve e manipula o leitor a ter uma ideia do que vai acontecer, ralado isso, a gente sempre fica frustrado quando vemos que não é o que foi esperado não é?
    Mais, gostei bastante, você sabe bem falar desses livros.

    Sem Guarda-Chuvas | Blogspot

  4. Taize Odelli says:

    Oi, Rick!
    É meio frustrante sim, mas no caso do McEwan, a surpresa supera o esperado, então é muito melhor =D
    Valeu pela visita ^^

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