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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas

bartleby-e-companhia“Todos nós conhecemos os bartlebys, seres em que habita uma profunda negação do mundo.” Eu posso me considerar uma bartleby – não estava conseguindo começar esse texto e pensei em desistir. Escrevê-lo agora me torna uma não-bartleby, ou uma não adepta do Não. Mas tenho certos traços dessas pessoas, o que me fez simpatizar com o livro logo nas primeiras páginas. Bartlebys não são preguiçosos, como pode parecer, apenas não fazem, ou não são. O adjetivo vem de Bartleby, o escrivão, de Herman Melville, um homem que a partir de certo momento da vida resolveu negar qualquer atividade com um “preferiria não o fazer”. No caso de Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas, a negação é a da literatura. Seu protagonista é um velho corcunda que já publicou um livro, trabalha em um “escritório pavoroso” e não escreve mais há 25 anos. Mas em 8 de julho de 1999 resolve iniciar um diário, um catálogo de adeptos do Não.

Dizer que ele voltou a escrever não seria o mais certo. O que ele coloca no papel são notas de rodapé para um texto invisível, pois ele é um bartleby, e para continuar sendo, não pode escrever. A função desse seu diário é apresentar a um leitor ocasional outros bartlebys da literatura que dividem com ele o panteão dos não-escritores.

O gatilho para o diário é parte de uma conversa telefônica que entreouve no trabalho, em que a secretária responde “O senhor Bartleby está em reunião”, e a ironia do nome mal ouvido aliado ao seu significado no meio literário o faz procurar por figuras do Não. Então, com notas de rodapé explicativas e cheias de referências, ele lista academicamente escritores não escritores, suas histórias e motivos para negar a escrita e até seu passado na literatura – por vezes adquirindo tons de anedotas.

“Disponho-me, então, a passear pelo labirinto do Não, pelas trilhas da mais perturbadora e atraente tendência das literaturas contemporâneas: tendência em que se encontra o único caminho que permanece aberto à autêntica criação literária; que se pergunta o que é e onde está a escrita e que vagueia ao redor de sua impossibilidade e que diz a verdade sobre o estado, de prognóstico grave – mas sumamente estimulante – da literatura deste fim de milênio.”

Vila-Matas lista os mais diversos argumentos para ser um adepto do Não: falta de inspiração, fraude (um desprezo por si mesmo que leva o escritor a não reconhecer sua própria criatividade e preferir abandonar a escrita) e bloqueios. Quem sabe a vergonha de escrever, por saber que a partir do momento em que for publicado não poderá ser apagado do mundo e da memória, desestimule possíveis bons escritores a sequer começarem a colocar suas ideias no papel. Ou porque escritores como José Saramago roubam essas ideias. Livros não são publicados porque a história escrita não é fiel àquela imaginada primeiramente. Porque a literatura não oferece mais um verdadeiro desafio ao seu autor, se transforma em passatempo fácil e é abandonada como um brinquedo velho já viciado. Porque escrever um livro bom é impossível – todos os escritores são ruins e não há motivo para se incluir nessa lista. Ou ainda porque há tantos bons autores que a qualidade de sua escrita é considerada fora de alcance, e então é preferível nem tentar.

Esses sintomas aparecem em escritores famosos, desconhecidos, quem sabe até inventados – como Paranoico Perez, este que culpa Saramago de roubar-lhe as ideias. Oscar Wilde deseja não fazer nada, e assim o faz nos últimos anos da vida, tornando-se um bartleby. Melville, nessa pesquisa, também é colocado dentro do time que seu próprio personagem inspirou o nome. Salinger, Joseph Joubert e outros escritores – e não-escritores – figuram aqui como membros do amplo clube de bartlebys, e também não membros que são evocados para ajudar o leitor a entendê-los.

Para um narrador com total bloqueio e negação à escrita, Bartleby e companhia é um livro cheio de histórias e desculpas para não escrever, para desencorajar uma futura narrativa, um conto ou poesia. Com tantos argumentos para deixar qualquer inclinação à escrita de lado, ler Bartleby e companhia é gostar ainda mais daqueles que ignoraram todos esses sintomas e continuaram a abarrotar a cena literária com mais livros.