na-praiaHoje é raro um casal chegar na sua lua de mel sem saber o que deve – e como – fazer. O sexo não é mais aquele ato “sagrado”, que deve ser praticado apenas quando as duas almas apaixonadas estão ligadas pelos laços do matrimônio e toda essa lenga-lenga que persistiu a reprimir desejos durante tanto tempo. O homem sempre teve essa liberdade de ter algum tipo de relação sexual antes do casamento, e inclusive fora dele. Já para a mulher, sua virgindade era seu selo de honra, e tratar desse assunto com quem quer que fosse era um ato impensável. Existe ainda certo conservadorismo quando o assunto é a sexualidade da mulher, um conjunto de regras que deve reger o comportamento das “boas moças”, as para casar. Tudo besteira.

Na praia se passa no início dos anos 60, uma época em que os jovens estão experimentando maior liberdade em tudo: sexo, família, estudos, é a década da libertação, da quebra de regras conservadoras já ultrapassadas. Florence e Edward estão recém casados, em um hotelzinho na praia de Chesil, na Inglaterra, comemorando o matrimônio e a enfim entrada na vida adulta. Agora podem fazer o que quiserem, são os donos da própria vida. Porém, a ansiedade e medo resultados da inexperiência de ambos tornam a noite de núpcias em uma sucessão de angústias, e não de prazer. Neste livro, Ian McEwan revela o pensamento retrógrado dos dois jovens presos pela noção de dever que o homem e a mulher possuem no casamento, “educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível.”

Florence tem 22 anos, é uma jovem violinista, filha de um casal rico e conservador de Oxford. Cursou a faculdade de música em Londres, formou um quarteto de cordas que procura por um espaço nas apresentações de música clássica, e nessa noite, no hotel, está totalmente amedrontada pela ideia de ter que se deitar com seu marido. Ela o ama, mas apesar disso repudia o fato de que deve se entregar a ele. De “por fim, ele entra nela e felizmente, logo depois, ele ter entrado nela… será que ela precisava servil de portal para Edward na noite de núpcias?”, se pergunta. Ela nunca falou sobre sexo com sua mãe ou amigas, a única coisa que sabe sobre isso é o que leu no “manual das noivas”, cujas descrições dos “deveres de esposa” a deixaram enojada, e enquanto jantam, tenta encontrar uma forma de dizer isso a ele.

Edward é formado em História, também tem 22 anos, e conheceu Florence em uma reunião em um pub em Oxford contra a fabricação de bombas nucleares. É um jovem humilde e promissor, meio desconfortável dentro do mundo “superior” de Florence, e nessa noite sua única preocupação é não assustar sua esposa. Florence sempre ofereceu resistência a quaisquer avanços de Edward, a sugestão de uma visão ou toque a mais a assustava e a fazia fugir. Ele tenta conter seu desejo irrefreável por Florence para que, justamente nessa noite, ele não a amedronte e, principalmente, não a decepcione. McEwan estende a primeira noite dos noivos com prolongada descrição do que se passa individualmente entre Edward e Florence. Enquanto nada se concretiza, ele descortina o pano de fundo da relação dos jovens, como se conheceram, como esperam que o outro se comporte e, principalmente, suas diferenças, a impaciência de Edward com a frieza de Florence.

A forma com que o autor apresenta essa história e desenvolve as personagens faz parecer que a trama pertence a um tempo mais anterior do que os anos 60. Enquanto muitas pessoas estão passando pela libertação das convenções sociais, eles são uma ilha isolada ainda nas antigas regras da moral e bons costumes. Algo que evidencia muito bem isso é como Florence se comporta na noite de sua primeira vez: ela tem total horror ao que deve fazer – sexo com Edward –, mas toma todas as iniciativas para que isso aconteça, pois esse é o seu “dever de mulher”, é o que uma esposa deve fazer. McEwan oferece toda a descrição necessária para o leitor entender o contexto social em que os protagonistas cresceram e também as mudanças que agora essa sociedade enfrenta e como elas destoam do comportamento que eles ainda mantêm.

Essa descrição detalhada também dá o tom de ansiedade à leitura. Ele estende a expectativa sobre o que acontecerá entre os protagonistas, trabalhando com intensidade todo e qualquer movimento que o casal faz:

“Quando Edward a puxou para os braços dele, não foi para beijá-la, mas primeiro para apertá-la contra o corpo, e em seguida pôr a mão na sua nuca, procurando o fecho do vestido. A outra mão estava espalmada e firme sobre o delgado das costas dela, enquanto ela sussurrava alguma coisa no seu ouvido, tão forte e tão perto, que ele só ouvia um rugido de ar quente e úmido. Mas não dava para abrir o zíper com uma única mão, pelo menos não ao longo dos primeiros dois ou três centímetros. Era preciso segurar o vestido reto no alto com uma das mãos, enquanto se puxava o fecho com a outra, do contrário o tecido fino se dobrava e o zíper emperrava.”

A tensão e expectativas que McEwan constrói fazem aquilo que ele confessou adorar causar no leitor: ele o manipula a adiantar um caminho para a trama, mas depois dá o seu real desfecho, que pode não ser aquilo que o leitor espera, mas algo maior e melhor. Na praia é um livro curto que narra de forma arrebatadora o início da vida adulta desse casal, uma vida refreada pelos medos e expectativas de uma sociedade que não é mais obrigada a viver conforme as regras de seus pais.