o-que-deu-para-fazer-em-materia-de-historia-de-amorNão há amor, apenas isso. O que existem são trepadas, como diz a narradora-protagonista de O que deu para fazer em matéria de história de amor, de Elvira Vigna, publicado pela Companhia das Letras. Trepadas rápidas contra pias de banheiro, de relacionamentos que não são relacionamentos, apenas atrações físicas que ora existem, ora não, e que persistem nesse vai e vem por 30 anos de sua vida. Ela, que não é nomeada, poderia ser só chamada de narradora, pois a história que conta, a princípio, fala de outro casal. Ou outros casais.

Rose é casada com Arno, irmão de Gunther que é marido de Ingrid. Filhos de imigrantes alemães, se encontram semanalmente para partidas de bridge. Rose é expansiva, uma mulher moderna, que passa as tardes em casa deitada nua no sofá absorvendo os raios de sol que entram pela janela. Arno é quieto, concentrado, um artista plástico dedicado. De uma dessas partidas de bridge parte a primeira das trepadas contra a pia de um banheiro: Rose trai Arno com Gunther, e dessa traição não surge nenhuma espécie de culpa ou mágoa, mas nasce Roger. Roger que é o companheiro-não-companheiro e sócio da narradora, cuja história de amor – carnal – começa, também, em um banheiro, contra a pia.

O que engatilha essa história por ela contada é um pedido de Roger de que vá ao apartamento abandonado de seus pais no Guarujá para empacotar suas coisas e, quem sabe, encontrar uma última obra de arte que Arno pudesse ter deixado pronta antes de morrer para a galeria de Roger. Meio desgastada com o caso que mantém com seu amante, ela esmiúça o relacionamento dos pais de Roger para procurar um rumo para aquilo que mantém com ele, e aí entra o seu protagonismo na trama: desistir ou continuar tentando encontrar algum “amor” entre eles. É um resgate marcado por suposições, pelo que ela acredita que possa ter acontecido nas partidas de bridge, no breve encontro de Rose e Gunther, no que ela poderia ter dito a Arno antes de morrer. A narradora sabe o que aconteceu, mas não como, não com detalhes, e tenta passá-los ao leitor.

Ao narrar o adultério de Rose, Elvira mistura aos parágrafos a história da protagonista com Roger, marcando suas falas com muitas vírgulas e pontos, dando um ritmo fragmentado à leitura que permite a ela misturar o passado com o presente. Ela complementa o texto com os dilemas atuais da protagonista, sozinha no Guarujá, alimentando certa paranóia com o homem que faz serviços de pedreiro no apartamento vizinho, matando as últimas baratas que se alojam nos cantos do lugar e remexendo caixas e velharias de Rose e Arno. E “em matéria de história de amor”, ela descobre sua ausência, tanto para a protagonista – ela afirma haver paixão por Roger, ou ter amado ele algum dia, apenas nas últimas páginas do livro – quanto para Rose. Toda a trama já indica logo no começo a ameaça de um fim, que será levado a cabo ou não pelo que ela decidirá sozinha no Guarujá, remexendo um passado que nem é seu. Enquanto revela as intrincadas relações dos pais de seu amante e as dela própria, evidencia muito mais o impulso físico marcado por necessidades do corpo, do que os sentimentos – Arno, por exemplo, parece ser desprovido de qualquer reação pelas ações de Rose.

“Não é mais uma questão de tesão, nós dois. Ou só de tesão. Talvez nunca tenha sido.

Gosto dele, acho, não sei mais. Conheço fatos sobre ele, não ele. Faço histórias em que ele possa caber, todas um pouco falsas, como são as histórias. Não sei quem ele é. Acho que, enquanto não souber e precisar portanto fazer histórias, fico com ele. Quando não houver mais nada a adivinhar, tirar, vou embora. Talvez nunca vá. Talvez eu me engane. E nunca acabem, as histórias.” (p. 158)

O que deu para fazer em matéria de história de amor começa com uma indecisão e a leva até o fim. Segredos são revelados à protagonista, coisas que ela descobre por si mesma, mas que ainda mostram-se difusas e adicionam mais incertezas sobre esse passado, e o afastamento que procura de Roger não é definitivo. A decisão final que deve tomar, aceitá-lo ou não, não é totalmente revelada ao leitor. Ou é, mas escondida entre pistas que Elvira Vigna dá em outras passagens. Se houverem histórias, elas continuam a ser contadas. Mas se as histórias acabam – ou nunca existiram –, o que acontece? Deixando essa questão em aberto, Elvira encerra uma trama de amor nada piegas e que se permite a falta, justamente, de amor.