a-brincadeira-favoritaSe não fosse a dona do apartamento em que Leonard Cohen morava em Londres em 1959, talvez A brincadeira favorita não existisse. Sob a ameaça de despejo, Cohen se viu obrigado a escrever no mínimo três páginas por dia de seu primeiro romance. Nada como trabalhar sob pressão – o bastante para ficar preso à obra e reescrevê-la e melhorá-la por mais tempo. Em 1963, depois de dois livros de poesia publicados – que foram bem recebidos por leitores e críticos –, Leonard Cohen lançaria seu novo romance, que há poucos meses foi traduzido e lançado no Brasil pela Cosac Naify. Mesmo assim, ele é mais conhecido pelo trabalho de compositor e cantor do que pelos seus poemas e livros.

A brincadeira favorita é uma espécie de romance de formação. Conta a vida de Lawrence Breavman da sua infância em Montreal até os primeiros anos de sua vida adulta, quando troca o Canadá por Nova York. O que há em comum em todas as suas fases – o livro é dividido em quatro partes, cada uma delas um momento específico de sua vida – é o seu olhar atento às mulheres. Desde criança, a sexualidade de Breavman se mostrou precoce através das brincadeiras infantis com tons de erotismo que fazia com Lisa, sua vizinha, ao lado de Krantz, seu melhor amigo. Algo que para esse amigo, ainda, não parecia ter muita importância:

“Ela é perfeita, não é, Krantz?”

“O que ela tem de tão perfeita?”

“Você viu. Ela é perfeita.”

“Até mais, Breavman.”

Breavman saiu atrás dele no quintal.

“Ela é perfeita, Krantz, você não achou?”

Krantz tampou os ouvidos com os indicadores. Passaram pela Árvore de Bertha. Krantz começou a correr.

“Ela era mesmo perfeita, você tem que admitir, Krantz.”

Krantz era mais rápido.

São as mulheres da vida de Breavman que dão origem às suas histórias. Primeiro Lisa, a menina com quem inocentemente compartilhava tardes de íntimas brincadeiras. Depois Tamara, com quem por quatro anos manteve uma espécie de relacionamento consumado apenas num quartinho alugado. Depois Shell, uma mulher casada, mas em fase de separação, que conheceu em Nova York e que parece dividido entre querer assumir com ela algum compromisso ou deixar de lado para viver sua liberdade. É para Shell que ele conta todas essas memórias, as brincadeiras e tardes com Tamara, as breves aventuras com outras mulheres, tão breves que nem eram nomeadas. Ao contrário de seu desejo de hipnotizar as pessoas, parece que Breavman andava completamente hipnotizado pelos corpos femininos que encontrava na rua. Sempre escrevendo sobre eles, disfarçando seus diálogos com poesia.

O narrador de A brincadeira favorita constantemente se confunde com o seu protagonista. Parece que desde o início quem narra é o próprio Breavman, como se ele tratasse suas lembranças como as de outra pessoa. Mas nos momentos mais intensos, que despertaram mais emoções, a figura do narrador é deixada de lado e o próprio Breavman assume o relato desses relacionamentos, com uma troca de voz em meio à narrativa ou através de suas cartas e diários.

Leonard Cohen faz seu personagem incorporar a imagem do artista que em tudo vê poesia, arte e beleza. Seus diálogos com Krantz, Shell ou Tamara parecem meio deslocados dos temas que discutem, pois está sempre concentrado nessas belezas, seja sua visão do comportamento peculiar de um garoto em um acampamento em que é monitor, ou analisando o corpo de uma mulher. Tudo é visto com esse olhar poético, meio avoado, que difere da visão mais prática e realista das outras personagens.

Inicialmente uma autobiografia, depois transformada em ficção, é difícil dissociar a imagem de Breavman com a de seu criador. A brincadeira favorita, como seu primeiro romance, é um documento do próprio talento e conhecimento que Cohen já adquirira nos seus 29 anos de idade, quando o livro foi publicado. Assim como o protagonista se sente tão atraído pelas mulheres e pela poesia, o leitor não consegue resistir ao livro que tem em frente, e é contemplado com a beleza da narrativa de Cohen.