as-entrevistas-da-paris-review-vol-2A Paris Review é uma das maiores referência em revistas literárias. Fundada em 1953, o que guia a publicação é a criação literária e poética, e além de publicar autores e suas ficções, também abre espaço para a crítica – que quando lançada, propôs tirar a análise dos livros da exclusividade acadêmica e levá-la para um público mais amplo. Não são apenas os contos, poemas e críticas publicadas o grande conteúdo da Paris Review, mas também suas extensas entrevistas da série “Writers at Work”, que como o nome sugere, mostra ao leitor como grandes autores trabalham em suas obras, como criam.

Há pouco tempo a Companhia das Letras lançou no Brasil o segundo volume de As entrevistas da Paris Review, uma série de livros que reúnem as mais célebres entrevistas com escritores, jornalistas e autores de teatro. Se o primeiro volume contou com nomes como Truman Capote, Doris Lessing, Jorge Luis Borges, William Faulkner e Ernest Hemingway, o segundo traz um time composto por Joseph Brodsky, John Cheever, Julio Cortázar, Salman Rushdie, Hunter S. Thompson, Arthur Miller, Martin Amis, Louis Begley, Marguerite Yourcenar, Elizabeth Bishop, Milan Kundera e Vladimir Nabokov. Não é pouca coisa.

Uma grande característica dessas entrevistas da Paris Review é que não se tratam de meras perguntas e respostas. São textos criados a partir de vários e longos encontros dos entrevistadores com seus entrevistados, iniciados com uma acurada observação do jornalista que apresenta o autor que entrevista, lista suas principais obras e dá ao leitor o cenário e as condições em que as conversas se deram. E, o mais importante, fazem um perfil curto, mas revelador, sobre os autores. O objetivo central dessas entrevistas é mostrar como eles trabalham, como se relacionam com sua obra, os temas que elas abordam e a literatura em geral. Cada entrevistador ressalta o que é mais discutido sobre os livros desses escritores, demonstrando tanto conhecimento e familiaridade com a produção do autor, quanto experiência em conduzir a conversa para revelar aspectos curiosos sobre as visões que eles têm.

A coletânea inicia justamente com um nome do teatro: Arthur Miller. Entrevistado por Olga Carlisle e Rose Styron, a conversa se estendeu da escrita de suas peças a relações com autores, teatros e diretores. “Ainda acredito que quando uma peça questiona, chega a ameaçar nosso arranjo social, é aí que ela realmente nos sacode de maneira profunda e perigosa, e é aí que é preciso ser excelente; não basta ser bom”, falou Miller, que também disse sempre sentir que “o teatro era a forma mais emocionante e mais exigente que alguém poderia dominar”. A entrevista que segue é a de Vladimir Nabokov, e muito de seu começo se concentrou em Lolita, em como o livro foi recepcionado nos EUA e o que ele contém das opiniões de Nabokov. “Não, não é a minha percepção da imoralidade da relação entre Humbert e Lolita que é forte; é a percepção de Humbert. É ele que se importa, não eu. Eu não dou a mínima para a moral pública, nos Estados unidos ou em qualquer outro lugar”, respondeu a Herbert Gold ao ser questionado sobre sua visão da relação entre um homem mais velho com uma adolescente.

Há muito do humor dos autores dentro dessas entrevistas. Quando Annette Grant pergunta a John Cheever qual é o tipo ideal de editor, recebe como resposta: “Minha definição de um bom editor é um homem encantador, que me manda cheques polpudos, elogia o meu trabalho, minha beleza física e meu desempenho sexual e que tem um rígido controle sobre o dono da editora e o banco.” Tão bom quanto é Milan Kundera falando que “o kitsch é a negação absoluta da existência da merda”, dizendo que essa é a tese principal da sexta parte de A insustentável leveza do ser e seu tom provocador. E quando Douglas Brinkley pede a Hunter S. Thompson um comentário sobre muitos escritores dizerem nunca escrever sob efeito de bebida ou drogas?

“Eles estão mentindo. Ou talvez vocês tenham entrevistado uma gama muito estreita de escritores. É como dizer: ‘Quase sem exceção as mulheres que entrevistamos ao longo dos anos juram que nunca toparam sodomia’ – sem dizer que vocês fizeram todas as suas entrevistas num convento. Vocês entrevistaram Coleridge? Entrevistaram Poe? Scott Fitizgerald? Mark Twain? Fred Exley? Faulkner lhes contou que o que ele bebia o tempo todo era chá gelado e não uísque? Ora, faça-me o favor. Quem você acha que escreveu o Livro da Revelação, caralho? Um bando de padres sóbrios?”

Mas o importante de As entrevistas da Paris Review é, realmente, o ato de escrever. O que significa ser escritor. Para mim, a melhor resposta veio de Martin Amis:

“O que torna você um escritor? Você desenvolve um sentido extra que o exclui parcialmente da experiência. Quando o escritor vivencia as coisas, ele na verdade não está vivenciando cem por cento. Ele sempre se retrai e se pergunta qual é o significado daquilo, ou como seria aquilo no papel. Sempre essa atitude de desinteresse… Como se não tivesse a ver com você, certa imparcialidade fria.”

Ler As entrevistas da Paris Review – Vol. 2 é querer mergulhar na obra de cada entrevistado. Como as com Louis Begley e Tenesse Williams – essa é a única que foge do padrão dos outros textos, onde não há a voz do entrevistador, apenas o autor fazendo um monólogo sobre temas, livros e pessoas – que trazem um perfil tão completo e simpático dos autores que dá vontade de ter contato com o que escreveram imediatamente. Não é possível comentar todas essas entrevistas uma por uma, mas todas guardam uma essência desses escritores ao exporem seus motivos para escrever, ao contradizerem críticas levantadas pelos entrevistadores e mostrarem como a literatura não é apenas um meio de sustento, mas um modelo de vida.