HABIBI-CAPA-5L.inddAmor e fé podem ser as duas palavras que resumiriam Habibi, nova graphic novel de Craig Thompson. Foram anos de trabalho em cima desse volume de mais de 600 páginas ricamente detalhadas inspiradas nas histórias do Corão e nas Mil e uma noites. Só a caligrafia árabe, suponho, já configura um trabalho ardoroso nesse livro que chega agora ao Brasil pela Quadrinhos na Cia. Habibi conta a história de dois escravos que se uniram em busca da sobrevivência, criaram um mundo só deles, imaculado, repleto de histórias sagradas e seus ensinamentos. Porém, esse mundo em uma hora é desconstruído, quando seus dois habitantes são separados e, com essa desunião, descobrem ainda mais as relações que impulsionam os homens e o seu poder.

Dodola tinha 9 anos de idade quando foi vendida pelo seu pai a um escriba, que a tomou como esposa. Apesar de jovem demais para o casamento, mesmo o arranjado, ela aprendeu muito com seu marido, que a contou todas as histórias que copiava e a ensinou a ler e escrever. Mas pouco tempo depois, sua casa é invadida, o marido morto e a garotinha tomada como escrava. Dodola parece ter um dom especial para a fuga, consegue escapar de seus captores, e junto com ela leva Cam, um bebê negro de 3 anos que salvou da morte. Fugindo pelo deserto, eles encontram um barco em meio aos montes de areia e fazem dele seu lar. Dodola renomeia Cam para Zam, e por 12 anos vivem tranquilamente neste pequeno oásis que criaram, conseguindo água e alimentos com as caravanas que viam passar pelo deserto.

Parece até um conto de fadas, duas crianças vivendo e crescendo longe de qualquer civilização, sem depender de adultos ou de uma sociedade. Mas embora o país retratado por Thompson seja fictício, os problemas que ele contém são reais. Não é pela caridade que Dodola consegue comida para alimentar Zam, mas com seu próprio corpo, jovem e esbelto, e ela não é nada inocente e sabe o que pode conseguir com ele. O amor – de início maternal – que sente por Zam é o bastante para suportar a venda de seu corpo pela comida, para a sua sobrevivência, e esse é o primeiro ponto que emociona o leitor em Habibi. Dodola é de uma maturidade que poucos conquistam até na idade adulta, em momento algum se mostra enfraquecida ou descrente com a situação em que vivem e com o que deve fazer para que assim continuem a viver. As histórias que conta a Zam servem tanto para entretê-lo e acalmá-lo quanto para educá-lo, relembrar também dos aspectos sagrados do mundo.

Contudo, há a separação. Dodola é capturada, levada ao harém de um sultão que a desafia a dar prazer a ele por 70 noites consecutivas, sua imagem ligada a uma lenda que surgiu com as caravanas com que negociou. Zam, agora com 12 anos parte para um vilarejo a procura de sua amiga, mãe e irmã. A perda de contato entre eles define seus futuros, ambos não conseguem deixar a preocupação com o outro de lado. É a segunda grande demonstração de amor em Habibi, uma esperança constante de que estejam vivos, bem e que se reencontrem. As histórias sagradas novamente guiam os protagonistas, enriquecendo toda a trama que mais do que nunca se agarra à fé.

Habibi é uma leitura encantadora e completa por tratar de todos os lados e aspectos do homem. A capacidade de sobrevivência em meio ao deserto, dos conflitos. De desenhar uma história de amor e companheirismo entre tantas outras pessoas que apenas anseiam pela glória, a riqueza, o poder. E há a luxúria dos homens, aquela com que Dodola tenta tirar seu proveito, sacrificando o corpo em troca de vida, uma verdade que acaba por atormentar Zam.

Se a história em si já contém uma carga de maravilha e encantamento, os desenhos de Craig Thompson evidenciam isso ainda mais. Todos os traços são carregados de detalhe: o alfabeto ocidental se mistura à caligrafia árabe, as histórias contadas por Dodola são todas ricamente ornamentadas com arabescos, Thompson transpõe toda a suntuosidade de palácios de ricos sultões para a graphic novel, de fazer o leitor ficar preso por vários minutos em uma só página para absorver todos os detalhes.

Habibi é uma das histórias de amor mais completas que li, pois o mostra em todas as suas facetas: o fraternal, o carnal, o de amantes, tão profundo que a passagem do tempo não é capaz de dar um fim. E um amor que vem de dois estranhos, sem laços de sangue ou sociais, mas vindo de um lugar onde a vida não se sustenta. Mas eles o sustentaram. Lindo é o mínimo que se pode dizer sobre esse trabalho de Craig Thompson.