osfilhosdameianoiteÀ meia-noite de 15 de agosto de 1947, data em que a Índia oficializava sua independência e se tornava, enfim, uma república, milhares de crianças nasceram. Não exatamente a essa hora, mas ao longo dos primeiros 60 minutos da Índia como um país independente, essas crianças vieram ao mundo e foram chamadas de “filhos da meia-noite”. O fato de nascerem junto com seu próprio país poderia, por si só, ser especial. Mas como quase tudo na Índia é envolto por magia e fantasia – ou assim nos faz pensar suas lendas e histórias – elas vieram ao mundo com algo a mais. Com poderes que, mais tarde, seriam descobertos por outro filho da meia-noite.

Esse filho tem agora 31 anos, e enquanto cria fórmulas de condimentos em conserva e os deposita em potes numerados, cada um também com um título – como capítulos de um livro – conta sua história a uma mulher com o nome da deusa do excremento, Padma. Salim Sinai foi um dos dois meninos que nasceram exatamente à meia-noite desse 15 de agosto, e foi ele também quem reuniu todos os outros filhos e os fez se descobrirem telepaticamente. Com um nariz de tamanho descomunal e certa aptidão para o fracasso, o rico garoto muçulmano residente em uma “colina de dois andares” na capital Bombaim relembra, para Padma, toda a sua trajetória, a de sua família e a de seu país.

Os filhos da meia-noite foi o livro que rendeu a Salman Rushdie o Man Booker Prize de 1985, e em 1993 o Booker of Bookers Prize – prêmio que escolheu o melhor livro dos últimos 25 anos da premiação. O enredo lembra até um dramalhão mexicano – ou melhor, indiano, digno de Bollywood. Salim na verdade não é um filho da família Sinai. Ao nascer, uma enfermeira revolucionária e amargurada trocou na maternidade dois bebês. Salim, que nasceu hindu, foi criado na rica família muçulmana. Shiva, que nasceu muçulmano, cresceu na casa de um pobre cantor hindu. Duas personalidades contraditórias, que tiveram seus destinos alterados e desde a infância, ao se encontrarem sem saber da troca, já não se davam.

Apesar da família trocada, Salim cresceu como se fosse um legítimo Sinai. O nariz protuberante era creditado aos genes de seu avô, que protagoniza o relato de Sinai no início do livro, quando conta toda a história que envolveu seu casamento com a “Reverenda Mãe”. E entre casamentos e separações, chega enfim à sua própria história, repleta de desastres que desencadearam seus poderes ler pensamentos e, adiante, conectar os filhos da meia-noite. Crianças que podiam viajar no tempo, curar enfermidades, se transportar através das superfícies refletoras ou trocar de sexo. Crianças importantes na vida de Salim, mas com as quais nunca realmente se encontrou.

O extenso romance de 600 páginas passeia entre a história de seu protagonista e a da Índia. Tendo nascido no mesmo dia que seu país, Salim, em cada frase dita para Padma, destaca sua ligação com a terra em que vive. Para ele, a Índia é ela mesma uma espécie de sonho. Sendo assim, as histórias que conta não parecem em nada estranhas, são acontecimentos corriqueiros que encantam a cultura indiana. Ela só poderia, então, soar ao leitor como um sonho e uma grande fantasia, mas real e crível por fazer parte da natureza do lugar em que ela acontece.

Uma das melhores características de Salman Rushdie é a forma que ele transforma essa fantasia em realidade. Assim como acontece mais tarde em seus livros infantojuvenis, o leitor sabe que pessoas com superpoderes não existem, que Salim jamais teria real capacidade de ler pensamentos, ou possuir um nariz supersensitivo que distingue o cheiro de tudo – até dos sentimentos. Mas a narrativa criada por ele, uma metalinguagem que mostra o romance em construção, com Salim lendo sua história para Padma, que questiona, reclama, palpita sobre a sua direção, é tão crível que podemos tomar como real qualquer estranheza fantástica que haja no livro.

Se há autores que abominam estender suas tramas para além do enredo, lapidando o texto até restar apenas o essencial, Rushdie vai por um caminho contrário. Os filhos da meia-noite passeia por diversos lugares, personagens e histórias através das intervenções de Salim. O texto segue, basicamente, seu raciocínio que tenta organizar em um livro. Mas como todo raciocínio, ele às vezes se desvia. A maestria de Rushdie está em fazer desse desvio um elemento a mais para sua história, uma forma de construir seu personagem-narrador e torná-lo mais humano e não passível de erros ao leitor. E, mais surpreendente, fazer isso se encaixar na trama como se fosse uma peça indispensável. Diferente de “encher linguiça”, são nesses desvios, devaneios, parênteses, que Rushdie conquista o leitor e evidencia sua destreza com a escrita.

Os filhos da meia-noite é um livro maravilhoso, enraizado na realidade, mas que se permite passear nas histórias misteriosas e fantásticas, contribuindo ainda mais para a ideia de que a Índia é um país mágico e complexo, com mil poderes escondidos e mil faces que convivem entre si.