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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Últimas palavras, de Christopher Hitchens

ultimas-palavrasChristopher Hitchens teve discussões e embates calorosos com líderes religiosos e boa parte das pessoas que seguem um Deus. Seu ateísmo era irrefreável, as críticas carregadas de ironias contra as entidades religiosas e suas práticas eram grossas e imperdoáveis. Hitchens, fora seu conhecido ateísmo, foi colunista e crítico literário de revistas como a Vanity Fair, New Statesman e Slate. Foi nessa primeira revista que suas últimas palavras foram publicadas, últimas a partir da descoberta, em plena turnê de lançamento de sua autobiografia, Hitch-22, de um câncer de laringe que o mataria em 2011.

As colunas sobre sua doença publicadas em quase um ano de tratamento contra o câncer foram reunidas no livro Últimas palavras, traduzido recentemente no Brasil pela Globo Livros. Com prefácio de Graydon Carter e posfácio de sua esposa, Carol Blue, o volume breve mostra o gradual enfraquecimento da saúde do crítico, mas sem apelar para a autopiedade e nem, como muitos esperavam, se inclinar para alguma crença em um milagre de salvação. Hitchens continua usando sua ironia para relatar os efeitos do câncer e dos tratamentos, difundir sua visão ateísta e outras “máximas” propagadas sobre a força para sobreviver a um mal que cresce em seu próprio corpo. O livro é como que um diário de como ele se sente morrendo, deixando para trás amigos e famílias, sem poder ou conseguir corresponder aos desejos de melhoras que tanto recebe.

“Pessoalmente, adoro o imaginário da luta. Algumas vezes, gostaria de sofrer por uma boa causa ou arriscar a vida pelo bem dos outros, em vez de ser apenas um paciente de alto risco. Mas permita-me informá-lo de que ao se sentar numa sala com um grupo de outros finalistas, quando pessoas gentis ligam uma enorme bolsa transparente de veneno ao seu braço, quando você lê ou não lê um livro enquanto o saco de veneno gradualmente se esvazia em seu sistema circulatório, a imagem do soldado ou revolucionário heróico é a última coisa que lhe ocorre. Você se sente atolado em passividade e fraqueza: dissolvendo-se em impotência como um cubo de açúcar na água.”

Quando anunciou publicamente que estava com câncer, Hitchens recebeu inúmeras mensagens de apoio e, quiçá em número igual ou superior, mensagens que o atacaram e interpretaram a doença como castigo aos anos e anos em que blasfemou contra Deus. Esse é o tema do primeiro texto de Últimas palavras, que logo no início levanta a questão religiosa e abre caminho para Hitchens mostrar, mais uma vez, como tais mensagens demonstram o que as religiões guardam de doentio. Hitchens se mostra consciente da doença, de que ela é consequência das próprias ações – o excesso de bebidas e cigarros – e não um castigo divino por ter sido um “mau garoto”. A mesma crítica reaparece no texto seguinte, em que fala sobre as preces e orações que amigos e conhecidos disseram estar fazendo por ele, para que tivesse uma boa morte – e vida após a morte. Embora agradecido por todo o carinho e preocupação que vinha recebendo de todos os lados, Hitchens se vê obrigado a explicar o motivo de não considerar e acreditar em tais orações, que para ele são prova do egoísmo religioso – você reza para a entidade interceder a seu favor em detrimento de todos os outros.

Christopher Hitchens não parece grosseiro ou insensível ao fazer tais ataques às religiões, e elas não são o centro desses seus últimos textos. O que Últimas palavras relata é como o câncer toma conta do corpo do crítico, como ele fica esperançoso com as evoluções médicas que podem lhe trazer alguma cura ou sobrevida, e como desanima quando essas promessas da medicina não são aplicáveis à sua condição ou não funcionam. Os últimos capítulos do livro mostram um claro abatimento, evidenciam sua fraqueza – há um texto dedicado ao ditado “o que não me mata me fortalece”, desconstruído por Hitchens por não faz sentido algum para ele, debilitado pela quimioterapia – e a tristeza de deixar de existir.

Com ou sem religião, com ou sem Deus, qualquer pessoa tomada pela doença acaba chegando a esse estágio de tristeza e enfraquecimento. Os versos esparsos e inacabados que encerram esse relato de Hitchens evidenciam seu estado fragilizado. O que Últimas palavras tem a contar é o que o câncer permitiu a ele que fosse contado no tempo que ela lhe concedeu.