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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Norwegian Wood, de Haruki Murakami

norwegian-woodNas últimas semanas, o suicídio tem virado um tema de reportagens e discussões pela mídia. Isso no jornalismo brasileiro, que raramente relata casos em que pessoas tiram a própria vida – uma questão ética da profissão que até hoje ainda não conseguem explicar direito. Houve dois casos recentes que chamaram bastante atenção: o da menina indiana de 17 anos, levada pela polícia a não denunciar o estupro coletivo que sofreu e decidiu se matar; e a de uma jovem estagiária de advocacia paulista, estuprada pelos colegas do trabalho numa festa de fim de ano que se jogou do prédio em que morava. Ambos os casos tem por trás do suicídio um trauma físico e mental enorme, uma violação do corpo e a impunidade dos agressores. Coincidentemente, enquanto esses casos vinham à tona na mídia brasileira, estava lendo Norwegian Wood, livro publicado pelo japonês Haruki Murakami em 1987, em que o suicídio tem uma natureza levemente diferente da que impulsionou essas tragédias reais.

Toru Watanabe está desembarcando em Hamburgo quando ouve, dentro do avião, a canção “Norwegian Wood”, dos Beatles, que reacende sua memória sobre Naoko, uma grande amiga que teve na adolescência. A partir disso, narra a sua vida nos primeiros anos na faculdade de Tóquio, tendo como ponto central o relacionamento conturbado com ela, marcado por perdas e sentimentos confusos e dolorosos. Naoko era namorada de Kizuki, seu melhor amigo, que se matou aos 17 anos sem deixar aviso ou alguma carta explicando seus motivos. Dois anos depois, Toru reencontra Naoko em Tóquio e começam a sair mais vezes juntos, até o ponto em que os dois se envolvem afetivamente. Logo depois, ela se retira para uma clínica a fim de tratar distúrbios que passa a sentir por conta do conflito de estar envolvida com o melhor amigo do namorado morto, e outras questões íntimas que mais tarde revelará ao protagonista.

Enquanto isso, sozinho na cidade, Toru começa a se relacionar lentamente com Midori, uma colega da faculdade que é muito mais aberta sexualmente, com ideias loucas e espevitadas que divertem Toru, ainda apaixonado por Naoko. Mais que um livro sobre a relação entre os dois jovens, Norwegian Wood é mais uma história sobre o próprio Toru, um garoto quieto e reservado entrando na vida adulta, sem muitas ambições ou uma ideologia pela qual lutar, como seus colegas no final dos anos 1960. Ele se mantém alheio e afastado de praticamente tudo, prefere viver sozinho, lendo, bebendo e contemplando como as pessoas se movem à sua volta. Não tão desprendido do mundo como um Holden Coulfield, mas com características semelhantes, um personagem difícil de não gostar logo nas primeiras linhas.

“A maioria desses universitários é uma farsa completa. Eles morrem de medo de que alguém descubra que eles não sabem alguma coisa. Todos leem os mesmos livros e todos usam as mesmas palavras, e se masturbam escutando John Coltrane e assistindo a filmes do Pasolini. Você chama isso de revolução?”

Toru não é um jovem fútil ou absorvido pelas lutas partidárias como os outros garotos da época, período em que mudanças culturais e sociais estavam em andamento pelo mundo todo. Nem ele nem o leitor são capazes de dizer o que espera de sua vida agora, jovem, ou da adulta que começa a viver. Parece procurar, apenas, uma paz de espírito e a encontra basicamente na solidão em que vive. Com poucos amigos, ele é paciente com Midori e Naoko, embora tenha seus momentos de sumiço, em que está envolvido demais na própria contemplação e isolamento para sequer dar algum sinal de vida para as garotas. Por ser tão centrado, deixa algumas coisas passarem despercebidas, causando descontentamento naqueles que esperam dele um pouco mais de compreensão e companheirismo. Por conta disso, Midori e Nagasawa, o único amigo homem que tem, dizem que ele parece incapaz de amar, de demonstrar sentimentos, por mais que ele absorva os dos outros e permaneça apaixonado por Naoko.

Murakami cria uma miríade de personagens destoantes em Norwegian Wood. Certamente por conta do caráter revolucionário da época em que a história transcorre, os opostos geralmente se encontram juntos no mesmo ambiente. Exemplo disso é Nagasawa e sua namorada, Hatsumi, tão distintos ideologicamente um do outro; e Midori e seu namorado, ela muito liberal, ele conservador. Essas diferenças marcantes se mostram principalmente no momento do sexo, fundamental nas relações que o protagonista mantém com essas pessoas – até nos momentos de ausência, sempre há uma tensão sexual envolvendo as personagens. Toru chega a se perguntar, e a questionar diretamente os próprios amigos, sobre como conseguem manter relações com pessoas tão diferentes. Isso desencadeia também várias dúvidas existenciais do protagonista, sozinho numa cidade enorme com tantas pessoas, incapaz de estabelecer com elas relações de proximidade, desejando ter por perto Naoko, que preferiu se afastar para tratar de seus próprios problemas.

“- […] Ninguém sabe sobre as razões que a levaram a cometer suicídio. Do mesmo jeito que Kizuki. Exatamente igual, sabia? Ela também tinha 17 anos e nunca deu sinais de que se suicidaria, não deixou mensagem… Não é parecido?

– É mesmo – exclamou.

– Todos diziam que foi por ser muito inteligente, porque ela lia livros demais, coisas assim.”

O tema do suicídio vai tomando proporções maiores dentro do livro, não sendo apenas um pontapé inicial para a história que Toru conta. Ele se estende a outras personagens que acabam tendo alguma relação com o protagonista. O que faria essas pessoas tão jovens tirarem a própria vida? Toru não chega a se fazer essa pergunta, por mais que esteja próximo de vários casos assim. O suicídio é um ponto importante dentro da trama, pois está em constante contraste com a juventude dessas pessoas, surgindo quando elas deveriam estar querendo viver todas as experiências possíveis enquanto ainda não possuem muitas responsabilidades da vida adulta. E, apesar disso, esses garotos todos preferem abandoná-la. Murakami não dá uma resposta ou motivo para a desistência precoce da vida, tudo é muito melancólico e deprimente, incitando o leitor a pensar por si mesmo nessas questões.

A lição que Toru aprende logo no início do livro, mas que se confirma dolorosamente no final, é que a morte não é o fim de tudo – não para quem continua a viver. Ela faz parte da vida, é um fato com que as pessoas devem aprender a conviver. Contudo, não é por isso que cada nova perda não seja tão ou mais triste e inesperada que a anterior. Faz parte do curso natural da vida sofrer e ser feliz. Uma coisa não existe sem a outra.

Durante a leitura de Norwegian Wood o narrador é completamente envolvido pelas histórias dessas personagens. Quando Murakami narra a paisagem da montanha onde Naoko se interna, por exemplo, é possível sentir a tranquilidade do lugar, as descrições passam ao leitor exatamente aquilo que as personagens estão sentido naquelas cenas. Por conta disso, os trechos em que mais me entretinha eram aqueles em que Toru esteve com Midori, Naoko e Reiko, sua companheira na instituição, por serem passagens em que dialogavam muito mais e expunham uns para outros seus pensamentos, esclarecendo suas situações psicológicas aos poucos para o protagonista e o leitor.

A narrativa leve, que referencia elementos culturais ocidentais e orientais, aproxima mais o leitor do ambiente criado por Murakami. Como primeiro contato com o autor, Norwegian Wood certamente abriu o apetite para a leitura de seus outros livros.