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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, de David Foster Wallace

ficando-longe-do-fatoDavid Foster Wallace não era um completo estranho para mim quando comecei a ler seu segundo livro publicado aqui no Brasil, uma coletânea de ensaios reunidos por Daniel Galera com tradução sua e de Daniel Pellizzari, que tem o curioso nome de Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo. O escritor, que se matou em 2008, já tinha uma certa fama entre todos os meus amigos dessa vidinha literária, então era como se eu já o conhecesse mesmo sem ter lido. Mas, na verdade, havia feito algum contato com a obra dele: Pense na lagosta, um dos ensaios que compõem esse volume que foi publicado na edição de setembro do ano passado na piauíIsto é água, texto também presente nesse livro e que pipoca eventualmente pela internet, ePara sempre em cima, trecho do primeiro livro publicado em terras brasileiras, Breve entrevistas com homens hediondos,disponibilizado no site da Companhia das Letras.

Ou seja, começar Ficando longe… era como reencontrar algum autor há muito tempo não lido, que diz alguma coisa sobre e para você, mas que, surpreendentemente, nunca havia sido realmente apreciado. Já comecei a leitura imaginando que iria gostar realmente desses ensaios, mas não esperava que os textos de DFW – vamos ser íntimos – teriam tanto a entregar. Quando falo em “ensaios”, não pense que se trata de longos textos de teor acadêmico sobre algum tema qualquer que intrigue os estudiosos – que é o que muitas vezes tendemos a pensar. Os textos desse exemplar estão bem longe disso, são carregados de devaneios, detalhes, teorias acerca de algum aspecto perturbador da vida do médio homem norte-americano – que pode ser muito parecida com a vida de um médio homem brasileiro. E os temas, bem, esses podem ser os mais variados e incomuns possíveis.

Por exemplo, o que um professor/escritor estaria fazendo na Feira Estadual de Illinois de 1993 sendo que ele nem aprecia esse tipo de aglomeração? Pois é para lá que ele é enviado pela revista Harper’spara cobrir o tal evento – que lembra muito a Expointer, que acontece aqui em Esteio, no Rio Grande do Sul, todo mês de setembro. Agricultores, expositores de empresas de tratores, criadores de gado, cabras, porcos… Tudo isso não parece combinar muito com esse autor, mas ele está lá no meio, vivendo as experiências de um visitante usual da feira (mas não tão usual assim, já que está lá como jornalista e pode entrar e comer de graça). E enquanto narra com desprendimento, em forma de diário, essa experiência, apresenta ao leitor todo um questionamento, ou uma revelação, da razão de tantas pessoas escolherem essa aglomeração, as filas, o calor, enquanto que para ele, como um ser Único-e-Central cujo mundo todo é feito apenas para si, não entende tanto fervor.

O segundo ensaio da coletânea é o que mais me conquistou e me arrumou um lugar na fila enorme de fãs de David Foster Wallace. “Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer” é outro texto encomendado pela mesma revista, que ao invés de enviá-lo em mais algum evento regional de tamanho incomensurável, lhe paga uma tranquila semana de viagem em um cruzeiro de luxo pelas ilhas do Caribe. E toda a mordomia e “mimos” recebidos pelo autor desperta no relato aquelas confissões com as quais muito me identifiquei. É fácil ficar satisfeita com um artigo quando autor e leitor têm o pensamento parecido, mas nesse caso o que DFW ofereceu foi além dessa identificação, foi uma definição dele mesmo – e que serviu muito para mim. Tanta pompa nesse cruzeiro – ele não precisava mover um dedo nem para tirar uma toalha do lugar, que prontamente alguém da tripulação estava pronto para fazer tudo por ele – despertou nada além de uma solidão, uma “agorafobia” e fez renascer a “Criança Insatisfeita” dentro do escritor: aquela que sempre quer mais, sempre quer melhor e sempre quer agora. Eu sou uma dessas “Crianças Insatisfeitas”, que esperneiam e reclamam quando a mínima coisa não dá certo, ou quando o que quer – e quando quer, quer rápido – não está ao alcance. Um mal do adulto mimado, paparicado, que diz ir para uma viagem de sete dias no meio do mar para relaxar, quando na verdade quer é ser servido, “ser entretido por alguém que claramente não gosta de você e sentir que você merece esse desprezo, ao mesmo tempo que se ressente disso.”

Essa cobertura “jornalística” é puramente sensorial, adornada com alguns fatos curiosos apresentados em longas notas de rodapé – às vezes contendo notas de rodapé das notas de rodapé – e reflexões íntimas sobre assuntos que aquele momento específico trás à tona. Há toda a descrição do que ele vê, do que vivencia, e há também tudo o que ele sente, numa linguagem intimista e sarcástica. Engraçado ao abordar esses problemas humanos e dilemas morais – o vazio, a incompreensão, a falta de nexo do comportamento humano e do funcionamento do mundo.

Minha leitura de Ficando longe… atingiu níveis de autoajuda: quase todas as questões levantadas por DFW, sensações e perturbações que constituem seu pensamento estão também presentes em mim, principalmente naqueles momentos antes do sono, em que você reflete sobre o que deveria ter dito naquela briga, alimenta paranoias sobre o que os outros pensam de você mesmo, nota como muitas coisas na vida não fazem sentido – ou, o pior de todos, você perde a crença de que vale alguma coisa para o mundo, ao mesmo tempo em que pensa ser A Coisa Mais Importante do Mundo Mas Ninguém Mais Nota Isso. Contudo, há uma diferença entre esses textos de DFW e a autoajuda: ela apresenta o problema seguido de uma solução em frases fáceis e de efeito, sabedorias comuns e motivadoras. Já ele fica apenas no plano do problema, da perturbação, e o resultado acaba sendo muito mais desmotivador do que o contrário – mas ao mesmo tempo há certo conforto por ver que não é a única pessoa que “sofre” desses tormentos egoístas.

“Alguns comentários sobre a graça de Kafka dos quais provavelmente não se omitiu o bastante”, “Pense na lagosta”, “Isto é água” e “Federer como experiência religiosa” seguem o mesmo tom, sempre trazendo, além do tema em questão, algum dilema moral, alguma confissão de seu próprio egoísmo ou de nossa cegueira diante de coisas simples que queremos ter, mas não enxergamos – provavelmente porque essa “Criança Insatisfeita” está gastando as energias reclamando. Além de toda essa experiência sentimental que tive com o livro, DFW oferece muito mais: O humor refinado, os fatos inusitados, o uso das palavras mais informais na hora certa. Tanto hype em cima de um autor pode gerar um efeito contrário, de que tudo está sendo muito exagerado sobre ele. Mas, mesmo concordando que sim, ele pode muito bem não corresponder às expectativas, não deixe DFW passar com tanta indiferença. Dê uma olhada nele, de verdade. Vai valer à pena.