liberdade-franzenEm todo ano, por umas três ou quatro vezes, algum livro se transforma na coqueluche editorial. O sucesso, nacional ou internacional se espalha tanto que 8 em cada 10 leitores vão querer ler para confirmar o alvoroço em torno do livro, ter argumentos contrários, matar a curiosidade, ver “qual é” a desse autor – os outros dois leitores não leem simplesmente porque o livro está muito mainstream e preferem não entrar nessa discussão da maioria, nem para falar bem, nem para falar mal. Em 2010, isso aconteceu com Liberdade, do norte-americano Jonathan Franzen. Um romance tão aclamado que a editora que o publica no Brasil, a Companhia das Letras, procurou lançá-lo o mais rápido possível. Considerado o livro do século – isso porque estávamos apenas na primeira década dos anos 2000 –, uma obra tão boa que até a Ophra, que estava meio “brigada” com o escritor, voltou a considerá-lo. Enfim, Jonathan Franzen virou celebridade por conta de Liberdade.

E quando as encomendas internacionais chegaram, quase que junto com a própria tradução para português, as minhas expectativas despencaram por conta dos comentários de muitos amigos que são bons leitores: Liberdade não tinha nada demais. A sentença esfriou minha curiosidade, e apenas agora, pouco mais de dois anos depois do lançamento, decidi ver por mim mesma “qual é” a desse livro. De Franzen, antes, só havia lido As correções, que adorei.

A primeira coisa que pensei ao começar a leitura foi que Franzen realmente adora uma clássica família-classe-média-alta-estadunidense. Assim como em As correções, Liberdade versa sobre um núcleo familiar e os seus dramas em um cenário de mudanças e traumas do país norte-americano. É como o próprio Franzen disse na Flip do ano passado: as pessoas se interessam pela tragédia, ninguém quer ler uma história sobre uma família feliz. Famílias felizes não rendem, mas a partir do momento em que começam a apresentar problemas, aí sim elas se tornam interessantes para a ficção.

Patty e Walter Berglund são um casal tranquilo do subúrbio de St. Paul, na Virgínia. Walter é advogado, depois de deixar seu emprego na 3M passou a trabalhar para ONGs de preservação do meio-ambiente – gosta de observar pássaros e tem uma constante preocupação com o crescimento populacional desenfreado no mundo todo. Patty é a perfeita dona-de-casa: não trabalha, vive apenas para se dedicar ao lar e aos filhos, mantém boas relações com os vizinhos, mas antes disso era uma promissora jogadora de basquete. Do casamento de Patty e Walter nasceram Jéssica, uma garota responsável e madura que pouco acrescenta nessa receita dramática; e Joey, o caçula independente e precoce que é o estopim da derrocada dos Berglund. Além deles, outro personagem chave de Liberdade é Richard Katz, roqueiro que vive em Nova York e que, na juventude, era o melhor amigo de Walter e quase teve uma relação com Patty. As atitudes de Joey aliadas ao ressurgimento de Richard na vida dos Berglund estoura mudanças em Patty, que por fim marca o destino de toda a família.

Comparando com As correções, Liberdade não apresenta nenhuma grande mudança no estilo de Jonathan Franzen. Sua narrativa continua concentrada nos dramas das personagens, preocupada em mostrar ao leitor toda a trajetória – família, trabalho, amigos, casos – de cada um, que reunidas formam as suas personalidades. A história de Patty e Walter é contada desde a sua origem: como era a família de ambos, o encontro na faculdade, os desejos da juventude e as expectativas ou derrotas que guardam quando adultos. O mesmo para Richard e, claro, Joey, que pode ser considerado o protagonista da primeira parte do livro que narra como ele se envolve com sua vizinha, Connie, e como a amizade infantil se transforma em uma relação carnal que muda a relação entre mãe e filho e causa embates furiosos sobre direitos e deveres de um adolescente. Até aí, a leitura segue o mesmo nível de seu romance anterior, com igual intensidade e qualidade.

Contudo, um dos pontos mais criticados em Liberdade vem logo em seguida: um trecho de tamanho considerável escrito por Patty, atividade recomendada pelo seu terapeuta. Não que o enredo perca o seu fio ou que a sucessão de acontecimentos perca seu encanto, mas estranha ao leitor o fato de que Franzen optou por não alterar o estilo do texto ao trocar de narrador. O relato de Patty – a penúltima parte do livro é escrita por ela também, de forma igual – segue na terceira pessoa, como se fosse, ainda, o narrador onisciente do início. Não há mudança de tom, características particulares da personagem (exceto o termo “a autobiógrafa”, inserido toda vez em que ela quer explicar suas pretensões enquanto escreve) ou algum detalhe mais significativo. Esclarecendo melhor, não é que o livro perca totalmente a sua força, mas intriga o fato de que não houve maior esforço para diferenciar o narrador do livro com as revelações terapêuticas de Patty – que não podem ser ignoradas, pois o fato de ela escrevê-las faz parte do desfecho do livro.

Mas o que o livro guarda de tão surpreendente? Não sou grande conhecedora da cultura norte-americana e de como são as relações familiares comuns do país, mas a força de Liberdade está em mostrar uma realidade longe da perfeição que as famílias sustentam. O casamento de Patty e Walter enfraquece a cada nova investida de impulsos causados pelo retorno de Richard, pela desobediência de Joey e os desejos íntimos de cada um. Impulsos, esses, na maioria movidos pelo desejo sexual: a atração entre Patty e Richard, a relação de Joey e Connie, um provável caso entre Walter e sua assistente. Jessica é uma das personagens com pouco destaque justamente por não ter nenhum dilema romântico/amoroso/sexual que mereça atenção do narrador ou de sua família. Toda a história gira em torno desses impulsos e, claro, de como cada um usa suas escolhas, sua liberdade, para ceder a eles ou não.

Outras questões presentes no romance, como os ataques de 11 de setembro – a trama se passa, inicialmente, poucos anos depois do atentado – e as causas ambientais e sociais de Walter são um pano de fundo para essas relações conflituosas entre uma tradicional família de classe média. O que importa para essas personagens são as suas expectativas, os caminhos que escolheram tomar. Com a ressalva desse lapso narrativo de Franzen, que foram os capítulos cedidos à voz de Patty, Liberdade tem um saldo positivo como entretenimento e também como reflexão, mas não tem aquele ingrediente surpreendente que tanto foi alardeado sobre o “melhor livro” que 2010 viu ser publicado.