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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera

barba-ensopada-de-sangueHá sempre altas expectativas quando um futuro lançamento é muito comentado. Se os burburinhos sobre um livro já se espalham com entusiasmo mesmo antes de ele ficar pronto, significa que há algo grande vindo por aí. Quando um trecho desse livro é selecionado entre os 20 melhores da ficção brasileira para ser publicado em uma revista de renome, o nível de curiosidade e certeza de que o livro será bom só aumenta. Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, deve ter sido um dos lançamentos nacionais mais comentados de 2012, com direitos de tradução vendidos para outros países antes mesmo de chegar às livrarias. Um bafafá danado. Apnéia, título que deu ao primeiro capítulo da obra que foi publicado na Granta, foi um dos textos que mais gostei da coletânea. É óbvio que o livro seria lido com curiosidade e entusiasmo.

O fim da leitura não ficou abaixo e nem superou as expectativas: era o que eu esperava, um livro bom. Não maravilhoso, fenomenal, a melhor coisa que li na vida, apenas bom. Faz sentido começar comentando sobre o que ficou ao encerrar a leitura, pois é com o final que ela começa. Não é o primeiro capítulo publicado na Granta que abre o livro, mas sim um prólogo onde um homem narra em primeira pessoa uma história sobre um tio que nunca conheceu, cuja vida decidiu investigar depois de sua morte. Contudo, ao ler a sinopse o leitor já sabe que o protagonista do romance não procura desvendar o que aconteceu com a vida de seu tio. Ele quer saber da vida de seu avô. Um início que pode confundir alguns leitores, ou deixá-los em alerta para o desfecho da história antes mesmo de começar a enveredar por ela.

O protagonista sem nome, identificado pelas outras personagens geralmente com a alcunha de “nadador”, recebe um aviso de seu pai de que no dia seguinte irá se matar. Na conversa que tem com ele antes de revelar seu plano suicida, ele lhe conta a história de seu avô, Gaudério, um homem arredio que havia abandonado a vida no Rio Grande do Sul e foi morto em Garopaba, uma pequena, porém famosa, cidade no litoral de Santa Catarina. Além de avisar de sua morte e contar essa história, o homem ainda faz um último pedido ao filho: que mate Beta, a sua cadela que lhe acompanhou por toda a vida.  Mas quando o pai morre, o nadador não cumpre o seu último pedido. Abandona Porto Alegre e leva Beta junto consigo para Garopaba. E aí então toda a história começa.

Formado em educação física e treinador de natação, o protagonista – cujos movimentos acompanhamos pela narração em terceira pessoa – possui uma particularidade em seu cérebro, um defeito que não permite que ele memorize rostos. Ele esquece em poucos minutos como são as suas próprias feições, que descobre serem bem parecidas com as do avô morto. Essa condição não lhe atrapalha de todo o cotidiano, apenas gera alguns constrangimentos quando as pessoas não conhecem esse seu problema neurológico. E o rosto, também, não é o único meio de se reconhecer uma pessoa. Por isso, ele presta atenção a cada detalhe do comportamento de quem o rodeia: o tom de voz, os gestos, informações isoladas que consegue relacionar a uma pessoa específica. O que algumas resenhas colocaram como ponto negativo do livro, a atenção exacerbada de Galera em narrar detalhes aparentemente sem necessidade para a trama, é uma forma de reafirmar e consolidar essa condição do protagonista. A história não é contada ao leitor sob a perspectiva de outra personagem que não a do nadador – com exceção de algumas notas de rodapé, narradas em primeira pessoa por outras personagens que dão conta de breves momentos da vida do protagonista. Ou seja, enxergamos o que ele enxerga. E se ele não reconhece rostos e deve direcionar o olhar e a memória para um gesto, um contexto ou um cenário, assim a narração leva o leitor a reconhecer junto com ele as personagens com quem interage – sem dizer quem é, mas juntando informações, detalhe por detalhe, até que a lembrança e o reconhecimento se formem.

Quando li Cidade aberta, de Teju Cole, o que me atraiu a gostar do romance foi o caráter andarilho de Julius, que lhe permite abrir a mente para lembranças e pensamentos que necessariamente não levam a trama para lugar algum. Barba ensopada de sangue tem traços parecidos. O protagonista, ao chegar em Garopaba, procura investigar o que aconteceu com o avô – se havia morrido e como –, mas esse não é o principal objetivo de sua ida para lá. Nem se isolar da família e lembranças de um relacionamento frustrado que teve com uma mulher que o trocou pelo irmão mais velho. Quando ele diz querer apenas “morar na praia”, é isso mesmo o que quer. Levar uma vida tranquila dando aulas de natação, nadando no mar, correndo pela praia. E só. Não que descobrir a história de seu avô não seja importante para sua própria história, mas vai muito além disso.

O que Daniel Galera faz em todo o romance é construir uma identidade. E essa identidade não é a reconstrução da vida do avô, mas sim a do próprio protagonista. Uma identidade que, como as três primeiras páginas do livro mostram, já é dada ao leitor logo de cara. Ela se assemelha muito à do avô – assim como são semelhantes fisicamente – e ao longo do livro vemos como se constroem as duas: pelo que o protagonista descobre e pelo que ele mesmo vai se tornando. A imagem do homem reservado, calmo, generoso, resistente, forte, misterioso e independente. Isso tudo é desenhado pelo narrador no decorrer do romance, que, no final, ao reler as palavras do sobrinho, é retocado pelo falatório fantástico dos moradores da cidade.

Isso também deixa um gosto de continuidade à história. O nadador vira uma espécie de lenda de Garopaba assim como Gaudério. Um membro de sua família pesquisa sobre sua vida assim como ele fez com o avô. Conhecemos o seu fim – envolto em mistério –, mas também podemos imaginar que a sua história continua com o sobrinho, sobrevive com o falatório dos moradores de Garopaba que repassam a história para uma nova geração. Enfim, as páginas terminam, mas para o leitor a história pode continuar.

A construção do protagonista de Barba ensopada de sangue é o que interessa ao leitor. E ele vivencia momentos distintos durante a leitura, incluindo a ação em uma luta, a apreensão de um encontro, a aventura de uma caminhada no meio das florestas e praias desertas do litoral catarinense, o mistério que envolve um lugar. Como se fossem várias pequenas histórias, vivências como a temos em nossas vidas, diferentes na forma, mas ligadas por um mesmo fio. A leitura é um agradável caminho que se percorre, com um protagonista emblemático e curioso que vale à pena conhecer.