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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Os enamoramentos, de Javier Marías

os-enamoramentosFalar de amor é passatempo preferido da literatura. Amores, paixões, relacionamentos que se formam ou que se desgastam são matéria-prima para a maioria dos romances – quando se fala em “romance”, o gênero, muitos não familiarizados tendem a confundir com uma história de amor, um livro sobre uma moça que encontra um rapaz e eles-se-apaixonam-e-devem-enfrentar-vários-desafios-para-ficarem-juntos. Esse seria um esquema clássico de uma história de amor. Mas Os enamoramentos, de Javier Marías, passa longe dessa fórmula. Não parece ser uma história de amor, mas uma história sobre o amor, em suas formas mais variadas e que impulsionam ações não necessariamente corajosas ou moralmente belas.

María Dolz trabalha em uma editora em Madrid, e todos os dias pela manhã toma seu café em uma cafeteria perto de seu escritório. E todos os dias observa aquele que chama de Casal Perfeito, um homem e uma mulher que estão também todas as manhãs naquele café, às vezes com os filhos pequenos, às vezes sozinhos, mas sempre o motivo de María chegar atrasada para o trabalho. O que ela sente ao observar esse casal não é inveja, como muitos poderiam pensar – porque o amor alheio dá inveja, sim, naqueles que não têm um amor ou contam apenas com um caso mal resolvido. O que prende sua atenção é a forma como parecem se amar incondicionalmente, como o humor do homem e da mulher combinam, como parecem perfeitos um para o outro e inabaláveis. Até que ele morre.

Miguel Devern – ou Desvernes – é brutalmente assassinado a facadas por um flanelinha que o confundiu com outra pessoa. Em plena luz do dia, e no dia de seu aniversário. É por conta desse episódio que María conhece finalmente o casal, ou metade dele, dias depois do acontecido. Em uma manhã em que encontrou Luisa, a viúva, sozinha no café, foi lhes dar suas condolências, fato que a levou até a casa do Casal Perfeito, a descoberta de que também era observada por eles e chamada de Jovem Prudente, e a conhecer o melhor amigo de Miguel, Javier Díaz-Varella. E com essas três pessoas – uma morta – adentrando em sua vida, Javier Marías tem o que precisa para fazer sua narradora devanear sobre o amor e o que ele causa quando o recebemos ou o perdemos.

Os enamoramentos, se fosse para dizer se é uma história de amor triste ou feliz, teria que ser enquadrado na categoria de histórias que fracassam – que ultimamente são as que me agradam mais. Trata-se de um triste belo, um triste consciente da tristeza das conclusões que María faz da vida de Miguel, Luisa e Javier, com seus constantes diálogos imaginários e suposições que preenchem as lacunas de suas histórias. Ela mesma acaba tornando parte da vida de Javier, amando sem querer demonstrar por saber que não está sendo e nem será correspondida, conformada de que, em algum dia qualquer, ele deixará de procurá-la por ter conquistado o seu verdadeiro objetivo. O discurso que Marías apresenta tem um tom melancólico, mas bonito, ao tratar desse receio de demonstrar carinho, um relato cuidadoso sobre como as pessoas se sentem quando arrebatadas pelo enamoramento:

“Por mais tolos que fossem, como na realidade são todos os sentimentos quando descritos ou explicados ou enunciados, ele havia colocado os meus muito abaixo da qualidade dos seus para com outra pessoa, como podiam se comparar?”

Se em seus atos María Dolz procura velar os sentimentos por Javier, em palavras fala tudo o que esperaria dele caso não estivesse sugado pelo amor por Luisa, divaga em suas teorias sobre como eles conviviam antes da morte de Miguel, o que poderia fazer para conseguir o amor de Javier para si, o que isso tudo significa no panorama geral de sua existência. O que ela pensa sobre o tema conduz toda a narrativa, intercalado com a história da morte de Miguel e seus personagens envolvidos a partir da segunda parte do livro, como se ela falasse para si mesma, tentando entender as motivações de uma pessoa apaixonada, desvendando aos poucos seus planos de conquista e o que foram capazes de fazer em nome desse sentimento.

As personagens de Os enamoramentos são todas reféns do amor, com suas diferentes definições e estados. As aflições e os desejos partem dessa vontade de se estar com alguém, de compartilhar a vida com determinada pessoa, e esbarram nas impossibilidades de fazer isso – que são, geralmente, uma barreira imposta pelo próprio alvo desse amor, que não o quer, não lhe interessa, pois deseja outra coisa, ou simplesmente não deseja nada. É frustrante, e por isso mesmo maravilhoso, acompanhar o vago envolvimento da protagonista nessa história que não imaginaria compartilhar com ninguém. Frustrante por muito do que ela pensa ser aplicável a poucas pessoas, enquanto muitas outras terão que se conformar com o amor que a vida lhes impôs, e que provavelmente não será o perfeito e ideal.