os-versos-satanicosQuando Salman Rushdie teve sua cabeça posta à caça pelo aiatolá Khomeini em 1989 por conta da publicação de Os versos satânicos, muitos disseram que o escritor havia arranjado sarna para se coçar. Como se a sentença de morte a ele fosse certa, compreensível, já que ele supostamente havia blasfemado contra uma religião que muitas vezes se mostra extrema contra opiniões alheias e  que teria que arcar com as consequências. Como se, na frente de um líder religioso, fosse proibido contradizê-lo e a seu Deus. Enfim, disseram que o livro provocou e teve o que “merecia”. Tudo porque um autor usou como base para sua história os versos sagrados e apresentou um cenário não muito lisonjeiro do islamismo (e de muitas outras religiões).

Em Os versos satânicos, dois atores indianos – um radicado na Inglaterra, outro famoso em Bombaim – sobrevivem a um curioso ataque terrorista ao voo que faziam da Índia para Londres. Ambos caem de cerca de 30 mil pés de altura após a explosão da aeronave, e enquanto todos já os consideravam mortos, surgem vivos em uma praia afastada em solo inglês. Vivos, mas modificados. Gibreel Farishta, astro de Bollywood, encontra acima de sua cabeça uma auréola, e seus sonhos vívidos em que é um anjo da anunciação se tornam ainda mais evidentes e interferem na realidade. Do corpo de Saladin Chamcha, o ator das mil vozes, começam a surgir misteriosos chifres, rabo e pelo espesso, e aos poucos ele se transforma em um bode, uma encarnação do Diabo.

Anjo e demônio então seguem caminhos diferentes – Farishta parte em busca do amor que motivou sua viagem à Londres antes do acidente, Chamcha é preso, foge e se esconde em uma pensão familiar, impossibilitado de levar uma vida normal ao lado de sua esposa com sua nova aparência. Mas esses caminhos, embora separados, constantemente se cruzam nas relações com as diversas personagens que atuam na vida dos protagonistas, e também na reflexão sobre o bem, o mal e o divino que permeia toda a narrativa de Rushdie. Alternando o foco entre Saladin e Gibreel, o autor revela ao leitor como essa divisão tem uma fronteira frágil, onde o anjo por vezes é mensageiro de atos terríveis e o diabo alimenta sentimentos que nada se assemelham com maldades ou vingança, tentando evitá-los.

Certamente a cutucada de Rushdie que enfureceu tanto o aiatolá do Irã quando o livro foi publicado está presente nas passagens que se concentram nos sonhos místicos de Gibreel. Mesmo antes de sua queda do avião, seu nome de anjo já o atraía para experiências quase reais em que era o mensageiro de Deus, designado a dialogar com um profeta, Mahound, e impor seu Deus único a uma cidade que cultuava múltiplas deusas da Índia. O tratamento que Rushdie dá ao nascer dessa nova crença se assemelha a um negócio, marcado por acordos e concessões. Os cidadãos de Jahilia aceitam a autoridade e Al-Lat caso ele também reconheça a superioridade das outras deusas e com elas coexista. E o que ele lhes concede é uma sequência de regras, ditadas pelo anjo Gibreel ao profeta, que se transforma praticamente em um novo chefe dotado de poder absoluto. Regras essas tão severas e limitadoras que chegam a espantar os mais céticos quanto a facilidade com que elas são aceitas pelos fiéis. Como a posterior peregrinação narrada na segunda metade do romance, em que ricos e pobres largam tudo para partir em busca de um milagre duvidoso, seguindo uma criança autoritária mensageira de Al-Lat.

Paralelamente a esses sonhos, a vida de Saladin e Gibreel se desenlaça em Londres. Quando ambos aparentemente voltam à sua normalidade física e se revelam novamente ao mundo – adquirindo certa fama por terem sobrevivido a uma tragédia daquela proporção – tentam, ainda, voltar a sua normalidade mental e cotidiana. Gibreel se prende a um tórrido relacionamento com Alleluia Cone, uma alpinista de destaque que havia chegado ao topo do Everest, marcado por brigas e ataques de Gibreel. Já Saladin perde a esposa para seu melhor amigo, está sem emprego e não encontra nenhuma perspectiva de retornar a uma vida melhor, mas mesmo assim parece ser o mais tranquilo dos dois, divagando sobre a sua derrocada e todos os questionamentos acerca da sua aparente maldade aflorada com a transformação em Diabo.

Assim como em Os filhos da meia-noite, Salman Rushdie constrói aquele tipo de ambientação fantástica tão detalhada que parece ser real. Se a Índia já parecia ser naturalmente dotada de certa magia, que transforma qualquer acontecimento fantástico em algo plausível dentro de seu universo, o mesmo acontece em Londres, onde boa parte de Os versos satânicos se passa. As personagens secundárias, como Allie, Ayesha, Hind e Jumpy recebem o mesmo cuidado em sua caracterização quanto os protagonistas, sendo peças fundamentais para o desenvolvimento da trama e o embate final entre anjo e demônio. Algumas, até, possuem cópias em papéis diferentes nos sonhos de Gibreel.

Os versos satânicos não é assim tão provocador quanto a sentença de morte contra Rushdie faz parecer. Há sim esse suposto dedo na ferida, a tal blasfêmia que tira da religião grande parte da santidade que ela julga ser portadora. Mas também há o contrário, uma certa recompensa para a crença desenfreada dos fiéis seguidores desse Deus que contrasta com o ceticismo. O que é possível dizer sobre o livro mais polêmico de Rushdie é que ele é sensato ao tratar do bem e do mal, do sagrado e do satânico, e, como muitos vieram a reconhecer depois, exigiu muita coragem do próprio autor ao reafirmar que não vê em sua história qualquer ameaça a uma ou mais religiões.