breves-entrevistas-com-homens-hediondosDurante algum tempo, Breves entrevistas com homens hediondos foi o único livro de David Foster Wallace traduzido no Brasil. Felizmente, ano passado a Companhia das Letras lançou Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, que, segundo seu organizador, o escritor Daniel Galera, seria o melhor meio para quem quer começar a ler DFW. Pois diferente de Ficando longe, que reúne ensaios e reportagens do autor, Breves entrevistas é pura ficção. O que o livro trás são parte de seus contos, recheados de notas de rodapé – até quem nunca o leu conhece essa sua fama – e dos mais obscuros desejos e casos que envolvem o pensamento dos homens.

Cada dilema ou tara humana serve para DFW escrever um texto perturbador e provocativo. Seja quando o foco são os homens, como é o caso dos enxertos espalhados em várias partes do livro intitulados “Breves entrevistas com homens hediondos”, em que desvelam para uma interlocutora, cuja fala não temos acesso, todos os seus truques de conquistas baratas ou preferências sexuais; seja quando são as mulheres, como nos contos “A pessoa deprimida” e “Adult world I” e “Adult world II”, os textos exploram questões profundas, interiores, problemas íntimos que tomam várias formas em diferentes pessoas.

“Para sempre em cima”, um dos primeiros contos do livro, mostra a incerteza e o medo de um pré-adolescente ao completar seus 13 anos, idade que marca a sua trajetória para a vida adulta e todos os desafios que ela esconde. O jovem, enquanto sobe as escadas do trampolim de uma piscina pública, pensa em tudo o que o rodeia, observa atentamente os cheiros, os movimentos, as pessoas que tem adiante e atrás de si, hesitante quanto a escolha impensada de subir as escadas e se jogar, divagando sobre como é bom não pensar em fazer alguma coisa, fazer por impulso, mas depois se arrepender de não ter pensado.

As “breves entrevistas” espalhadas pelo livro agradaram nos textos mais longos. Como o do homem narrando como propõe a mulheres que sejam amarradas, ou falando sobre crimes horríveis que marcam suas vítimas de maneira a levá-las a atingir outro patamar de compreensão da vida, ampliando sua visão de mundo e resultando numa espécie de “crescimento intelectual”. Ou ainda outro, que teoriza sobre como age um bom amante. Algumas dessas entrevistas são breves diálogos, nunca sendo mostrado ao leitor o que a pessoa que pergunta – presumivelmente uma mulher – diz, mas mesmo assim dando margem para ele entender as suas reações ao que os personagens dizem. E por mais que esses homens sejam “hediondos”, o leitor se pega gostando de cada um pela forma que falam, com seus cacoetes e desprendimento.

“A pessoa deprimida”, conto que mostra como funciona o raciocínio de uma mulher que sofre de depressão crônica, vai fundo no uso das notas de rodapé para formar uma narrativa mirabolante dos medos e anseios que invadem a mente da protagonista. O que praticamente move essa narrativa é a morte de sua analista, e o que mais me interessou nesse texto é como, mesmo dizendo que é impossível para outras pessoas entenderem o problema causado pela depressão, é possível ter dimensão da dor que essa mulher sente. DFW cria uma história que consegue passar certa angústia ao leitor quando conta como ela se relaciona com sua “rede de apoio”, como liga para suas amigas no meio da noite e desabafa seus medos, como clama por atenção sem conseguir, mesmo ao tentar, enxergar os problemas dos outros.

É muito bom como Foster Wallace consegue dar continuidade a um tema ou história empregando uma característica marcante para cada texto, alterando a forma, o tom, o estilo, escrevendo como se quisesse mostrar o esqueleto daquilo que imaginou. Essas brincadeiras com a escrita são um ingrediente a mais para gostar de David Foster Wallace, e se o conteúdo em algum momento parecer fraco, isso será certamente compensando com suas técnicas narrativas que mostrou dominar tão bem.

Outros destaques do livro são os breves textos de “O diabo é um homem ocupado”, também espalhados entre outros contos, que são muito mais bem humorados do que perturbadores – o humor está, invariavelmente, presente em muitos dos textos, mas de uma forma escondida e obscura. “Octeto” é um tipo de exercício metaliterário de DFW, que começa com quizes que lançam perguntas ambíguas de teor moral, mas termina com uma explicação do próprio autor sobre como não conseguiu escrevê-lo direito e usa esse artifício para tentar salvar o texto, dando voltas e mais voltas na cabeça do leitor que o deixa em dúvida se a intenção era realmente fazer esse jogo de metaficção com ele ou apenas distraí-lo de um conto ruim. O resultado é bem divertido.

Por fim, destaco “Adult world” I e II, em que uma mulher se atormenta pensando que machuca o marido quando transam, e tenta mil artifícios para aprender a ser uma boa amante, mas sem conseguir nenhum avanço quanto ao problema de seu parceiro. A primeira parte gira toda em torno da paranóia dessa mulher, que chega até a se encontrar com o ex com quem não mais falava para perguntar se ela era boa na cama. Já a segunda parte é toda escrita como se fosse um esquema do autor, em que todas as ideias e ações são descritas de forma bem objetiva, um roteiro para o texto a ser então finalizado, apontando que tipo de discurso cada personagem usa e como se movimentam, dando, por fim, o desfecho da história.

Quem quiser ler Breves entrevistas com homens hediondos deve estar preparado para se deparar com mudanças bruscas ou sutis no formato dos contos, que se para uns fazem cada texto destoar do outro, para outros é toda a graça que uma coletânea dessas pode dar ao leitor. Por mais que algumas coisas pareçam tão diferentes, o livro todo tem uma unidade, aquela conseguida pela forma como David Foster Wallace explora o íntimo humano, aquilo que uma pessoa dificilmente irá revelar abertamente para o mundo, mas vai se deliciar anonimamente ao ter contato com elas no livro.