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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos

festa-no-covilCrianças têm algumas sacadas geniais sobre algumas coisas da vida. Por conhecerem pouco do mundo e terem uma visão limitada dele, tudo parece mais simples e descomplicado nas suas cabeças. As explicações inocentes que, quando criança, damos para as coisas mais esquisitas e as associações que fazemos são a grande parte da graça da infância. Para uma criança como Tochtli, então, isso é ainda mais visível. Seu desconhecimento do mundo é um tempero a mais na sua imaginação trágica, mas cômica, que alimenta suas vontades em Festa no covil.

Tochtli tem 10 anos de idade e é filho de Yolcault, um chefão do tráfico mexicano. Vive junto com ele em um castelo, como diz, e conhece, no máximo, umas 14 ou 15 pessoas. Porém, mantém contato com um número menor que esse: algumas empregadas, dois ou três capangas de seu pai e Mazatzin, seu tutor que lhe ensina o que ele deveria estar aprendendo numa escola com outras crianças. Ele adora chapéus, tem uma enorme coleção de todos os tipos, três deles de detetive, que usa para fazer pequenas investigações pelo seu palácio. Às vezes é atacado por fortes dores de barriga, e seu desejo consumista mais recente é adquirir um hipopótamo anão da Libéria para seu pequeno zoológico.

O primeiro livro de Juan Pablo Villalobos é uma leitura curta e extremamente encantadora por aliar o humor e ingenuidade de Tochtli à violência do narcotráfico. O garoto é geralmente deixado de longe dos negócios do pai, mas como vive seus dias inteiros confinado dentro desse ambiente, não deixa de estar exposto a essa violência através das conversas enigmáticas do pai com seus empregados. A narração em primeira pessoa é feita pelo próprio Tochtli. Para ele, o que escuta ou observa é mais um desses “enigmas”, mas para o leitor, que não é alienado como o menino, é fácil entender as coisas a que ele se refere. A preocupação que ele tem é apenas conseguir o seu estimado hipopótamo anão.

O desconhecimento de Tochtli do mundo é um dos grandes pontos de sua personalidade. Seu discurso não é muito elaborado, com constante repetição das palavras difíceis que conhece, listadas logo no começo do livro: pulcro, fulminante, sórdido, patético e nefasto. Porém, com essas poucas palavras, fala com a desenvoltura de um adulto, sentindo ele mesmo ser mais esperto e inteligente, uma criança precoce, como dizem que ele é. A repetição desses termos durante a narrativa é uma lembrança de que ele pouco conhece da vida, menos ainda que as crianças normais. Porém, consegue chegar a algumas conclusões que só uma criança muito inteligente e que conhece mais coisas que os outros poderia ter, como quando diz: “Realmente os cultos sabem muitas coisas dos livros, mas não sabem nada da vida.”

Nas suas colunas no blog da Companhia das letras, Villalobos conquista pelo bom humor e naturalidade com que escreve. É aquele amigo contando algo interessante num bar para fazer todos rirem, mesmo se a história conter traços trágicos. Festa no covil é mais ou menos isso: por trás da ingenuidade e encantamento de Tochtli, há o mundo do tráfico, a violência, o perigo e as ameaças, o desconhecimento do garoto e sua criação mimada que, agora na infância, parece simpática e engraçadinha, mas que no futuro será devastadora. Mas isso não está na cabeça do leitor enquanto lê. Tochtli é amável quando não deveria ser – afinal, é um menino mandão e mimado. E o é pela sua imaginação, pela ignorância do mundo que resulta em uma narrativa simples, mas carregada de significados que nós, os não ingênuos, captamos com certo temor.