ficcao-de-polpa-aventuraHá uma predisposição dos adultos, parece, de rechaçar o que é desconhecido e fantasioso. Todos devemos ter o pé no chão, conhecer tudo, e se possível não se maravilhar ou se entreter a algo que não seja ligado aos tormentos da mente e da sua existência no mundo. A fantasia, a ficção científica e a aventura guardam, ainda, aquele estigma de produto planejado unicamente para distrair crianças e adolescentes ociosos durante as férias. Mas quando essa geração de crianças cresce, a visão desse tipo de literatura – ou cinema, ou jogos – passa por mudanças e ganha ares não só de fantasia, mas também de papel fundamental na formação de leitores. O escape da realidade que esse gênero promove na infância e adolescência se mostra válido e necessário na vida adulta.

Aí está mais que um belo motivo para embarcar nas seis aventuras publicadas pela Não Editora no quinto volume do Ficção de Polpa, dessa vez com o subtítulo de Aventura!. Publicação voltada para a literatura de gênero que imita tanto no conteúdo quanto na parte gráfica as antigas revistinhas pulp, o Ficção de polpa já trouxe aos leitores histórias de ficção científica, horror, crimes, e agora o foco está nas aventuras que vêm acompanhadas de mapas e desbravamento de lugares desconhecidos. Com menos textos que os volumes anteriores, o espaço para os autores desenvolverem seus contos é maior, e entre as histórias suas personagens conhecem mundos secretos, desbravam novas terras e tentam sobreviver a ambientes hostis. O livro ainda traz a tradicional “faixa bônus”, o conto “O Aranha: uma aventura amazônica”, do norte-americano Arthur O. Friel.

Ficção de polpa: Aventura! começa com o texto de Bruno Mattos – que escreveu um ótimo conto inspirado nos filmes do Zé do Caixão na coletânea 24 letras por segundo – revisitando o cenário de Jurassic Park. “Por favor, não toque nos dinossauros” é um conto narrado em primeira pessoa que transforma o medo – ou o sonho – de uma geração que nasceu assistindo o longa de Steven Spielberg para a realidade: todos aqueles dinossauros do primeiro filme não são obra de avançados efeitos especiais. Isso tudo “explica” porque animais de diferentes períodos pré-históricos “erroneamente” aparecem no filme, como que fazendo parte de uma mesma época. Por conta de uma dádiva da natureza, uma ilha no centro das Américas abriga dinossauros há milhões e milhões de anos, mantendo-os vivos até a nossa era, e um paleontólogo gaúcho é contratado para trabalhar em pesquisas neste local. A graça do conto está mais nas justificativas dos erros históricos e biológicos cometidos por Spielberg no primeiro filme de Jurassic Park do que na história vivida pelo paleontólogo em si, pois se trata de um texto muito mais descritivo e curioso que repleto de ação.

O texto seguinte, “Melhor servido frio”, de Carlos Orsi, é uma narrativa vingativa sobre uma mulher que quase foi assassinada pelos seus companheiros em pleno continente da Antártida, uma espécie tupiniquim de Lisbeth Salander – a “heroína” desses tempos literários. Ambientado em uma ilha do continente gelado, que o autor chegou a visitar com pesquisadores logo após o incêndio da estação brasileira em 2012, seu conto mostra a determinação da pesquisadora em se vingar do casal de colegas. Não faltam força e planos mirabolantes no texto, e depois muito sangue para contar a história. Esse é um dos que melhor exploram o espaço do livro, pois não só apresenta ao leitor todo o trabalho de reconhecimento do local onde ela se vê tentando sobreviver, mas também desenvolve toda uma história dramática entre as personagens.

O conto de Carlos André Moreira, “Seis quilômetros”, o mais longo desse Ficção de polpa, é um dos que mais gostei. Nele, um soldado brasileiro servindo na Itália na Segunda Guerra Mundial é destacado para escoltar um padre italiano que levava uma mensagem dos brasileiros aos seus inimigos, disfarçado ele também de padre. Mas durante o percurso de apenas seis quilômetros ele é separado de quem deve proteger, e embora esteja em companhia de soldados que lutam do mesmo lado, o ambiente é totalmente hostil e seu objetivo agora é voltar à sua base com novas informações que obteve – e claro, sobreviver aos tiros. O uso dos termos dos pracinhas dá mais peso à ambientação que o autor faz da história. Além disso, Carlos André Moreira usou um recurso muito bom para explorar mais o lado psicológico do protagonista, inserindo entre os parágrafos da história seus devaneios ou lembranças, que cortam o ritmo da narrativa e tiram a concentração do narrador.

Ficção de polpa ainda traz contos de Christopher Kastensmidt, autor da série de histórias A bandeira do elefante e da arara, presente nos dois volumes de Duplo fantasia heróica, que aqui também escreve uma história de vingança entre desbravadores que procuravam por um tesouro em “A joia de Évora”. Em “Virtude selvagem”, Júlio Ricardo da Rosa coloca seu protagonista, um pirata, em uma nova terra em que tenta voltar para o mar. E em “A igreja submersa” Simone Saueressig leva as personagens a uma cidade inundada por uma barragem, e o que deveria ser um passeio para registro fotográfico se transforma em um embate perigoso entre ladrões e o protagonista. Por fim, o conto bônus do volume apresenta um autor pouco conhecido entre os brasileiros, embora suas histórias muitas vezes se passem no Brasil e seus protagonistas sejam, também, brasileiros. Um texto para começar a conhecer os contos de Arthur O. Friel.

As histórias de aventura são, naturalmente, mais descritivas, o que não abre muito espaço para desenvolvimento das personalidades das personagens ou a inserção de mistérios mirabolantes que o leitor deva desvendar. Na aventura, o protagonista tem um objetivo, e o que é narrado são os vários obstáculos que ele deve enfrentar para chegar até ele. O objetivo nesses contos parece ser muito mais o da própria sobrevivência, se ver perdido ou abandonado no meio de alguma terra estranha e conseguir manter a vida nela, eventualmente se vingando de quem o deixou nessa situação ou, até, sucumbindo de vez. Dos volumes de Ficção de polpa que li, esse foi o que menos me prendeu aos textos, embora tenha seus pontos fortes. Mas apesar disso, é recomendado para quem busca se entreter com as aventuras brasileiras – elas existem e estão pululando por aí.