o-escolhido-foi-voceA procrastinação é o mal daquele que conhece o valor da internet e seu vasto conteúdo. Todos procrastinam o trabalho, a aula, os exercícios físicos e até a vida social, e uma grande incentivadora disso é a internet. Todos procuram por uma cura, mas não encontram porque ficaram tempo demais… procrastinando. Miranda July criou um sistema para burlar o gasto de tempo com coisas inúteis que adiam as tarefas importantes, um vídeo que volta e meia retorna às timelines do Twitter e Facebook pela genialidade de seu método – que é uma cena deletada de seu último filme, The future. Na verdade, por ser uma grande procrastinadora – ou seja, usuária da internet, smartphones e todas as suas possibilidades –, está sempre à procura de maneiras para evitar o adiamento das ações, e um deles foi tornar a procrastinação algo produtivo. O resultado disso foi o livro O escolhido foi você.

Enquanto escrevia o roteiro de The future, Miranda se viu em meio a uma crise de bloqueio criativo. Para tentar encontrar alguma inspiração ou apenas para fazer o tempo passar, começou a ler avidamente as edições do PennySaver, um classificado gratuito entregue em Los Angeles pelos correios todas as terças-feiras. O jornalzinho continha anúncios de tudo: gente querendo vender de eletrodomésticos a objetos inúteis, de animais a roupas. E foi aí que Miranda teve seu estalinho criativo que a levou a transformar essa leitura em algo útil: ligar para os anunciantes mais estranhos, marcar um encontro e entrevistá-los sobre as suas vidas.

Em O escolhido foi você os personagens são essas pessoas do PennySaver, Miranda, sua fotógrafa, seu assistente e seu próprio bloqueio criativo com o roteiro que deve terminar. Ela conversa com os anônimos que vendem jaquetas de couro (um homem prestes a trocar de sexo depois dos sessenta anos), sáris (uma mulher que quer usar o dinheiro para ajudar uma aldeia na Índia), ursinhos carinhosos (outra mulher com um irmão que ilustra uma família imaginária na parede de seu quarto), girinos (um adolescente de 17 anos totalmente incerto sobre seu futuro) e álbuns de fotos (com fotografias de pessoas que a vendedora nunca conheceu na vida). Enquanto os visita, ela relaciona essas vidas com o que está acontecendo com seu roteiro inacabado, como se elas pudessem fazer parte da história de seus personagens, ou compara essas revelações com aquilo que já viveu, ou ainda imagina um futuro apocalíptico onde ela poderia se tornar um deles, vivendo solitária ou cuidando do legado fotográfico de pessoas que nunca encontrou.

Enquanto lia, muitas experiências minhas cruzaram a narrativa da mesma forma que as ideias de Miranda se infiltravam entre os diálogos. Quando fui estagiária de um jornal da região de Porto Alegre, entregue gratuitamente em algumas estações de trem às sextas-feiras, uma das minhas tarefas como repórter era abordar anônimos que frequentavam aqueles vagões e fazer perguntas subjetivas sobre suas vidas: o que os deixavam felizes, o que os entristecia, qual o passatempo favorito, de onde vinham e para onde iam. Os tais “perfis” que eu tinha que fazer semanalmente era uma das atividades que mais me amedrontavam. Como pessoa pouco comunicativa e tímida, morria de medo de abordar gente estranha e tentar fazê-las falar sobre suas vidas, assim, gratuitamente. Parecia uma grande invasão à rotina delas, como um incômodo ou algo perigoso vindo ao seu encontro. Sentimento bem descrito por Miranda nesse trecho:

“No meu mundo paranóico, todo lojista acha que estou roubando, todo homem acha que sou prostituta ou lésbica, toda mulher acha que sou lésbica ou arrogante, e toda criança ou animal vê meu verdadeiro eu, e ele é mau.”

No meu caso, todos deveriam pensar que eu queria vender algo. Curiosamente, quando eu dizia que era repórter daquele jornal, elas sorriam educadamente para aceitar ou recusar a minha proposta – e se aproximar delas já não parecia ser assim tão assustador. Conto isso porque me identifiquei muito com Miranda quando ela fala desse receio de fazer pessoas desconhecidas se abrirem sobre suas vidas, mesmo que ela esteja oferecendo 50 dólares para isso. Mas o difícil não é apenas a aproximação, e sim fazer a vida dessas pessoas parecerem interessantes aos olhos de quem lê. O que Miranda sabe fazer muito bem.

Esses personagens reais com quem conversa não parecem oferecer muito ao leitor num primeiro contato. Muitas vezes a narrativa de Miranda os mostra melancólicos, de uma forma que chega a dar pena, mas ainda assim são histórias que têm sua relevância, que mostram um lado não tão feliz ou convencional da vida. E essas pessoas estão tão dispostas a falar – não apenas pelo dinheiro – que por muitas vezes cansam a própria entrevistadora, que deve se desdobrar para conseguir deixar as suas casas desejando nunca mais vê-los. “Ocorreu-me que a história de cada pessoa interessa demais a ela própria, então quanto mais eu ouvia, mais ela queria falar”, diz em certo ponto.

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Achei engraçado como Miranda pergunta para todos se possuíam computador ou usavam a internet; e se tinham, o que faziam. Como ela mesma revela mais adiante, essa pergunta era movida pela curiosidade de entender como vivem uma rotina sem as distrações virtuais, sem conhecer a enxurrada de informações e coisas que a internet propicia – onde poderiam vender com muito mais facilidade as suas tralhas. Como se só fosse interessante e relevante aquilo que está lá, online, ao alcance de um clique. Como se essas pessoas sem computador (caso da maioria dos entrevistados) vivessem em outro espaço/tempo, em uma dimensão em que os anos passaram sem a invenção da internet, sem existirem nessa era online. A ideia de Miranda de entrevistar essas pessoas foi em certa parte incentivada pela vontade de se manter desconectada por um momento desse mundo onde todos estão lendo e respondendo mensagens o tempo todo, acompanhando suas vidas em tempo real. E o que terminou fazendo foi registrar a existência daqueles que não estão no espaço virtual e poderiam se perder na história por conta disso.

“Tudo o que eu sempre quis mesmo saber é como as pessoas estão se virando na vida – onde põem o próprio corpo, hora a hora, e como dão conta de tudo.”

Essa curiosidade pela vida alheia movimenta a imaginação da autora de O escolhido foi você. Ela não só mostra o que as outras pessoas fazem; Miranda reflete sobre o que ela mesma está fazendo: o roteiro, seu recente casamento, o estágio de sua vida profissional e pessoal, pondera sobre quando ter filhos – agora, que é o momento mais propício, ou mais tarde, quando será arriscado demais. Pensamentos assim são desencadeados por aquilo que ela ouve de seus vendedores do PennySaver, quando dizem desejar uma família, quando mostram imagens de um casal feliz num cruzeiro, quando falam de seus animais de estimação e o tempo em que estão casados ou separados. A vida de um se reflete na dela. Esse é o tipo de curiosidade que eu também tenho: saber como as pessoas tocam os seus dias, quais são seus gestos repetitivos cotidianos, saber se elas fazem como eu faço, se eu estou lidando com tudo do jeito certo, se meus medos e anseios são os mesmos delas, se eu não estou deslocada no mundo, que as coisas das quais reclamo são as mesmas que as outras pessoas também reclamam. Saber o que elas esperam da vida e se conseguem ter aquilo que esperam; e se não conseguem, como convivem sem isso.

A cura para o bloqueio criativo acaba vindo dessa procrastinação premeditada. Sua epifania vem da última entrevista que faz, com Joe, um senhor de mais de oitenta anos que vende cartões de Natal. Na casa dele Miranda se depara, de certa forma, com a morte: a de seus animais de estimação, os muitos gatos e cachorros que Joe e sua esposa tiveram em mais de sessenta anos de casados, a morte dele mesmo, que com o avanço da idade está cada vez mais próxima. Joe, como mostram as fotografias, é um senhor de olhos azuis marejados, um romântico que a cada data especial escreve cartões de amor safados para sua mulher. Uma paixão duradoura que leva Miranda a pensar como seria se ela e seu marido chegassem a tanto, e como seria caso ele (oito anos mais velho), morresse antes dela. E nesse momento eu mesma pensei: histórias de amor longas e duradouras assim são tão lindas, e deve ser tão bom passar tanto tempo ao lado de uma pessoa… Até eu perceber que é praticamente impossível que eu viva essa experiência, pois se quiser passar mais de 50 anos ao lado de alguém teria que começar agora, nesse instante. A realidade de que isso provavelmente não vai acontecer comigo foi realmente triste, assim como a previsão de Miranda de uma velhice sozinha em seu “escritório” depois do marido falecer. O tempo parece ser curto nesse momento, e valioso demais para ser desperdiçado.

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A solução para o roteiro de Miranda surge com Joe, escolhido inclusive para atuar em seu filme. É com ele que O escolhido foi você termina, um trabalho complicado e desgastante que veio depois de muita caminhada e ouvido ao que pessoas aleatórias de um classificado gratuito tinham a dizer sobre suas trajetórias. O livro de Miranda é uma leitura prazerosa e muito reflexiva, que leva o leitor a se relacionar com o texto em três dimensões: na dos personagens, na da autora e na sua própria. A conexão entre personagem, autor e leitor é grande, e por fazer esse caminho de descoberta junto com Miranda July é que O escolhido foi você se torna tão bom e marcante.