monstros-fora-do-armarioDentro de si, o homem guarda impulsos sombrios. Por fora, a imagem é de uma pessoa normal, incapaz de pensar em alguma atrocidade contra outro ser humano, ainda mais de praticá-lo. Mas por mais direito, ético e bem apessoado que alguém possa parecer, a verdade é que todos guardam em seu íntimo algo nebuloso, um desejo maléfico ou vontade de, em alguns momentos, praticar em alguém algo dolorido como castigo ou escape. São momentos assim os narrados nos breves contos de Flavio Torres em seu primeiro livro, lançado pela Não Editora, Monstros fora do armário.

Nascido em Niterói, mas criado em Porto Alegre, o currículo de Flavio como ficcionista é parecido com o de vários outros autores publicados por essas bandas: participação na oficina de Luiz Antonio de Assis Brasil – provavelmente uma das oficinas de criação literária mais famosas do país – e também dos seminários de criação literária de Léa Masina. Ou seja, exercício criativo não faltou.

Os contos de Flavio Torres em Monstros fora do armário apresentam aquele básico que se espera da literatura: um formato clássico que mantém o leitor preso às páginas, curioso com o que pode vir a acontecer. O autor vai montando as cenas, descrevendo lugares, coisas, contextos que deixam o final do conto ao gosto do leitor. Ele pode escolher a ilusão de uma conclusão leve ou então aceitar o caráter sombrio dos finais implícitos das tramas e da monstruosidade das personagens.

Aquele menino certamente esfaqueou o pai. A criança ouviu os sons da prostituta em meio a um programa enquanto procurava a mãe em um hotel sujo. O pai esperou a filha chegar em casa para fazer com ela o que a viu praticar em um filme pornô caseiro. O vegetariano matou a ex-esposa e deu a carne para o filho comer. Não são conclusões – perdão pelo spoiler – que estão escritas literalmente no livro, estão subentendidas. O leitor, munido daquilo que foi sendo relatado a ele pelo autor, pode supor que foram assim que as histórias terminaram.

Esse exercício de oferecer os ingredientes ao leitor e organizá-los de uma maneira que ele chegue até esses desfechos é o que faz de Monstros fora do armário um livro interessante. Não o enquadraria entre as grandes revelações da literatura, mas as histórias cumprem com o objetivo de oferecer um entretenimento que consegue acender uma faísca perturbadora no leitor.