alfred-hitchcock-e-os-bastidores-de-psicosePerto do final do livro Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, o escritor e roteirista Stephen Rebello fala de como o filme é recepcionado pelos jovens telespectadores acostumados com os filmes de terror que vieram depois dos anos 1980: “o filme de Hitchcock pode soar hoje tão incompreensível quanto uma velha série dos primórdios da TV ou um filme mudo. Quem foi criado com Jason e Freddy pode ficar perplexo com o fato de o público de 1960 ter gritado por causa de Norman.” Achei interessante essa percepção ser expressa logo no final do livro que acompanha como foi a produção de um dos mais famosos filmes do aclamado diretor de suspense. Depois de mais de 200 páginas ressaltando a característica inovadora e corajosa do longa, é dito ao leitor que, hoje, o que Hitchcock fez não causa espanto algum.

Claro que isso não significa que o filme perdeu sua importância dentro da história do cinema, muito pelo contrário. O livro, publicado nos anos 1990 e reeditado agora por conta do filme Hitchcock, feito com base no relato de Rebello, é um documento que atesta o caráter transformador do trabalho de Hitchcock no cinema e sua importância na época. Para quem nunca havia visto Psicose antes, como eu, ler essas páginas foi querer ver o filme com toda a atenção do mundo para perceber os detalhes que o autor destacou no livro – o que realmente acabei fazendo.

E como Rebello falou no final, realmente Psicose não causa susto ou espanto para quem já viu coisas como Sexta-feira 13, Os outros, O chamado ou Atividade Paranormal – que mostram uma carga bem maior de terror psicológico e sobrenatural, sem falar em cenas muito mais ousadas que as feitas por Hitchcock. Mas não vamos fugir do contexto da época: fazer um filme como Psicose em 1960 e conseguir com que uma produção de baixo orçamento se tornasse um dos maiores sucessos do cinema não é coisa de amador.

Stephen Rebello começa sua documentação dos bastidores de Psicose com o caso que inspirou o livro homônimo de Robert Bloch, que por sua vez deu origem ao roteiro do longa: a história de Ed Gein, um homem que vivia sozinho num sítio em Plainfield e matava mulheres, guardando partes de seus corpos como troféus dos assassinatos – a história de Gein foi base também para muitas outras obras cinematográficas e livros, como O silêncio dos inocentes e O massacre da serra elétrica. O livro de Bloch, que envolvia o assassinato de uma mulher no motel que Norman administrava, trazia para a ficção parte dessa realidade temperada com temas chocantes, como incesto e distúrbios psicológicos. Querendo emplacar um novo sucesso logo após de lançar Intriga internacional, Alfred Hitchcock se interessou pelo livro, levou-o aos estúdios da Paramount para apresentar o projeto de Psicose, mas por conta do tema pesado para a época, foi aconselhado a abandonar o projeto, pois não teria apoio para fazê-lo. Hitchcock ignorou os conselhos, e decidiu fazer o filme com um orçamento baixo e por conta própria – tudo para chocar o público.

E assim começa a produção do filme que mudaria os rumos do cinema de suspense e inspiraria diversos outros grandes diretores. Psicose é um filme tão presente na história cultural de cada indivíduo que sua trilha sonora é facilmente reconhecida onde quer que toque – as cordas histéricas do compositor Bernard Herrmann são responsáveis pela dose de tensão que o filme sugere –, e a cena de assassinato no chuveiro, protagonizada pela atriz Janet Leigh, está fixada na bagagem cultural até daqueles que não assistiram ao filme inteiro. Qualquer um consegue reconhecer as referências de Hitchcock.

Stephen Rebello concentra sua narrativa em mostrar que tipo de gênio era o cineasta: como trabalhava com seus colaboradores, como era atento à criação de cada detalhe para as cenas que planejava, como era metódico em seguir exatamente o plano que traçou no roteiro e nos storyboards e, principalmente, como era espontâneo e imprevisível com os atores e demais pessoas da equipe. Rebello divide o livro pela ordem de produção, partindo da história real, passando pelo livro, os acordos do diretor para iniciar a produção do filme, a criação do roteiro, sua aprovação, a escolha de elenco, ensaios, cenários, figurino, maquiagem, gravações, edição e, finalmente, terminando na repercussão do filme na sua estreia e o que ele significou para a história do cinema. É um relato bem objetivo e direto sobre como foi fazer um filme audacioso como Psicose.

Com entrevistas com alguns envolvidos na filmagem, como os atores Anthony Pekins (o perturbado assassino Norman Bates) e Janet Leigh, e também colaboradores como o consultor visual Saul Bass, Bernard Herrmann, a figurinista Rita Riggs e William Russel, Rebello consegue registrar as relações de Hitchcock com todos no filme, comentando também algumas polêmicas que acabaram surgindo sobre o trabalho – como, por exemplo, a história de que Saul Bass, e não Hitchcock, teria criado e dirigido a cena do chuveiro, já presente no livro de Bloch. E, claro, é interessante ver todos os planos do diretor de inserir pegadinhas para os censores, para que o filme não fosse considerado inadequado para ser exibido nos cinemas, além de todas as negociações que teve de fazer com distribuidores e o marketing para transformar Psicose em um sucesso.

Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose é um bom livro para os curiosos, que querem saber como um filme foi feito e conhecer o que está por trás de uma obra como essa. Ele não é um livro que aborda apenas as divergências entre elenco, diretor, produtores e estúdio, mas também faz um relato técnico e correto dos bastidores de Psicose, preenchidos por dramas pessoais e profissionais Ao final da leitura, você certamente vai querer ver ou rever o filme só para olhar as cenas com um olhar privilegiado, sentindo-se como uma mosquinha presente nos estúdios durante as gravações e agora podendo olhar o resultado final.