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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Avenida Niévski e Notas de São Petersburgo de 1836, de Nikolai Gógol

avenida-nievskiTodo lugar, das grandes metrópoles às pequenas cidades do interior, tem uma rua que reúne nele seus tipos, sua vida social. Avenida Paulista, Quinta Avenida, os calçadões de Ipanema, a Champs Elysées, a Rua dos Andradas… Podemos listar uma rua importante para cada cidade, onde as pessoas se encontram, flanam, trabalham, enfim, onde se cria todo o imaginário que vira retrato daquele lugar. No ano passado, a Cosac Naify publicou uma linda e interessante edição de Avenida Niévski, de Nikolai Gógol, um dos contos de sua série de histórias de Petersburgo escritas entre 1832 e 1842. É o cotidiano dessa avenida – na época, a principal da capital do império russo – que é retratado no conto.

O início da narrativa parece uma declaração de amor à Avenida Niévski, com Gógol exaltando a maneira como ela se transforma no decorrer das horas – mendigos e boêmios pela manhã bem cedo, ao acordarem, funcionários públicos a caminho do trabalho, os almoços, os passeios ociosos dos ricos durante a tarde, a turba barulhenta e ávida por contato social da noite. A avenida é portadora de uma misticidade que atrai para ela todos aqueles que querem ser vistos e querem ver. Uma avenida que é caminho, passagem, vitrine e inspiração.

Mas conforme o narrador da rotina da Avenida Niévski lembra histórias de personagens que por ali passaram, a percepção real do que é a rua e de como são seus frequentadores muda. O primeiro caso de perdição engatilhado por um encontro na avenida é do jovem pintor Piskarióv, que ao vislumbrar uma linda mulher andando pela avenida a segue para ao menos conhecer o lugar em que vive. Conforme percorre as ruas de Petersburgo atrás da moça, percebe que ela nota sua presença e, inacreditavelmente, encoraja sua aproximação. Porém, o final desse caminho não é bem o que ele esperava: a senhora ilustre e fina que julgava ter visto na Avenida Niévski não é assim tão “ilustre” e “fina”, mas sim moradora de uma casa de festas, faladeira e fútil. Mas o encanto de sua beleza não abandona os pensamentos e sonhos de Piskarióv, que sob efeito do ópio imagina que ela se mantém respeitosa, frequentando aquele ambiente por um triste acaso. Só que os sonhos e as aparências sustentadas na avenida não duram para sempre, e podem ser devastadoras.

A segunda história que Gógol desenlaça no conto é a do tenente Pirogóv, um oficial russo também fisgado pela beleza de uma donzela, que descobre ser casada com um artesão alemão. Descaradamente, ele investe contra a loirinha, apesar de suas recusas, e insiste em querer conquistá-la sem temer as represálias do marido. Essa história não possui a tragicidade da primeira, mas é mais um exemplo evocado pelo narrador para chegar a sua real conclusão sobre a Avenida Niévski: nada nela é confiável, tudo deve ser visto com cuidado, pois as aparências daqueles que a frequentam enganam, e muito. Avenida Niévski é, afinal, uma crítica ao culto da imagem praticado àquela época e sustentado pelo imaginário dos que se deixam levar por suas ilusões.

Essa edição da Cosac Naify ainda presenteou o leitor com um artigo de Nikolai Gógol até então inédito no Brasil, Notas de Petersburgo de 1836. Nesse texto, o escritor faz uma avaliação da vida cultural da capital no século XIX, focando a crítica principalmente no teatro – então fortemente influenciado pelo estilo francês. Dividido em duas partes, Gógol inicia o artigo fazendo uma comparação entre Moscou e Petersburgo, em que se poderia resumir com o trecho “Moscou é necessária para a Rússia; para Petersburgo, a Rússia é necessária”. Moscou seria o lugar em que vive a alma da Rússia, seus verdadeiros moradores, enquanto Petersburgo está tomada por influências dos estrangeiros, ostentando imagens enganosas.

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Ao falar da cultura, Gógol critica as comédias fáceis, o vaudeville, que arranca risadas do espectador com “caretas caricatas” e não com a comédia “ponderada com rigor, que com a profundidade de sua ironia produz o riso”, o “riso elétrico, vivificante, que se solta sem querer, livremente e de modo inesperado, direto da alma”. Não é mais essa peça ideal aquela que Petersburgo oferece a seus cidadãos, não é mais o ballet feito com alma e paixão, e sim aquele técnico, com coreografias repetidas e desgastadas – embora, ainda assim, perfeitas tecnicamente. Sua visão de Petersburgo apenas melhora com a chegada da primavera, quando a cidade, por alguns dias, parece ser outra. Aquela em que Gógol realmente gostaria de estar.

Não só os textos de Nikolai Gógol são apreciados em Avenida Niévski e Notas de Petersburgo de 1836, pois a parte gráfica dessa edição se destaca tanto quanto o conteúdo. Trata-se de um conjunto curioso, dividido em dois “cadernos” que são envolvidos pela representação de um jornal da época que circulou por Petersburgo. E a experiência de leitura também é única, que só o livro impresso poderia dar: o texto de Avenida Niévski é dividido ao meio, um trecho oposto ao outro e diferenciado em vermelho e azul. A leitura começa de um lado e, ao chegar ao final do volume, vira-se o livro ao contrário e continua a sua leitura a partir da outra metade das páginas. Como se o leitor estivesse percorrendo toda a avenida pelo lado esquerdo da rua e depois fizesse o caminho inverso pelo lado direito. O livro ainda é ilustrado com gravuras panorâmicas da avenida no século XIX, com seus imensos prédios, igrejas e pontes. O tipo de livro que todo fetichista do impresso deveria ter na estante.