fera-dalmaMarca presente em qualquer governo totalitário e ditatorial, a censura e a perseguição a grupos que pensam o contrário do governante são constantes. No Brasil comandado pelos militares, milhares de pessoas foram perseguidas, presas, torturadas e mortas só por pensarem ou apoiarem a luta por uma democracia verdadeira – muitos casos vindo à tona ou apenas tendo confirmação só agora. Para quem nasceu depois desse período, já com liberdades de expressão garantida, chega a ser difícil imaginar que houve um tempo em que ser contrário a algo poderia significar a morte. Mas a literatura sobre esse tema é vasta, e nos faz conhecer os horrores de viver sob o peso da censura.

Infelizmente, não foi só o Brasil que viveu sua ditadura. Tais regimes fazem parte da história política de muitos países, e alguns ainda vivem sob eles. Para a ganhadora do Nobel de Literatura de 2009, Herta Müller, romena de origem alemã, falar sobre esse tema é parte central de sua obra. Filha de um ex-soldado da SS nazista na Segunda Guerra Mundial, Herta nasceu na Romênia, para onde muitos alemães foram enviados após o fim da guerra. Esquecidos no país, essa minoria composta por milhares de alemães viveram sob o regime comunista de Nicolae Ceausescu, que durou de 1965 a 1989. A violência desse período fez parte da vida de Herta, que no romance Fera d’alma usa parte de sua história real para contar o drama de jovens perseguidos pela Securitate, a polícia romena a serviço de Ceausescu.

Publicado em 1994 na Alemanha, Fera d’alma traz o relato de uma jovem estudante que, junto com outros três amigos da faculdade são enviados a cidades do interior para trabalhar em fábricas ou fazendas. Leitores de livros proibidos pelo governo e jovens pensadores, a narrativa é marcada pelo medo das personagens de serem pegos pela polícia e perderem a liberdade (que pouco podem usufruir), que escondem os vestígios de suas atividades aparentemente inofensivas ao regime de Ceausescu. A garota, tradutora de manuais técnicos em uma fábrica da Romênia, relembra no romance a amizade com os colegas, a vida familiar e os tempos da faculdade, todos sempre envoltos por uma sensação de medo, de ser pega pela polícia, de ser torturada até denunciar seus amigos.

Como em seus demais livros, a linguagem do romance é constantemente misturada com a poesia, que mascara as palavras diretas que poderiam dar conta dos horrores e preocupações das personagens. A forma com que Herta Müller escreve emprega beleza à história dramática que conta, um fator que, conforme a autora disse em uma entrevista no começo do ano, é imprescindível para a sua literatura:

“Acho necessário que a literatura seja poética. Pela formulação poética tento fazer com que o texto seja menos artificial, reflita a vida. Tento fazer com que as frases contenham mais do que as palavras que estão ali. É o que me motiva a escrever. O que quero contar sei de imediato. A questão é como contar.”

Os próprios cuidados dos amigos quando se comunicam por cartas é de certa forma belo: colocar junto ao envelope fios de cabelo para detectar se as cartas foram abertas antes ou não, usar palavras-chave para indicar, logo na saudação, se todos estão bem e com o que devem se preocupar. Em um país marcado pela autoridade e submissão de seus moradores, ser resistente é o mesmo que estar isolado de todo o mundo, e as palavras da protagonista denunciam esse isolamento que sente junto de seus amigos.

Tão amedrontador quanto o perigo que se mostra a ela era ver seus amigos, aos poucos, sucumbirem a esse regime, seja com a prisão e a colaboração com a polícia ou pela desistência da própria vida – quando se esconder e não poder fazer o que acha melhor para si mesmo e para seu país se torna pesado demais para aguentar. Ela é uma observadora das dores que cada um traz em seus rostos, as marcas de suas terras e o que passaram por conta delas. Momentos de medo e fraqueza como esses estão escondidos em cada frase da narradora, sutilmente denunciando desespero e falta de esperança, colocando em cheque a própria sobrevivência:

“Um livro da casa de veraneio se chamava: Suicídio. Lá estava escrito que para cada um havia um tipo de morte. Mas eu caminhava num círculo gelado entre a janela e o rio, para lá e para cá. A morte me apitava de longe, eu tinha de tomar impulso até ela. Eu estava quase me suicidando, só uma pequena parte não participava. Talvez fosse a fera d’alma.”

A “fera d’alma”, expressão presente em vários momentos da vida da protagonista, é a parte inquieta de seu ser que não se deixa submeter ao medo ou ao comodismo de uma vida tranquila. Ela é um sentimento selvagem de sobrevivência, que deseja a vida do jeito que ela deve ser: livre. É o que mantém a protagonista viva durante seu tedioso trabalho, é o que a faz aguentar a solidão da separação de seus amigos, tanto na Romênia quanto já na Alemanha, onde se exila, e a faz superar o medo e a paranoia.

Este romance de Herta Müller é apenas mais um retrato daquilo que a autora se compromete a fazer com a sua literatura: dar voz a uma minoria de seu tempo e denunciar através da linguagem poética aquilo a que eram submetidos. Independente de serem descendentes de outro povo que matou milhões por conta de sua crença de superioridade, a protagonista de Fera d’alma e seus amigos são de um tempo diferente, de um pensamento diferente, em que a única regra é ser a favor da vida e da liberdade.