the-bell-jarThe bell jar é um daqueles livros que de certa forma acompanham sua vida de leitor por um bom tempo, habitando as listas de “quero ler” durante anos e anos, até que você finalmente decide ir atrás e ver com os próprios olhos o que ele tem a oferecer. Acontece comigo, muitas vezes, de esperar o livro cair de paraquedas nas minhas mãos para finalmente iniciar a leitura, e foi assim com o único romance publicado por Sylvia Plath. Poeta de talento com diversas outras publicações, esse romance acaba pesando tanto para o leitor de Plath quanto seus poemas por trazer um caráter autobiográfico e, talvez, ser utilizado muitas vezes para entender a sua morte prematura – Sylvia Plath se matou em 1963, poucos meses após The bell jar ter sido publicado em Londres, quando separada do poeta Ted Hughes e com dois filhos pequenos.

O romance é narrado pela jovem Esther Greenwood e inicia em Nova York, onde está trabalhando por um mês em uma revista feminina junto com outras garotas selecionadas em um concurso. Uma realidade bem diferente daquela em que cresceu com seu irmão mais novo, nas imediações de Boston, onde as coisas não eram tão luxuosas e dadas de mãos beijadas, como acontece com as meninas da revista. Presentes, jantares caros e com pessoas ilustres, festas, compras, rituais de beleza… É como se todas aquelas garotas vivessem um dia de princesa por um mês, com o adendo de que estariam ainda trabalhando para a revista – cobrindo estreias, desfiles, peças e o que mais a vida cultural e deslumbrante de NY tinha a oferecer.

“I told Doreen I would not go to the show or the luncheon or the film première, but that I would not go to Coney Island either, I would stay in bed. After Doreen left, I wondered why I couldn’t go the whole way doing what I should any more. This made me sad and tired. Then I wondered why I couldn’t go the whole way doing what I shouldn’t, the way Doreen did, and this made me even sadder and more tired.”

Mas o deslumbramento de Esther logo é eclipsado com sua recorrente falta de ânimo para participar de tudo isso. “I was supposed to be having the time of my life”, ela escreve, mas todas as oportunidades de sair, se divertir e aproveitar os ares da grande cidade eram deixadas de lado pela vontade de apenas permanecer na cama do hotel sem fazer nada. Durante essa parte do livro, Esther acompanha as saídas com Doreen, uma colega mais liberal que não necessariamente respeita a programação estipulada pela revista, e Betsy, outra garota mais “certinha” e mais próxima de Esther. E enquanto narra o vazio que sente no meio de toda pompa novaiorquina, e sua ansiedade com tudo isso, também relembra os acontecimentos de um passado recente, em que decidiu não ter mais relação alguma com Buddy Willard, o garoto com quem namorava e, segundo todos achavam, iriam se casar.

Ao falar de Buddy, Esther mostra como é diferente das outras garotas de sua época (nos idos dos anos 1950), em que toda moça estudava e se preparava a vida inteira para se dedicar ao marido, à casa, aos filhos, e se sentir segura por não ser responsável pelo sustento de tudo isso, servindo apenas para manter tudo em ordem:

“The last thing I wanted was infinite security and to be the place an arrow shoots off from. I wanted change and excitement and to shoot off in all directions myself, like the colored arrows from a Fourth of July rocket.”

Esther demonstra esse impulso de dar rumo à própria vida, poder ser a mulher que quer, trabalhar com o que deseja, sem depender de nenhum homem para isso, libertando-se das cordas sociais em que praticamente todas as outras garotas estavam presas. Mas, aos poucos, sua certeza de ser capaz de enfrentar as convenções vai minguando conforme a “redoma” desce sobre sua cabeça e a obriga a respirar o mesmo ar viciado que acaba de expirar: as coisas começam a ficar sem sentido; lavar o cabelo ou trocar de roupa não são mais tarefas dignas a se dedicar se isso logo voltará a se repetir de novo e de novo. É dessa forma que Esther se sente ao voltar para casa nas férias, onde não mais se esforça para fazer qualquer coisa que antes lhe dava prazer, como ler e estudar e adiantar as coisas da universidade. E é aí que Esther se sente mais sufocada e os males psiquiátricos passam a ser seu interesse.

“Then He would lean back in his chair and match the tips of his fingers together in a little steeple and tell me why I couldn’t sleep and why I couldn’t read and why I couldn’t eat and why everything people did seemed so silly, because they only died in the end.

And then, I thought, he would help me, step by step, to be myself again.”

O que traga o leitor para dentro do romance de Sylvia Plath é a forma com que ela vai mostrando como a depressão vai tomando conta de todo o corpo de Esther, de uma forma racional e objetiva. Ela sabe que algo está errado com sua mente, mas não se vê apta a, sozinha, conseguir superar toda a ansiedade e descrédito na vida. A única coisa que consegue fazer é ler livros de psicologia para combinar os sintomas que eles descrevem com aquilo que sente, e depois de um tempo, avaliar e planejar maneiras de tirar a própria vida. É uma narrativa que guarda desespero na maneira simples com que Plath apresenta todos os sintomas da queda mental de Esther.

Frances McCullough, editor da Harper que publicou The bell jar nos EUA, introduz o livro falando da relevância do romance de Sylvia Plath para a literatura feminina ainda hoje, justificando seu selo de clássico moderno. O que Plath escreveu, além de revelar como uma pessoa se deixa cair tão fortemente em pensamentos suicidas e não vê mais graça, sentido e significado no mundo, é tocante às jovens mulheres por mostrar uma garota dos anos 1950 desejando tomar os rumos de sua própria vida – mas se vendo barrada tanto para fazer o que se espera dela quanto para transgredir. Ainda hoje muitas mulheres se veem presas a essas mesmas convenções sociais, embora o cenário em que vivemos seja bem melhor que o daqueles anos. Mesmo assim, nossa sociedade tende a julgar uma mulher como respeitável aquela que se casa, tem filhos e é recatada – pode não parecer, mas trabalho, liberdade e sexo ainda são assuntos tabus para muitas mulheres. Assim como era com a geração de Plath e Esther.

“I knew I should be grateful to Mrs. Guinea, only I couldn’t feel a thing. If Mrs. Guinea had given me a ticket to Europe, or a round-the-world cruise, it wouldn’t have made one scrap of difference to me, because wherever I sat – on the deck of a ship or a street café in Paris or Bangkok – I would be sitting under the same glass bell jar, stewing in my own sour air.”

Existem esses livros que queremos que todos leiam em certo momento da vida, pois falarão muito mais a esse ou aquele leitor cuja idade ou anseios batem com a das personagens. Se toda recomendação de leitura para um adolescente contém O apanhador no campo de centeio, para as mulheres entrando na vida adulta esse livro seria The bell jar. Não é qualquer romance que leva o leitor tão pra dentro da cabeça do narrador, e traz certa luz sobre aquilo que estamos passando agora – incertezas, medo, bloqueio e insegurança. Ver Esther Greenwood sucumbir à sua redoma asfixiante e depois conseguir sair dela para uma vida nova e cheia de possibilidades tem seu lado positivo – pena que, para Plath, isso não durou muito tempo.