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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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As virgens suicidas, de Jeffrey Eugenides

as-virgens-suicidasQuando Cecilia cortou seus pulsos e se deixou esvair em sangue dentro da banheira da família Lisbon, a preocupação pelo bem-estar das meninas tornou-se fato de curiosidade de todos os moradores daquela rua de classe-média. A tentativa de suicídio aos 13 anos de idade confirmou que havia algo de errado com a caçula dos Lisbon. Para tentar recuperá-la, seus pais afrouxaram as regras da casa para ela e suas irmãs Lux, Bonnie, Mary e Therese – de 14, 15, 16 e 17 anos. Porém, a determinação de Cecilia era mesmo tirar a própria vida, e durante uma festa das irmãs para os seus vizinhos e colegas, a garota atinge seu objetivo ao se jogar da janela de seu quarto e cair em cima da cerca pontiaguda que rodeava a casa. Em um ano, todas as suas irmãs procurariam semelhante destino.

Quem narra a trágica história das garotas Lisbon em As virgens suicidas são seus próprios vizinhos, encantados pela beleza das meninas e também pela distância que guardam dela, o que as tornam praticamente intocáveis, alcançadas apenas em sonho. O livro de Jeffrey Eugenides é uma de suas obras mais aclamadas, e foi adaptado para as telas do cinema pela diretora Sofia Coppola. Os garotos contam, já adultos, tudo o que aquela rua vivenciou no ano após a morte de Cecilia, registrando minuciosamente a decadência da casa dos Lisbon e da sanidade de todos os seus moradores – não temos certeza se é apenas uma voz ou são relatos de todos que compõem a narrativa. Através de documentos, entrevistas e objetos que resgataram do lugar e guardam anos depois, tentam, de todas as maneiras, entender o que levou aquelas cinco garotas a preferirem deixar de viver em plena juventude.

“Todo mundo tinha uma teoria para explicar por que ela havia tentado se matar. Para a sra. Buell, a culpa era dos pais. ‘Aquela menina não queria morrer’, disse a nós. ‘Tudo que ela queria era sair daquela casa.’ E a sra. Scheer completou: ‘Queria sair daquele estilo de decoração.’”

O rigor da educação religiosa imposta pela sra. Lisbon praticamente aprisiona as filhas dentro de casa. Embora o marido, professor da escola das meninas, seja mais aberto a deixá-las sair e se divertir um pouco, prevalece a palavra final de sua mãe: elas não podem usar roupas “provocantes”, não podem ficar até mais tarde fora de casa, não podem sair sozinhas com garotos. Após o suicídio de Cecilia, Lux, Bonnie, Mary e Therese parecem se afastar ainda mais dos outros adolescentes da escola, andando sempre juntas, sendo observadas a distância como se portassem um vírus que fosse enlouquecer os jovens e os fazer querer morrer também. Para os garotos, as meninas passam a apresentar uma aura ainda mais curiosa e misteriosa, e aos poucos vão juntando pistas para as suas vidas dentro da privacidade de sua casa e vendo como o cotidiano delas era triste e limitado.

Aos poucos, as Lisbon voltam a conviver normalmente com seus colegas, e a atração que elas exercem nos garotos fica mais intensa. O ápice é quando a sexualidade de Lux aflora, levando-a a quebrar todas as regras de sua mãe para ter encontros com garotos da escola, toda semana se relacionando com algum rapaz diferente. Um deles convence o sr. Lisbon a liberar suas filhas para irem ao baile de início de ano na escola, mas a desobediência de Lux faz com que todas sejam praticamente trancafiadas dentro de casa novamente. E é aí que ela passa a usar o sexo mais ainda para se desprender e desafiar constantemente os pais: no meio da noite, deixa homens estranhos entrarem em casa e subirem sorrateiramente para o telhado, onde mantém suas relações à vista de todos os vizinhos. A deterioração da casa e dos Lisbon só aumenta conforme a melancolia adentra o espírito das meninas.

Na conversa com o médico que salvou Cecilia de sua primeira tentativa de suicídio, ele diz que ela nem tem idade para saber “o quanto a vida pode se tornar ruim”, ao que a menina retruca: “É óbvio, doutor, você nunca foi uma menina de treze anos.”. Há um grande abismo entre a visão de mundo das meninas, dos garotos e os adultos, que transparece durante a leitura do diário de Cecilia. Eles a enxergam como seres mais maduros, que atingem a maturidade antes de todos os outros, como mulheres em miniatura, que entendem antes de qualquer outra pessoa o que significa o amor e a morte. Ainda hoje, ser uma garota é viver de certa forma sob pressão: elas devem ser bonitas, inteligentes, obedientes, exemplares, e não podem reclamar ou revindicar nada. Devem ser perfeitas e quietas. Para um grupo de garotas em plena adolescência, momento em que fazem descobertas e botam em prática planos para o futuro, viver sob essa pressão materna e conservadora é desestimulante e depressivo. A morte de Cecilia, e a das outras irmãs, não é só uma fuga da rigidez dos pais, mas parece ser também uma maneira de se livrar de tudo aquilo que a sociedade exige de uma mulher.

“O sr. Hedlie mencionou que a Viena do fin-de-siècle testemunhou um surto semelhante de suicídios entre jovens e botou a culpa de tudo no infortúnio de se viver em um império moribundo. Tinha algo a ver com o fato de a correspondência não ser entregue no tempo correto, com o modo como os buracos nunca eram consertados na rua, com a roubalheira na prefeitura, os tumultos raciais, ou com os oitocentos e um incêndios criminosos ocorridos na cidade na véspera do Halloween. As meninas Lisbon se tornaram um símbolo do que estava errado com o país (…)”

Em As virgens suicidas, os narradores não fazem um mero resgate do que aconteceu naquele ano em sua rua, mas montam, ou tentam montar, um dossiê completo do estado de espírito das Lisbon. Objetos pessoais, fotos, diários, bilhetes, cartas, depoimentos de quem viveu com elas ou assistiu a derrocada da família fazem parte de um santuário que guarda a memória das garotas, uma ferramenta para que elas não se apaguem e sumam da história de suas vidas. A solução de Eugenides de transformar essa tragédia em uma narrativa carregada pela paixão dos garotos pelas meninas torna o livro ainda mais impactante. As Lisbon não são desvendadas após reunir tantos depoimentos sobre elas e interpretar suas mortes sob vários pontos de vista. Nada, além delas, é capaz de dizer o que motivou a morte de cada uma. E é esse mistério permanente que faz do livro uma leitura reverberante.