a-mente-assombradaFaz algum tempo em que ando interessada no funcionamento do cérebro humano. O interesse surgiu, acredito, quando comecei a ler mais sobre a memória – como funciona, o que nos faz lembrar de certas coisas e esquecer outras. Tudo era tão diferente do que eu pensava, e tão maravilhoso, que cada vez mais fui procurando ler coisas sobre o cérebro. A última dessas leituras foi A mente assombrada, novo livro do inglês Oliver Sacks, renomado neurologista autor de diversas obras que exploram a mente humana. Nesse último livro, seu interesse se debruça sobre as alucinações, as involuntárias e as induzidas por drogas e outras substâncias, mostrando de que maneira o ato de enxergar aquilo que não existe está presente no cotidiano e na cultura humana.

O início de A mente assombrada já dá ao leitor uma ideia do quão extraordinário é o nosso cérebro, de uma maneira que o deixa maravilhado e assustado. Alucinações, na definição que Sacks faz, são “percepções que surgem na ausência de qualquer realidade externa – ver ou ouvir coisas que não existem”. Diferente do que o senso comum considera, ter alucinações não possui relação alguma com a loucura. Muitas pessoas que sofrem com alucinações podem não procurar tratamento ou não admitir para outros que veem coisas que não existem com receio de serem consideradas loucas, uma reação preconceituosa e ignorante da real natureza dessas visões ou percepções. Esclarecer isso, então, é a primeira coisa que Sacks faz ao leitor.

A importância de estudar as alucinações está no papel que elas desempenham na cultura. Segundo Sacks, elas sempre estiveram presentes na mente humana, podendo ter contribuído com a origem de lendas, como as fadas, os fantasmas, os extraterrestres, e estimulado a arte e, até, a religião – por exemplo, usar alucinógenos em rituais sacramentais que estimulam “contatos com o divino”. As experiências alucinatórias são parte essencial da condição humana.

Para mostrar a natureza e os efeitos que as alucinações provocam na vida, Oliver Sacks usa como base da narrativa os relatos que ouviu de pacientes, colegas médicos ou pessoas que lhe escreviam compulsoriamente descrevendo suas experiências. Os capítulos do livro são divididos conforme os tipos de alucinações (visuais, auditivas ou sensoriais – como a sensação de um cheiro ou uma presença) e também causas de alucinações (a Síndrome de Charles Bonnet, privações sensitivas, mal de Parkinson, drogas, narcolepsia etc.). São dezenas de relatos que mostram a grande variação de percepções do irreal que espantam pela riqueza de detalhes e situações em que acontecem. Na maior parte desses depoimentos, os pacientes, amigos e colegas de Sacks dizem que as alucinações são tão intensas que acabam por se confundir com a própria realidade. Um dos casos mais curiosos foi o de uma senhora que, ao ver um homem dependurado do lado de fora de seu prédio lhe acenando, pensou se tratar de uma alucinação, quando na verdade era um limpador de janelas em um andaime de verdade.

Essas alucinações descritas por Sacks podem adquirir variadas formas. Seus confidentes afirmam enxergar multidões trajando roupas de cores radiantes passando enfileirados pelos seus quartos; melodias belas, porém nunca antes ouvidas e impossíveis de se  reproduzir, tocando com um alto grau de detalhamento dentro de suas cabeças; prédios e estradas crescendo do nada enquanto andam de carro; figuras iluminadas flutuando sobre suas camas ou deitadas a seu lado; padrões geográficos ou palavras e notas musicais dançando em frente aos seus olhos; ou até um sapo Kermit que constantemente aparece num canto de sua visão durante dias ou semanas. E essas alucinações podem ser tanto belas como assustadoras, mas independente da natureza, causam certos ruídos na realidade da pessoa, provocando certa incerteza de que se está vendo algo real ou não. Todas elas possuem, porém, uma natureza, uma explicação e, em muitos casos, tratamentos. Mas o mais importante, segundo os relatos, é aprender a conviver com elas.

“Viver apenas o dia presente é insuficiente para um ser humano; precisamos de transcendências, de arroubo, de escape; precisamos de significado, compreensão, e explicação; precisamos enxergar padrões gerais em nossa vida. Precisamos de esperança, de um senso de futuro. E precisamos de liberdade (ou pelo menos da ilusão da liberdade) para ir além de nós mesmos, seja com telescópios, e microscópios e com a nossa sempre florescente tecnologia, seja em estados de espírito que nos permitam viajar para outros mundos, transcender nosso ambiente imediato. Precisamos desse tipo de afastamento tanto quanto de algo que nos absorva na vida.”

Um dos capítulos mais interessantes do livro é “Estados alterados”, em que Oliver Sacks descreve suas próprias experiências alucinatórias induzidas por drogas. Depois dos 30 anos de idade, quando era um jovem neurocirurgião já nos Estados Unidos, Sacks realizou experiências nele mesmo para compreender a natureza das alucinações e os efeitos das drogas no cérebro. Esse relato (que pode ser lido no site da revista piauí) mostra até onde a curiosidade de Sacks pode ir, e as experiências que ele viveu são vivamente recordadas. Entre as alucinações que teve induzidas por LSD, canabis e mescalina, Sacks relata ter ficado em um estado de transe enquanto lia um livro durante várias horas, sem notar o tempo passar, ou conversar e fazer o café da manhã para um casal de amigos que julgava estar em sua casa. São experiências que maravilharam e também assustaram o autor pelo grau de detalhamento, dando certeza de que ele estava vendo algo que na realidade não estava ali. E, claro, comprovaram o quão longe a mente humana pode ir.

Outro ponto curioso do livro é a relação entre alucinações e religião. Muitas dessas percepções podem adquirir uma interpretação divina, como a visão de anjos, demônios e até de pessoas que já se foram – ou a visão de si mesmo, como uma experiência extracorpórea enquanto se está entre a vida e a morte, pensando que seu espírito “saiu do corpo”, foi até algum outro lugar e depois “voltou à vida”. Como Sacks diz, “a pessoa precisa ser muito forte e (cética) para resistir a tais alucinações e recusar-lhes credibilidade ou obediência, especialmente se elas tiverem uma qualidade de revelação ou epifania e parecem indicar um destino especial, e talvez glorificado”.

A verdade é que nossa mente sempre vai responder a algum estímulo e procurar preencher uma necessidade nossa, seja ela física ou emocional. Como quando fala das alucinações que recordam algum momento traumático, isso mostra como a mente trabalha para “acalmar” ou então não é capaz de “esquecer” algo marcante. Pode tranquilizar ou perturbar ao mesmo tempo, pode ser um sintoma de algum distúrbio, um efeito ao uso de algum medicamento, e pode ser reconfortante ou assombrosa.

Assim como a memória não é 100% correta, A mente assombrada mostra como nosso cérebro também não pode ser totalmente confiável em outros aspectos. São coisas naturais, sim, e explicadas e controladas pela ciência – ou pelo menos caminhamos para isso, com o avanço da medicina e das tecnologias. Mas mesmo assim, pensar que somos tão suscetíveis aos truques da nossa mente é, de certa forma, fragilizador. Contudo, é tão incrível o quanto nossa mente pode criar ou recriar coisas que não há como pensar o quanto as alucinações podem ter contribuído com a maioria das histórias fantásticas que ouvimos durante a vida. O que seria da arte sem elas?