o-diabo-no-corpoCostumo ter algumas fases em que livros sobre certos temas me interessam mais. No início do ano, a minha obsessão literária eram os livros sobre suicídios, boa parte deles protagonizados por jovens que não teriam, aparentemente, motivo algum para tirar a vida. No momento as leituras andam bem dispersas em se tratado de temas, mas tenho planos de ler mais sobre questões do cérebro e da memória. E apesar dessa gama enorme de assuntos e abordagens que a literatura tem, meu interesse sempre acaba voltando para as histórias de amor. Não há pessoa que em algum momento da vida não lide com esse sentimento, de estar apaixonado ou enamorado por alguém e fazer toda sua rotina girar em torno disso. Então me animei quando, recentemente, a Companhia das Letras anunciou a publicação pelo selo Penguin-Companhia de uma série de textos clássicos na coleção Grandes Amores, começando com O diabo no corpo, de Raymond Radiguet, e Os mortos, de James Joyce.

Como os títulos sugerem, essas “grandes histórias de amor” não parecem ser daquelas que terminam felizes – essas são justamente o meu tipo preferido. Comecei lendo O diabo no corpo, uma clássica novela francesa publicada originalmente em 1923, escrito pelo jovem Radiguet, que morreu com pouco mais de 20 anos de idade. Radiguet era um prodígio das letras que escrevia desde a adolescência, e sua história se reflete no protagonista de O diabo no corpo. A esposa de um soldado que está nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial se envolve com um jovem de 16 anos, que conta sua história de amor “proibido” com a mulher de 19 anos. São dois jovens, mas a sociedade da época os condena pela relação.

Desde as primeiras palavras o narrador demonstra a sua precocidade. Ainda criança, foi pego pelo diretor de sua escola por escrever uma carta de amor para uma colega – o que alguns adultos veriam como gracinha, um ato bonito, infantil e inocente. Mas para ele, o desejo pelo corpo feminino estava presente em seu estado puro desde sempre. Ao conhecer Marthe quando ela ainda não era casada, instantaneamente sente-se atraído pela moça e arranja pretextos para encontrá-la nas ruas ou visitar sua casa. O que pode parecer uma inocente paixonite por uma mulher bonita e mais velha logo se revela um desejo carnal e manipulador, com o jovem influenciando as escolhas de Marthe para o futuro enxoval que apresentará ao noivo.

A ida dele para as trincheiras deixa Marthe sozinha logo nos primeiros meses de casamento, e seu único amigo nesse período é o protagonista, com quem aos poucos vai se soltando até desencadear um tórrida relação. A narrativa evidencia a infantilidade do casal, que faz juras de amor grandiosas e impraticáveis, que se exaltam e choram por qualquer desentendimento, um relacionamento cheio de noites de amor e ameaças. Marthe se preocupa com o futuro dessa relação, com receio de que, assim que envelheça e conquiste sua liberdade, o jovem a troque por uma mulher mais nova. E ele alimenta o ciúme do marido, maldizendo suas licenças, desejando um futuro em que eles sejam de verdade um casal. Mas como ele narra um passado – mesmo que recente –, mostra ter certo “pé no chão”, percebendo que pode vir a perder o interesse em Marthe conforme for tendo outras experiências, e consciente de que a relação entre eles tem um aspecto sombrio, manipulador e obsessivo.

Durante a leitura, o protagonista pode parecer muito esclarecido para a sua idade, experiente demais para ser verossímil. Contudo, é preciso lembrar sempre que a história foi escrita por Radiguet quando ele tinha 17 anos, também um adolescente com pouca “experiência de vida”, se formos pensar apenas quantitativamente. Ele pode ter visto pouco da vida, mas o que viveu foi feito com a intensidade necessária para colocar no papel uma história de qualidade sobre uma paixão.

“É preciso admitir que, se o coração tem razões que a razão desconhece, é porque a razão é menos razoável que o nosso coração. Sem dúvida somos todos Narcisos, amando e detestando a própria imagem, e a quem qualquer outra é indiferente. É esse instinto de semelhança que nos conduz na vida, exclamando ‘alto!’ diante de uma paisagem, uma mulher, um poema. Podemos admirar outras paisagens e mulheres e outros poemas, sem sentir o mesmo abalo. O instinto de semelhança é a única linha de conduta não artificial. Mas na sociedade só os espíritos grosseiros parecerão não pecar contra a moral, ao perseguir sempre o mesmo tipo. Assim, certos homens desejam obstinadamente as louras, ignorando que com frequência as semelhanças mais profundas são as mais secretas.”

A passagem mostra como o narrador vai mudando sua opinião sobre o relacionamento conforme ele se desenrola. Enquanto desmente os receios de Marthe de que ele a abandonará assim que sua “juventude florescer”, começa a notar que na sua vida há mais a experimentar. Que apesar da forte atração e carinho, seu interesse por Marthe não resistirá à toda uma juventude de novas experiências que aguarda o garoto. A precocidade do protagonista se revela tanto na atração pelas mulheres quanto na reflexão sobre esse relacionamento e sua maneira de enxergar o sexo feminino – para um adolescente, ele conhece demais os jogos de sedução, os caprichos e os receios de uma mulher, embora ainda lhe falte maturidade.

Radiguet abusa do romantismo em diversas passagens: as personagens se amam sem pudor, se entregam aos sentimentos sem temer serem descobertos e ignorando as desconfianças mesmo quando elas já se transformaram em certezas. Quando estão na casa de Marthe ou até em lugares públicos, são capazes de esquecer todo o mundo à sua volta, e raramente ruídos externos, as fofocas e boatos, cruzam a porta para abalar o desejo do casal. Só eles mesmos são capazes de produzir os dramas da relação. O narrador, cheio de vontade de viver com Marthe todas as sensações que o amor pode causar, passa pela alegria, a euforia, o ódio, a crueldade e as pequenas vinganças que usa para castigar sua amante. Eles vivem um romance que exige provas e juras exageradas de amor, em que até a própria morte é cogitada como moeda de chantagem emocional. Ambos usam o sofrimento do outro como prova de afeição e compromisso.

É inegável que, com tão pouca idade, o texto de Radiguet seja visto como prodigioso pelo seu talento para expressar essa relação polêmica, conflituosa e intensa. Ainda mais por seu protagonista compreender tão bem seus caprichos de amante, que quer amar e machucar ao mesmo tempo, sendo vassalo e soberano de uma mulher. A história, claro, não conta com o final feliz que eles tanto imaginam e representam no momento em que estão sozinhos, longe dos olhos da sociedade francesa. Mas é assim que uma boa e trágica história de amor tem que ser.