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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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A vida privada das árvores, de Alejandro Zambra

a-vida-privada-das-arvoresUltimamente os romances breves têm me agradado muito. É estranho lembrar de quando era adolescente, eu empolgada com a descoberta da leitura querendo ler os maiores livros que eu encontrava na biblioteca – se tivesse menos de 400 páginas não me interessava. Naquela época havia tempo livre e mais energia para isso. Não que eu não goste dos livros grandes hoje, mas depois de certo período lendo o mesmo romance, fico com a sensação de que a leitura está se arrastando, quando o problema ne verdade é não ter mais aquelas preciosas horas para dedicar a um livro. Tudo isso só para dizer que os livrinhos que eu desprezava naquela época de descoberta literária hoje estão entre as minhas melhores experiências.

No ano passado, uma das minhas leituras favoritas foi Bonsai, do chileno Alejandro Zambra. O que me encantou no livro foi a forma econômica que ele utilizou para escrever o romance, cortando tudo aquilo que fosse enfeite, penduricalho estilístico, deixando apenas o básico que uma narrativa precisa para funcionar. Isso não significa de forma alguma que o texto seja seco e bruto, sem emoção. Bonsai é carregado de sentimento, de paixão, e cada linha era lida com certo ar aparvalhado de surpresa. É possível escrever um grande romance com poucas páginas. As opiniões sobre o livro de Zambra foram quase unânimes – é impossível que qualquer coisa agrade a todos –, e com certeza o tamanho do romance teve algum efeito sobre a lista de livros lidos de muitos conhecidos.

Nesse ano a Cosac Naify lançou um segundo romance de Zambra no Brasil, A vida privada das árvores. A proposta desse novo livro é a mesma de Bonsai: o autor pretende ser breve, expulsando da história as coisas que não fariam falta nela caso não existissem. O amor novamente é o ponto principal da narrativa, contudo de uma forma diferente. Em uma noite, esperando sua mulher voltar de sua aula de desenho, Julián entretém sua enteada contando histórias sobre a vida privada das árvores. Esses pequenos contos que o protagonista, um escritor, inventa são a diversão de Daniela antes de dormir. A menina está ansiosa, quer que a mãe chegue logo, e aos poucos ela e o padrasto começam a estranhar a demora. Mas a história curiosa das árvores milenares que conversam logo a faz pegar no sono. E aí os pensamentos de Julián tomam conta do livro.

O narrador nos diz apenas um detalhe certo sobre esta história: o livro irá terminar quando Verónica voltar, ou quando Julián tiver certeza de que ela foi embora e nunca mais a verá. Para o leitor essa segunda hipótese pode parecer dramática demais, isso porque ele ainda não tem ideia do passado e de que tipo de relação Julián mantém com Verónica. A impressão dada por Zambra, que perdura durante a narrativa, é a de que os dois formam uma família feliz. Mas essas são as condições para o romance: ele dura até enquanto durar a dúvida de Julián. Até que ela volte, o narrador tem que ocupar as páginas contando a história dos amores do protagonista.

A vida privada das árvores se estende oferecendo ao leitor esse panorama da vida do protagonista. Antes de Verónica, Julián namorou Karla, uma mulher que se distanciou tanto dele que o fim do relacionamento era inevitável. Até aí ele já havia encontrado Verónica, só não tinha nenhuma relação com ela ainda. Mas após o término, ele tentou de todas as formas conversar com a futura mulher, usando a encomenda de bolos como pretexto para puxar conversa e convidá-la para sair. Nessa primeira fase da vida amorosa de Julián, Zambra começa a desvendar a brevidade do sentimento, como ele é capaz de pular de uma pessoa para a outra. Logo mais, ele dedica as linhas para falar do início da vida com Verónica e Daniela, e aí o objeto do amor parece novamente se transformar. O leitor passa, então, a enxergar o seu amor paternal pela menina de 10 anos.

Zambra dedica a narrativa para a conquista da menina como filha, o gelo sendo quebrado entre padrasto e enteada, quando ela passa a confiar nele como se fosse seu pai verdadeiro. Esse também é um dos temas abordados no romance, o constrangimento do pai ao ouvir a filha falando do padrasto e vice-versa, como se existisse uma competição invisível entre eles. Uma disputa pelo carinho de Daniela. Julián conjectura sobre os diálogos de Daniela com o pai, fantasia um futuro em que ela, adolescente, se orgulha do padrasto escritor, que de alguma forma faça Julián parecer superior ao seu pai – um homem que, como o narrador apresenta, é mais magro, mais loiro, mais bonito e mais rico que ele.

Assim, do relacionamento de Julián com Verónica e Karla a história passa a se concentrar em Daniela na futura relação que ela terá com Julián, no que esse escritor irá representar para a vida da menina. Quase se esquece da falta de Verónica, da sua demora, mas logo Zambra retorna a esse fio da história, lembrando que se você ainda está lendo é porque ela ainda não voltou – e aí Julián tenta, de novo, pensar em hipóteses para isso. Um acidente, uma traição, uma amiga doente que precisou ser acompanhada ao hospital.

Em A vida privada das árvores Zambra não explora tanto o artifício metaliguístico que usou em Bonsai. O único momento em que isso ocorre é quando faz uma sutil referência ao livro anterior, lembrando que Julián usou um bonsai como metáfora para sua própria obra: escrever é como cuidar de um bonsai, é preciso observar, contemplar, podar as partes excessivas, assim como o próprio autor fez com o livro que você lê.

Logo o romance acaba. Verónica não volta. Isso significa que Julián desistiu de sua esposa, não espera mais que ela vá voltar. Porém, Zambra não dá nenhuma pista sobre o que aconteceu. A vida privada das árvores é menos “genial” – é a forma mais prática que usei para definir – que Bonsai, mas ainda assim é um livro cuja leitura se mostra satisfatória. A brevidade e a quantidade de sentimentos expressados nesse livro comprovam mais uma vez a qualidade de Alejandro Zambra, e também que nem sempre uma boa história é aquela que contém o maior número de “frufrus” linguísticos.