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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Após o anoitecer, de Haruki Murakami

apos-o-anoitecerQuando tinha 16 anos, comecei a sentir dificuldades para dormir. Preferia passar as noites aproveitando a conexão gratuita da internet discada, conversando com pessoas distantes para passar o tempo, até o momento em que minha mãe, pela terceira vez, com certa indignação na voz, me pedia para desligar de vez o computador e ir dormir porque “você tem aula amanhã cedo, e já passou da hora”. Essa pseudo-insônia durou por mais uns três anos, principalmente no primeiro semestre em que estive dividindo um apartamento com mais duas meninas aqui em São Leopoldo. Sem ter pai ou mãe por perto, e calculando cada movimento para não acordar as gurias, pude passar minhas noites acordada, na internet. Depois que toda a rede mundial de computadores se recolhia para a cama, podia passar o resto da madrugada lendo e vendo vídeo clipes indies na MTV.

Contudo, o que eu realmente tinha vontade de fazer nesses momentos em que o sono não aparecia era sair pela cidade, caminhar para nenhum lugar em particular, entrar em algum bar que ainda estivesse aberto e ler nesses lugares, podendo ao mesmo tempo observar a ficção e a vida real. É isso o que Mari Asai faz em Após o anoitecer, de Haruki Murakami, um romance que acompanha uma noite na vida dessa jovem enquanto ela perambula pelas ruas de Tókio, com certeza menos desertas do que as de São Leopoldo. Durante as cerca de sete horas narradas neste livro, Mari conhece figuras da noite que acabam lhe fazendo pensar sobre sua relação com a família e seu futuro. Pessoas que, assim como ela, estão passando essas horas decidindo que rumo tomar na manhã seguinte.

Mari tem uma irmã mais velha, Eri, uma modelo japonesa que possui certa fama e grande beleza. A relação entre as duas não é das mais intensas – não brigam, mas também mal conversam. Elas cultivam certo afastamento uma da outra, agravado pelas grandes diferenças físicas e de interesses. Eri gosta de sua beleza, de roupas e acessórios, e Mari se concentra mais nos estudos de chinês e nas suas leituras. Essa distância entre irmãs se agrava ainda mais depois que Eri, há alguns meses, entrou em sono profundo, fato que Murakami também detalha no romance. Um dia ela decidiu tirar um cochilo para descansar, e então não acordou mais. Eri não está morta ou em coma, ela apenas dorme tranquilamente, acordando quando ninguém vê para dar uma breve passada no banheiro ou na cozinha, e logo voltando para o aconchego da cama e do sono longe da realidade.

No início dessa noite, Mari encontra Takashi, um jovem músico que havia, anteriormente, tido um breve encontro com ela e sua irmã. Entusiasta do jazz, Takashi está varando a noite ensaiando com sua banda, um último momento de prazer puro antes de se dedicar intensamente ao trabalho e aos estudos. Através dele Mari conhece Kaoru, a gerente de um motel que contou com a ajuda de seus conhecimentos em chinês para auxiliar uma prostituta agredida em seu estabelecimento. Por intermédio dessas personagens o leitor também conhece Shirakawa, um funcionário de uma empresa de tecnologia que vira as noites fazendo hora extra, sem ver há semanas sua mulher e seus filhos, escondendo deles – e talvez até de si mesmo – o lado sombrio e brutal que despertou no quarto do motel de Kaoru e levou à agressão da prostituta.

Montada a rede de relações entre personagens tão distintas, Murakami preenche a jornada dessa noite com as incertezas que assombram os pensamentos dessas pessoas. Algumas parecem estar satisfeitas com os destinos que tomaram, com a tranquilidade de uma vida com rotina simples e regrada. Outros, como Takashi, estão convictos de suas escolhas para o futuro, de que está na hora de tomar um rumo certo para construir uma vida digna. E há a ambição de Shirakawa, que não abre mão do trabalho fora de horário para galgar os degraus da empresa. Mari, em meio a isso tudo, se vê como uma jovem perdida, consciente de que há milhares de possibilidades a se seguir, e de que muitas delas têm potencial para dar errado.

Em suas conversas com Takashi, Mari é levada a repensar a relação que tem com a irmã mais velha, lembrar de seus momentos de carinho ou estranhamento, perceber que, apesar de tantas diferenças, elas tiveram, em alguma ocasião, um laço real entre irmãs. Mari parece guardar certa inveja do sucesso de Eri, compensando sua “falta de beleza” com a dedicação aos estudos. Através de Takashi, Mari começa a enxergar que a participação de Eri em sua vida vai além do que imaginava.

A sinopse de Após o anoitecer pode sugerir que o romance tenha mais ação do que ele realmente apresenta. Mas o que o livro realmente explora é a jornada interior de Mari nessa noite particular, e o entrelaçamento da vida dessas pessoas. “A cidade, em perspectiva, é um ser vivo gigante; um aglomerado de vidas que se entrelaçam”, diz o narrador nas primeiras páginas do romance. Na escuridão iluminada pelos letreiros de neon de Tókio, Mari é levada sem destino certo para diversos lugares pelas pessoas que encontra, aos poucos se abrindo com esses estranhos e refletindo com eles sobre os aspectos subjetivos da vida: o futuro, a morte, o que existe no fim, o que há para se fazer enquanto ainda se está respirando. Mari é o elo que liga todas essas vidas que transformam a cidade em algo pulsante.

O narrador de Murakami age como se estivesse monitorando Tókio através de milhares de câmeras, escolhendo pessoas aleatórias para observar com o zoom de sua lente. Ele amplia a visão da cidade e aproxima esse olhar para as pessoas que lhe interessa. Na verdade, Murakami não se refere a um narrador, mas a um grupo de olhos que observa cada passo de Mari e das demais personagens. “Somos um autêntico ponto de vista e do céu olhamos a cidade”, ele ressalta no final do livro. É como se Murakami transformasse o romance em um pequeno universo, e os leitores em seres com olhos privilegiados, capazes de se entreter com a vida de pessoas comuns e indecisas sem sair do conforto de suas poltronas, camas ou sofás.

O próprio leitor pode ser alguém acometido pela insônia de Mari, tendo no livro a oportunidade de sair de sua casa e observar os passos alheios, mas em um grau muito mais descritivo e privilegiado, que permite que ele esqueça por um momento aquilo que causa sua insônia para se concentrar nos dilemas dos outros – que ao fim das páginas chegará a alguma solução. Após o anoitecer confere essa sensação de que somos meros espectadores da vida alheia, que nos alimentamos da literatura para fazer as horas da noite – e dos dias – passarem mais depressa.