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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Suicídios exemplares, de Enrique Vila-Matas

suicidios-exemplaresO ser humano é um animal dotado de racionalidade que tem todas as escolhas nas suas mãos. Pode escolher seguir os impulsos instintivos do que ainda resta de sua natureza selvagem, ou viver em harmonia com a sociedade seguindo as suas regras éticas e morais. É da escolha dele viver intensamente ou prezar pela tranquilidade dos fins de semana em casa. É totalmente sua a responsabilidade de se empenhar nos estudos e trabalhar arduamente para, anos depois, recolher os frutos na aposentadoria. Ou vagabundear pelo mundo sempre sem dinheiro, mas com liberdade. E também é da escolha dele, simplesmente, viver ou tirar a própria vida. Sim, nós podemos deixar a existência física – e eu acredito, a consciência – no momento em que quisermos. Nós podemos nos matar, suicidar. Mas nem todos conseguimos.

Em Suicídios exemplares, o catalão Enrique Vila-Matas elenca uma série de histórias em que os protagonistas flertam constantemente com a opção da morte. Não são personagens deprimidas, num todo, como o leitor pode imaginar ao começar a ler o livro. O suicídio, muitas vezes, não é o deles, mas de alguém em volta que por algum motivo exerce alguma atração em pensar sobre a própria morte, imaginar inúmeras possibilidades de se deixar levar por ela. Mas ela, apesar de rondar quase todas as linhas desse livro, nem sempre é alcançada.

Rodeada pelo suicídio está a vida de um amigo de infância do protagonista de “Morrer por saudade”, em que ele, um homem nunca capaz de terminar nada que começa, conta como descobriu a trágica história da família de Horácio, um colega dos tempos de escola. A família mantinha uma extensa lista de suicídios entre seus membros, incluindo a de seu avô e de seu pai. De maneira misteriosa, o protagonista é atraído por essas histórias de morte, praticamente tomando para si o dever de dar continuidade à tradição de se jogar de um prédio, atirar na própria cabeça ou se enforcar. Mas para surpreender o leitor, a ideia de tentar suicídio gera o efeito contrário: brincar com a morte desse jeito desperta nele uma disposição a mais para viver, de contrariar a própria morte dizendo que “lhe cai bem a tristeza leve de uma severa espera”.

Destino diferente tem Brandy Mostaza em “Em busca do parceiro eletrizante”, um ator decadente que, depois de ter feito imenso sucesso no cinema, amarga a dor do abandono dos fãs, diretores e produtores. Sua vida está estritamente ligada a uma propriedade que compra quando ainda estava no auge da carreira, cujos boatos dizia levar seus proprietários a se despedaçarem gradualmente. A ânsia de voltar ao estrelato o leva a procurar um parceiro ideal com quem poderia viver uma espécie genérica de O Gordo e o Magro, e através de delírios, sequestros e ameaças, Brandy decide, enfim, acabar com a vida. Contudo, Vila-Matas deixa em aberto o desfecho dessa história, não oficializa a morte, a entrega do personagem à alma penada daquele que, por último, viveu na fatídica casa, embora permaneça a certeza no leitor de que sim, ele atinge seu objetivo.

Um dos melhores contos vem em seguida, com “Rosa Schwarzer volta à vida”. Nele, uma segurança de um museu relembra o dia anterior, em que completou 50 anos de idade, enquanto observa hipnotizada um quadro que deve cuidar – resistindo à vontade de ir para o que chama de “país dos suicidas”. Traída pelo marido e vivendo a indiferença dos filhos, no dia de seu aniversário Rosa Schwarzer vê em sua frente diversas oportunidades de suicídio, como beber água sanitária ou se jogar na frente dos carros. Porém, a cada vez que a ideia lhe passava pela cabeça, pensava em algum motivo, ou uma desculpa, para continuar vivendo. Vila-Matas retrata muito bem uma mulher relegada ao desespero da indiferença, em que não é notada por ninguém dentro de sua própria casa, e muito menos nas ruas. Desespero, esse, visto com pena no momento em que, ao se ver atada a essa vida desgraçada, grita o próprio nome na cozinha de casa no meio do jantar, agride o marido e chora desconsolada e sozinha, enquanto os filhos pedem para que pare pois não escutam direito a televisão. Esse conto revela a submissão de uma mulher à sua família, que lhe confere uma existência embaçada, importante apenas para arrumar a casa ou fazer o jantar. Nada mais triste e desesperador que não ser vista, reconhecida, como um ser humano.

O protagonista de “A arte de desaparecer” vive um dilema não com a morte, mas com aquilo que acreditou pela vida toda: passar desapercebido pela vida. Fingindo ser estrangeiro na própria terra natal, ao se ver um professor de educação física aposentado, no dia de se despedir da escola, sente certa satisfação em ser o centro das atenções. Ele esconde um talento para a escrita que o levou a escrever sete romances, e engavetar todos eles. Mas um dia esse talento vem à tona, e agora luta consigo mesmo pela vontade de ser reconhecido e também pelo respeito ao código de conduta que guiou toda a sua vida. O suicídio não é bem o tema principal aqui, mas sim como ser fiel àquilo que sempre se acreditou, encontrar uma solução para esse dilema existencial que lhe complica a vida.

Ao chegar na metade do livro, o leitor depara-se com “As noites da íris negra”, texto em que o suicídio está mais presente. Um jogador de futebol já com a carreira encerrada acompanha uma amiga jornalista à cidade natal de seu pai, que nunca conheceu, para tentar desvendar a sua morte – que todos dizem ter sido acidental, uma queda do telhado da igreja local durante uma encenação. Nesta cidade do litoral espanhol, recepcionados por um velho local, aos poucos o jogador vai desconfiando do que ele lhe conta, principalmente depois de se deparar com o irmão do homem, que todos dizem ser louco. A visita que fazem ao cemitério para ver o túmulo do pai da mulher acaba revelando o segredo de uma sociedade de suicidas, e embora o conto seja repleto de mortes dos membros desse clube, é aqui que o fracasso da tentativa de tirar a própria vida está mais presente. Pois nem todos conseguiram, ou tiveram a coragem, de seguir o pacto de, a cada reunião dos amigos, um deles deixar de viver. O texto guarda um mistério que leva o leitor a procurar uma solução para a vida desse homem junto com o protagonista.

Todos os outros contos de Suicídios exemplares são ótimas leituras, atraentes na originalidade com que Vila-Matas consegue contar diferentes histórias ligadas, todas, por um mesmo fio: a relação com a morte. Ainda há o conto em que uma senhora escreve uma carta a amante do marido que morreu, ou outro em que o próprio autor se revela criticando o trabalho de um pintor – que, transtornado, desaparece na floresta de uma ilha que sempre retratou sem nunca a ter visitado –, e um texto em que os amores não correspondidos, “que duram por toda uma vida”, desencadeiam suicídios dramáticos. Seja como forma de encontrar um novo ânimo para a vida, ou para deixar ela quando não se tem nada mais a oferecer, Vila-Matas aborda os vários lados, significados e soluções para o suicídio. Mas se o tema parecer muito macabro e desanimador, esqueça o suicídio e comece a leitura tendo certeza de que encontrará boas narrativas.

“Sou apenas um pobre-diabo. O pobre-diabo, para ser mais exato. Estou cansado de ser quem sou. Já são muitos anos fazendo cachorradas. Enquanto escrevia isto, fui me dando conta de que eu também tenho muita vontade de desaparecer. Passei em revista todas as possibilidades de suicídio e, depois de encontrar objeções para cada tipo de morte, decidi me fazer cócegas até morrer.”