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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O encantador, de Lila Azam Zanganeh

o-encantadorEncantar é seduzir, cativar. Ou também, numa visão mais lúdica, pode ser lançar uma magia, enfeitiçar. Seja lá qual for a definição que você dê a essa palavra, nas duas poderíamos enquadrar o escritor Vladimir Nabokov. É isso o que a autora franco-iraniana Lila Azam Zanganeh tenta nos convencer durante todo o seu livro de estreia no Brasil, O encantador. E ela não só nos convence de que Nabokov, autor de livros controversos como Lolita e Ada ou ardor, foi um homem extremamente feliz e abordou isso com maestria em todos os seus livros, como também lança um feitiço sobre o leitor deixando-o hipnotizado pela sua relação com a obra que admira. Lila é tão encantadora quanto Nabokov.

O meu interesse pela escritora começou com a sua vinda para a Flip de 2013. Nunca havia prestado atenção a esse nome, mas na casa em que estava hospedada em Paraty, durante a primeira noite da festa, acabei pegando sem querer uma entrevista dela no Programa do Jô. Foi encantamento instantâneo. Primeiro, por ela ser incrivelmente simpática e por falar apaixonadamente sobre o seu “escritor-obsessão”. E segundo, por se esforçar para falar um português claro, preocupada com os erros de pronúncia, língua que aprendeu especialmente para participar da Flip – em um ano de conversas diárias com um brasileiro via Skype. Sei que não se deve misturar o autor com a obra ao analisar um livro, mas me surpreendi com a humildade e inteligência de Lila – pelo menos humildade não é o que eu espero de uma pessoa que dê aulas desde os 23 anos de idade em Harvard e fala mais de seis idiomas. Minha experiência com acadêmicos geralmente os relaciona com pedantismo. E também é difícil separar autor e obra ao ler um livro que faz justamente isso: mistura a ficção e a realidade da vida de Nabokov e dela mesma.

Com isso tudo, O encantador passou por cima de todas as outras leituras que aguardavam na fila, e comecei a ler o meu exemplar autografado (em português) logo no avião voltando para casa. O que primeiro o diferencia de todas as leituras que fiz esse ano é a autonomia que Lila dá ao leitor para ler na ordem que desejar. Há, no início do livro, uma espécie de mapa em que ela localiza cada capítulo numa terra desconhecida chamada “Felicidade”, apontando um itinerário marcado em linhas pontilhadas e o avisando para segui-lo ou, se preferir, escolher seu próprio caminho. Cada um desses pontos do mapa expõe um tipo de felicidade contida na vida e obra de Nabokov, que é explorada por Lila em constantes comparações com sua própria vida e experiência de leitora.

Lila se mostra em cada trecho uma leitora atenta de Nabokov. Seu empenho inicial de se embrenhar nos densos romances do russo é recompensado com uma paixão obsessiva pela sua escrita, que a leva a ver o belo na sua vida. Ao sentir que se dispersa na leitura, ela volta incansavelmente para a frase que acabou de ler, esmiúça cada parágrafo para tirar dele todas as compreensões possíveis sobre as personagens e as tramas. É com essa atenção destinada aos livros de Nabokov que Lila enxerga a felicidade em cada palavra que ele escreve ou coisa que toca.

“A felicidade em VN é um modo singular de ver, maravilhar-se e entender, ou, em outras palavras, de enredar as partículas de lucidez piscando ao nosso redor. Isso pertence à sua própria definição da arte como curiosidade e êxtase, uma arte que nos provoca na estimulante tarefa da consciência.”

Com grande sensibilidade, Lila apresenta onde está a felicidade em Nabokov. O capítulo “A felicidade num ponto resplandecente da memória”, por exemplo, explora a alegria encontrada nas pequenas coisas da vida de um pequeno VN. Coisas como um jogo de tênis com a mãe, um dia no parque, um café da manhã. Ao resumir suas principais obras, ela aponta em que momento, em que linha, é possível vislumbrar a felicidade das personagens – mesmo que essa felicidade pareça distorcida e doentia aos olhos do leitor comum. O amor também não ficaria de fora, e misturando sua paixão pela mulher, Vera, com as meninas do passado que lhe encheram o coração, Lila também encontra pontos de alegria e contentamento até nas relações mais complicadas.

Lila quer desvendar o autor que admira, e revelar a relação escritor/leitor àquele que se propõe a encarar seu livro. Por isso, cada capítulo é aberto com um pequeno resumo em que ela diz que aspecto particular de Nabokov irá abordar, e qual a sua reação de leitora à ele. É quase como um diário íntimo de leitura vindo à público para que possamos entender a nós mesmos como leitores, a justificar o porquê de lermos.

“E, já que comecei, por que ler esses ou quaisquer outros livros? Por que se confrontar com o terror geral de incontáveis páginas não lidas, com os pelotões de palavras que eventualmente irão nos derrotar, mesmo que apenas porque lemos correndo contra o tempo?

A resposta, a meu ver, sempre se mostrou com clareza. Lemos para reencantar o mundo.”

É em encantar e reencantar que Lila nos apresenta a importância de Nabokov – ou de qualquer bom ficcionista. Os escritores, no pensamento de VN, eram “Professores, Narradores ou Encantadores”. Para ele, o verdadeiro escritor era o Encantador, o que é capaz de fazer os “planetas girarem”, o que “recompõem átomos, mapeia seu próprio mundo e nomeia uma miríade de objetos dentro dele”. É esse o tipo de escritor que nos permite “reencantar o mundo”, levar a nossa mente a outro patamar de compreensão da vida, capaz de enxergar beleza e felicidade em lugares obscuros e escondidos. Como afirma Lila, “apenas o Encantador pode expressar noções tão amplas quanto o tempo e o espaço, a cor de um céu ou o odor de uma estação do ano, a contorção de um nariz ou o tormento do amor”. É por conseguir fazer isso que Nabokov é um encantador.

Até aqui você pode pensar que O encantador é um grande livro acadêmico-teórico que utiliza inúmeras citações de Nabokov para explicar sua própria obra e provar que ele era um autor da felicidade. O que acontece é justamente o contrário. Lila mistura leitura, observação e ficção nesse livro. Se apropria de trechos inteiros de romances, rearranjando frases do autor, e entrevistas de Nabokov para montar seu texto. Ela mesma, em alguns momentos, se insere dentro da vida do escritor, como no capítulo em que realiza uma entrevista fictícia com Nabokov, em que até aparece em uma montagem fotográfica conversando com ele em sua casa na Suíça. Tudo para desvendar a pessoa que existe por trás de suas palavras – na sua ficção, sua biografia e na sua memória. Como ela explica, “de elementos da verdadeira história de VN, imaginei outras histórias, novos começos” para chegar ao íntimo da escrita de Nabokov, entender sua felicidade e transmiti-la aos outros entusiastas de sua obra. E, assim, O encantador a faz se entender como leitora, capaz de mostrar esse caminho para outros apaixonados pela literatura.

“Do espelho convexo de romances, acreditava ele com fervor, não se pode extrair nenhuma moral. Não se pode aprender nenhuma lição. Uma obra literária é a obra-prima de um maníaco, um jogo na arte do arrepio, um Éden recriado em que Deus não mais habita e o amor primordial é permitido. No fundo, VN escreveu, a ficção existe ‘na medida em que me proporciona o que chamarei sem rodeios de prazer estético, isto é, a sensação de que de algum modo, em algum lugar, está conectada a outros estados da existência em que a arte (a curiosidade, a delicadeza, a gentileza, o êxtase) é a norma’.”