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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Realidades adaptadas, de Philip K. Dick

realidades-adaptadasO que é ser humano, e como temos a certeza de sermos humanos? Essa questão deve estar presente em um grande clássico da literatura, pode ter atormentado milhares de grandes escritores que tentam, em suas obras, responder e dissecar essa pergunta. O que é o homem? O que nos torna humano? A confusão que essa interrogação carrega é grande, e as possibilidades de respostas acabam gerando ainda mais perguntas, como o leitor de Realidades adaptadas vai perceber.

A realidade e a humanidade são dois temas amplamente explorados por Philip K. Dick, um dos principais autores de ficção científica dos EUA (nascido em 1928 e morto em 1982, aos 53 anos de idade). Sua obra passou a ser bem mais conhecida após serem adaptadas para o cinema. São dele os contos que viraram filmes como O vingador do futuro, Minority Report – A nova lei, O pagamento, Screamers, etc. Realidades adaptadas, publicado pela editora Aleph, reúne sete dos contos que deram origem a ficções científicas que engordaram as bilheterias de Hollywood como forma de iniciar o leitor pouco familiar ao autor em suas obras. E todas essas histórias têm as questões do início desse texto em comum.

A narrativa de Dick é bem simples, sua força está no enredo, no desenrolar das tramas que constrói, cheias de reviravoltas. O autor tenta despistar o leitor todo tempo, fazendo as coisas não parecerem o que realmente são, levando até os seus próprios protagonistas a terem dúvida sobre a sua condição e sobre a realidade em que vivem. Enganos, incertezas e confusão acometem as personagens e o leitor. Embora seja possível antecipar alguns desfechos, o leitor se sente atraído pela narrativa objetiva de K. Dick.

O primeiro conto, “Lembramos para você a preço de atacado” (texto em que se baseia O vingador do futuro), tem como protagonista Douglas Quail, um assalariado comum acometido constantemente com sonhos sobre Marte. Seu desejo é conhecer o planeta vermelho, e para concretizá-lo procura a Rekordar S. A. para receber um implante de memória. Após o implante, ele irá se lembrar detalhadamente de sua viagem fictícia até Marte e ganhar provas para se convencer de que realmente foi até lá. Contudo, antes do processo começar, Quail recorda de já ter ido sim a Marte. E em missão, como um agente. Começa, então, uma corrida para se proteger e tentar lembrar exatamente o que aconteceu e o que fez lá. Este primeiro conto tem uma característica que eu não esperava encontrar nas histórias de Philip K. Dick: uma forma de humor. Ao pensar em O vingador do futuro, você visualiza armas, tiros, perseguições, Schwarzenegger batendo em todo mundo. Mas o conto guarda um tom cômico em seu desfecho, em que as pessoas que queriam eliminar Quail devem se resignar de seu objetivo, baixar a cabeça e aceitar a existência do homem e sua fixação com Marte.

O segundo conto, “Segunda variedade”, também se destaca nesta coletânea. Ambientado em um Estados Unidos futurista massacrado por uma guerra entre norte-americanos e soviéticos, um major americano, Hendricks, é enviado para uma base inimiga para responder à proposta trazida por um mensageiro. No caminho encontra Daniel, um garotinho de aproximadamente 10 anos de idade que vive sozinho em meio às cinzas do que um dia foi um grande país. Apenas soldados e as camadas mais pobres da civilização vivem lá, os ricos e poderosos acompanham essa guerra da Base Lunar. Porém, ao encontrar alguns inimigos no meio do caminho, Hendricks descobre que Daniel não é um garoto, e sim uma forma variada de uma garra.

As garras são armas construídas pelos norte-americanos para destruir e atacar somente os seus inimigos. Porém, elas ganham vida própria e controle sobre si mesmas, e passam a evoluir e a criarem novos modelos, cada vez mais letais. Este texto ilustra bem a capacidade do homem de causar destruição. Não apenas a da natureza ou de parte de um planeta, mas a da própria raça. O avanço armamentista, como Hendricks descobre, tem um preço alto. Durante todo o texto, K. Dick deixa o leitor em dúvida sobre quem são as personagens que acompanham Hendricks de volta a seu quartel, inundando a história com a desconfiança constante de que ninguém mais é humano, todos são apenas versões diferentes de uma garra pronta para massacrar qualquer carne de verdade que apareça na sua frente.

Em “O relatório minoritário”, logo no início K. Dick vai além da mera ideia engenhosa sobre um futuro em que as pessoas são detidas antes mesmo de cometerem algum crime, deixando em evidência as questões éticas e morais dessa invenção. Esse método pode parecer genial em uma primeira olhada, mas ele esconde diversos dilemas e problemas, ou “inconvenientes legais”, como o protagonista, Anderton, explica. As pessoas presas nunca cometeram crime algum e, teoricamente, não poderiam estar sob cárcere apenas baseado em uma visão do futuro que pode não se concretizar. É isso, de certa forma,  que move o protagonista na corrida para provar sua inocência quando os precogs (humanos mentalmente debilitados que enxergam o futuro) preveem que ele assassinará um homem que nem conhece. As reviravoltas desta história são grandes, e as explicações feitas por K. Dick confusas e mirabolantes, pois assim é qualquer história que trate sobre o futuro e previsões: o futuro sempre será diferente assim que você tiver conhecimento dele e alterar suas decisões. Apesar de todo esse emaranhado de acontecimentos futuros, o desfecho é bastante lógico e satisfatório.

Outro conto que também trata dessa relação entre futuro e presente é O pagamento, em que um técnico, indo receber o pagamento por dois anos de trabalho em uma construtora – tendo sua memória apagada pelos empregadores – descobre que havia trocado o dinheiro que receberia por um saquinho cheio de bugigangas. Um passe de ônibus, um canhoto de uma viagem, uma ficha de jogo, uma chave, etc. Conforme começa a se perguntar que trabalho ele fez e onde ele passou esses dois últimos anos de sua vida, ele percebe que esses objetos se tornam muito mais valiosos do que ele imaginava. Eles salvam a sua vida. Philip K. Dick faz em seus contos algo que apreciei bastante, que é brincar com as variações de uma história, confundir seus personagens ao máximo para fazer tomarem decisões extremas, fazer de qualquer pessoa um possível inimigo ou ajudante, abalando a confiança que as pessoas têm em sua própria realidade. Essa relatividade da vida e das coisas está sempre presente de alguma forma em suas narrativas – como ele próprio afirma depois nos seus breves comentários sobre os contos publicados no final do livro.

Realidades adaptadas é uma leitura de entretenimento e de qualidade. As histórias de Philip K. Dick trazem uma visão interessante do futuro e dos problemas que a humanidade terão que enfrentar – problemas criados por nós, humanos, em busca de um crescimento desenfreado. E é interessante notar que, mesmo essas histórias sendo tão absurdas e apocalípticas, a questão primordial sobre o homem, aquilo que intriga filósofos e pensadores desde os tempos mais antigos, continua sendo a preocupação central para o autor. Os contos de Philip K. Dick são uma leitura rica de dúvidas e questionamentos sobre quem somos, em que realidade vivemos e em que realidade queremos viver.