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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Pulphead, de John Jeremiah Sullivan

pulpheadEmpregar um olhar inusitado sobre um determinado fato é o que todo jornalista sonha ao redigir uma matéria ou reportagem. Em anos de profissão, e com uma concorrência grande com outros jornalistas, articulistas e escritores, o maior pecado é cair no clichê, ou parecer pouco interessante. Não é fácil ter a “sacadinha genial” que vai fazer crescer a curiosidade do leitor logo no primeiro parágrafo e impulsioná-lo a ler o resto do texto. É por causa dessas abordagens pouco usuais que acabo lendo reportagens sobre um cuidador de cobras, um presidente de um país qualquer, a vida de pessoas de uma comunidade no meio do nada ou como funciona um banheiro químico. Não basta saber apurar ou escrever, tem que saber como tornar um fato realmente interessante, por mais que ele já seja, e dar a ele uma leitura nova.

Ler Pulphead: O outro lado da América foi ter uma aulinha de como escrever de um jeito fora do comum. John Jeremiah Sullivan já é considerado um dos principais ensaístas em atividade nos Estados Unidos, sendo comparado à Tom Wolfe e David Foster Wallace, como a quarta-capa da edição da Companhia das Letras afirma. A apresentação escrita pelo crítico James Wood também só aumentou a curiosidade de lê-lo – que havia surgido através de recomendações e pela participação de Sullivan na Flip de 2013. No primeiro ensaio deste volume, pude comprovar essa característica que me fez gostar do autor.

“Sobre esse rock” trata de um dos maiores festivais de rock cristão norte-americano. Sim, rock cristão. Qualquer pessoa não religiosa que fosse escrever sobre esse tema o faria com certa rejeição à fé e à qualidade musical das bandas que participaram do festival, mas Sullivan não vai por esse caminho. Ele apresenta certa relutância com o tema no início, mas conforme vai conhecendo as pessoas que frequentam esse tipo de evento e tem contato com suas diferentes maneiras de enxergar a fé e a vida, o autor consegue realmente desfrutar de forma prazerosa dessa experiência, e é isso o que ele transmite em seu texto – a ponto de fazer uma não religiosa ir até o fim da narrativa e terminá-la nutrindo certa simpatia com as pessoas que ele apresenta. Só este ensaio já é uma prova de que nada nas abordagens de Sullivan será necessariamente condizente com o que inicialmente pensamos.

O leque de temas que ele aborda nos textos são os mais diversos: a vida de astros da música como Michael Jackson e Axl Rose; desconhecidos acadêmicos que fizeram parte da história dos EUA, como o naturalista louco Rafinesque e o escritor Andrew Lytle; e até experiências extremamente pessoais que renderam ótimos ensaios, um sobre uma viagem à Disney e outro sobre ter sua casa alugada por produtores da série adolescente One Tree Hill. A variedade de assuntos que Sullivan pode elencar é bem vasta. E isso deixa o livro com uma pluralidade interessante de opiniões e conhecimentos.

No caso dos ensaios sobre Michael Jackson e Axl Rose, Sullivan foge do que o leitor esperaria encontrar. Ultimamente (para Jackson, nos últimos anos de vida), os artistas foram mais criticados que exaltados, apesar do grande talento e de toda sua trajetória. Michael é apresentado como um garoto e homem completamente ligado à música, um talento excêntrico e raro com uma relação toda especial com a fama e a arte. O autor não faz julgamentos quanto aos escândalos em que o cantor se envolveu, apenas traça para o leitor o perfil de um dos maiores artistas pop que já existiram. Sobre Axl Rose, algo parecido é feito: relatando a experiência de ver um show do Guns N’ Roses quando Axl não apresenta mais a disposição e o fôlego da juventude, ele não procura pelas notas desafinadas ou escorregões do vocalista, mas tenta apresentar aquilo que ainda é extraordinário nele, fazendo também um resgate de sua vida antes da fama. A forma com que Sullivan trata desses dois artistas tanto atesta seu talento quanto os humanizam, deixando o leitor muito mais próximo deles como pessoas, sem parecer invasivo ou sentimental demais.

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O livro tem essa capa bacana com raspadinha – é óbvio que não deixei ela assim.

Isso vai de encontro com o subtítulo do livro, “O outro lado da América”, um lado pouco visto e apresentado, que foge do clichê ou daquilo que se instaurou como o melhor (ou o pior) dos EUA. Em “Concentrando-se no que é realmente real”, ele faz uma interpretação interessante sobre o boom de reality shows, apresentando uma teoria que tenta explicar nossa fixação por esses programas, porque somos tão atraídos a assisti-los ou até a participar deles. Acompanhando por alguns dias a rotina de Miz, um ex-integrante do reality The Real World, da MTV, Sullivan revela ser fã desse programa e de seu participante, e explica de maneira lógica nossa relação com esse tipo de entretenimento:

“Houve uma época em que as pessoas gostavam de dizer que reality shows não são realmente reais. ‘Eles estão só interpretando para as câmeras.’ ‘É tudo ensaiado.’ ‘Os produtores falam pra eles o que fazer!’ ‘Eu odeio aqueles canalhas!’ e assim por diante. Então veio uma espécie de deuxième naïvete em que as pessoas passaram a achar que talvez houvesse algo de real ali. ‘Porque, sabe, a gente pode ser narcisista daquele jeito.’ ‘É da nossa cultura.’ ‘O fenômeno abre uma janela para certo…’ e por aí vai. Mas eu diria que todas essas pessoas que eu acabei de inventar estão se esquecendo do aspecto mais interessante dos reality shows: o quanto eles foram bem-sucedidos em se apropriar da realidade.

(…)

Chegamos a um ponto em que as pessoas que estavam sendo escolhidas para reality shows eram em sua maioria pessoas que adoravam assistir àqueles programas, pessoas (especialmente da geração mais nova) cuja própria consciência havia sido formada por esses programas. Em algum lugar lá do fundo aconteceu um clique. Agora, quando você assiste a um reality show – quando você acompanha The Real World, por exemplo –, você não está assistindo a um monte de gente sendo filmada num ambiente artificial; você está assistindo a pessoas sendo flagradas estando num reality show. É esse o enredo de todo reality show, independente de seus temas requentados.”

E não é basicamente isso que enxergamos nos realitys de hoje? Big Brother, A Fazenda… esses programas retratam o que é estar dentro de um reality show, sendo observado e sabendo disso, e não como a realidade realmente opera na vida dessas pessoas. A realidade é, convenhamos, tediosa na maior parte do tempo, e ninguém assistiria a isso. Já chegamos ao ponto em que as pessoas que participam desses programas são tão versadas e entendidas do mundo dos realitys que são capazes de traçar novas estratégias para vencer, por mais idiotas que elas possam parecer para nós, que continuamos aqui fora sentados nos sofás procurando defeito nos participantes.

Sullivan vai tão longe na ideia do “outro lado da América” que esse livro mostra até um passado dos EUA que antes eu não conhecia. Em “Cavernas inominadas”, ele se aventura pelas cavernas do sul do país em busca das histórias dos povos antepassados que habitaram a região, mostrando como aquilo é preservado e desconhecido para o homem de hoje – inscrições e desenhos rupestres que ainda são incompreensíveis para os estudiosos. Acompanhado de pesquisadores, o autor se embrenha num mundo obscuro que, se não fosse pelos saques e falta de cuidado dos exploradores, seria mais preservado e conhecido. Essa outra civilização descrita por Sullivan parece bem distante daquilo que conhecemos dos EUA de agora, da imagem que fazemos do país, e o autor consegue refazer essa conexão entre o antigo e o presente:

“E nessa caverna era mesmo possível senti-los fisicamente por ali, bem na sua frente. A fumaça espessa das tochas deslizando sob o teto. Explorar cavernas nesses contextos de riqueza pré-histórica tem esse efeito. Tem algo a ver com o confinamento concentrado do espaço, sua estreiteza física – a todo momento você se percebe fazendo coisas da mesmíssima maneira que eles teriam feito. Você sabe que eles precisaram deslizar as costas pela rocha daquela forma. Precisaram pisar ali; tiveram que agachar aqui.”

“Bardos desconhecidos” também é um texto interessante. Ele resgata nomes de grandes artistas do blues dos anos 20, cujas gravações são tão raras que apenas especialistas têm acesso a elas. Nesses ensaios, o leitor percebe o grande respeito que Sullivan tem pela história do seu país – mas não se enganem pelos elogios ou reverências feitas, ao mesmo tempo em que apresenta o lado bom de todos esses temas, Sullivan guarda nas entrelinhas críticas à essa mesma sociedade.

Após tudo isso, posso dizer que o ensaio que mais gostei foi “Violência dos inocentes”, certamente o texto mais ousado e inusitado de John Jeremiah Sullivan. Convidado a escrever sobre como será o mundo no futuro, ele começa a se interessar pelo estranho comportamento de animais que não são conhecidos por serem perigosos ou, então, não praticavam nenhum ataque contra humanos. As estranhas notícias que foi recolhendo sobre ataques isolados de arraias, elefantes, macacos, golfinhos e outras espécies de animais até então dóceis o levou a contatar um pesquisador cuja teoria era de que a natureza estava, definitivamente, entrando em guerra contra o homem, e que num futuro próximo haveria um grande embate entre nós. Com ares de teoria conspiratória de uma ficção hollywoodiana, os argumentos que Sullivan apresenta e as conversas que relatou ter com esse pesquisador vão assustando ainda mais – a ponto de eu lançar olhares apreensivos para o meu gato deitado na poltrona ao lado, me encarando durante a leitura. Quando você acha que, por mais louca que essa teoria seja, ela pode sim ser real, Sullivan surpreende dizendo que a maior parte desse ensaio é invenção sua. Não há pesquisador nenhum. As únicas coisas que realmente são reais são as manchetes que ele recolheu de ataques estranhos de animais a humanos. Essa inventividade deixa, porém, uma coceirinha na cabeça, um “e se?” vibrando no fundo da consciência que te faz pensar em, daqui em diante, prestar mais atenção à sua volta.

Mesmo tratando 100% da realidade nos outros ensaios, Pulphead é lido com o prazer de uma ficção. A linguagem e o ritmo lembram novelas ou contos, mas é ele, o autor, suas experiências reais, seus relatos quase jornalísticos, que oferecem combustível para a sua escrita. E por ser real, tudo parece ser mais extraordinário.