quatro-soldadosNos idos de 1750, o Brasil era um território divido entre portugueses e espanhóis. Nas terras gaúchas, jesuítas catequizavam e auxiliavam os índios guaranis, que eram mortos aos montes pelos soldados portugueses e espanhóis durante disputas pelo território. A ciência ainda estava engatinhando, ser esclarecido era ser excêntrico, muitos livros eram proibidos e, no caso dos brasileiros, tinham que ser importados pois não era permitido imprimir uma folha sequer no Brasil (pensamento paralelo: engraçado pensar que ainda hoje reclamam do acesso aos livros – preço e oferta – quando eles pululam por aí. Se bem que, em alguns locais, realmente é complicado). Pouco sei sobre esse Brasil, não li muitas histórias sobre ele, ou elas nunca me pareceram muito interessantes a princípio. Felizmente, o novo livro de Samir Machado de Machado superou a barreira do desinteresse e me presenteou com quatro ótimas histórias ambientadas nessa terra cheia de conflitos, com muitas aventuras e exaltação da leitura e dos livros.

O título de Quatro soldados, publicado pela Não Editora, não mente: Samir apresenta ao leitor quatro soldados em narrativas que se ligam e flertam com diversos estilos literários – fantasia, aventura e uma pitada de suspense de um bom thriller. São homens diferentes daqueles que habitam as terras brasileiras ainda sob a coroa de Portugal: não são ambiciosos – não pela ambição mais recorrente: dinheiro e poder –, não são covardes e possuem uma visão de mundo mais avançada do que seu tempo. Samir cria um narrador envolvente que dialoga diretamente com o leitor, como se estivesse contando uma anedota descompromissada durante um encontro casual: senta aí que vou te contar uma história curiosa. E assim ele narra as andanças de Licurgo, Antônio Coluna, Andaluz e Silvério (este último vai contra as características “nobres” que citei acima).

O livro, que já agrada só pela parte gráfica, é separado em quatro partes, quatro histórias diferentes. Porém, não são histórias que pertencem a apenas um dos soldados de cada capítulo: os caminhos deles se cruzam, e é difícil eleger um protagonista apenas para cada parte do livro. Licurgo, um alferes, faz parte do Regimento de Dragões de Rio Pardo desde a pré-adolescência, auxiliado pelo jovem capitão Antônio Coluna. Na primeira história de Quatro Soldados, é Coluna quem envia o alferes para investigar um curioso caso que atormenta os jesuítas: uma espécie de forte espanhol abandonado, onde quem entra é encontrado morto, estraçalhado, dias depois. É a primeira missão que Licurgo lidera, e ele e mais dois soldados partem para desvendar o mistério. Porém, uma semana depois, Coluna sente a sua ausência e vai atrás dele. Nessa primeira parte, Samir já apresenta a principal característica que ligará todos esses homens: a literatura. Licurgo se revela um ávido leitor, apaixonado pelo conhecimento, mas pouco versado sobre aquilo que deve ler. A princípio, adora os romances cavalheirescos, repletos de feitos heroicos. Depois, meio que se entrega à filosofia de ler apenas os clássicos até eles se esgotarem, pois são leituras determinantes – se bem que, mesmo naquela época, os clássicos já eram suficientes para uma vida inteira. Mas essa visão volta a mudar a partir do momento em que conhece Andaluz.

Andaluz é uma espécie de mercenário, um desertor que agora vive em um bordel luxuoso na vila de Laguna, em Santa Catarina. Na segunda parte do livro, ele é convocado por um irritante rico da região a desvendar o sumiço de seus escravos dentro de uma mina. O velho avarento e inconsequente jura que a base daquele morro esconde ouro, e explora seus escravos até não poder mais, desconfiando que eles roubam seu tesouro. Até o momento em que todos desaparecem. A antipatia que Licurgo sente por Andaluz se dissipa conforme começam a falar de… literatura. Pois Andaluz é ainda mais apaixonado pelos livros do que Licurgo, e seu maior negócio é o contrabando de obras proibidas no país. Sua meta é terminar toda a coleção da Enciclopédia de Diderot.

São as conversas entre Licurgo e Andaluz durante a caminhada até a mina que mais me surpreenderam na narrativa de Samir. Ainda hoje, há quem diga que a literatura serve apenas para o conhecimento, o crescimento intelectual, a grandiosidade de espírito, enquanto desprezam a ficção de entretenimento, como se se divertir tirasse da obra seu caráter engrandecedor. Como se não fosse possível adquirir conhecimento se divertindo com uma história ágil, interessante e bem contada. E quem ensina isso a Licurgo é Andaluz, com quem discute a importância da ficção e dos romances. Samir conduz o diálogo sobre literatura sem ser pedante, sem querer impor uma sabedoria, sem estabelecer uma regra onde apenas quem lê é superior. Seus personagens usam a ficção para entender o mundo.

“– É estranho que eu esteja a vender os livros de ideias mais liberais para aqueles que menos desejam mudar algo no mundo. Acho que ninguém sobrevive sem uma dose de hipocrisia, não?”

Andaluz foi o personagem que mais me prendeu. Não que as histórias de Licurgo e Antônio Coluna fossem menores, mas Andaluz é aquele tipo de personagem cafajeste, porém justo, engraçadinho e corajoso que conquista o leitor logo nas primeiras frases. Licurgo tem um jeito mais rabugento que também me agradou, enquanto Coluna é o mais soturno e quieto dos três. Sobre o quarto soldado, bem, teria a dizer apenas que ele é desprezível, o que não é nada ruim, pois com certeza essa era a intenção do autor.

Na terceira e quarta parte é que ele dá o ar de sua graça. Coluna é quem o narrador usa como condutor da terceira história, enquanto ele protege uma família indo tomar posse de suas terras em solo gaúcho, até que começam a ser atacados por um homem misterioso – justamente o quarto soldado. O que me surpreendeu aqui foi a capacidade de Samir se livrar de personagens cativantes, não poupando o leitor de um baque pela perda de pessoas que poderiam render mais bons causos para o livro. E também como ele muda totalmente a visão sobre o quarto soldado em poucas frases, que de oponente destemido passa logo a garoto choramingão – bem como a quarta parte, concentrada em Andaluz e Silvério, mostra.

Quatro soldados é uma leitura de entretenimento de qualidade – essa frase seria detestada por algumas personagens do livro, que pensam que diversão e qualidade andam em caminhos separados. Mas é isso o que Samir prova com sua representação do Brasil do século XVIII que guarda muitos mistérios, lutas, sangue, seres fantásticos e homens desajustados que procuram sobreviver ao mundo de maneira digna – o “digno” aqui é bem relativo. Não que a literatura seja obrigada a deixar uma “lição” ao leitor, mas essa é a impressão geral que fica ao fim da narrativa de Samir: o melhor livro é aquele que te diverte ao mesmo tempo em que te faz pensar.

“– As histórias de heróis são sempre a história dos vitoriosos. E eles aumentam o tamanho dos próprios feitos para ocultar suas falhas. As histórias de amor, ao menos as trágicas e algumas poucas das cômicas, nascem da pena dos infelizes e dos malsucedidos, e eles não guardam ilusões quanto à verdade do que sentem.”