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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Quiçá, de Luisa Geisler

PV Rio de Janeiro (RJ) 09/10/2012 Capas de livroFoto: ReproduçãoEu tenho um celular da moda. Roupas da moda. Talvez pudesse ter um carro da moda, um apartamento decorado por um decorador famoso, livros de design na mesinha de centro, a televisão mais cara, com mais polegadas e mais funções extras além da tradicional função de “ver TV” que provavelmente eu deixaria ligada a tarde inteira sem mal olhar para ela. Poderia ter essas coisas se economizasse, ou se eu me importasse com elas. Mas muita gente se importa, principalmente hoje. Ter é ser. É status. E há quem dê mais valor a isso do que às coisas que realmente são importantes.

Clarissa é uma menina de 11 anos muito mais madura do que sua idade aparenta. Ela é a filha única de Lorena e Augusto, um casal de publicitários donos de uma agência que moram no bairro mais bem localizado da maior cidade do país, tem o melhor carro, os melhores gadgets, os melhores amigos ricos e a melhor TV “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (embora nunca estejam em casa para usufruir das centenas de canais da TV a cabo nesse lindo aparelho). Clarissa é bem solitária, tem poucos amigos na escola, está um pouco acima do peso e usa roupas estranhas, maiores para o seu tamanho, todas presente de uma mãe que não sabe nem qual é a numeração das calças da filha. Ela esquenta sua comida sozinha, brinca com seu gato, Zazzles, e assiste a programas na televisão “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (prefere os documentários, nunca aproveita a tal conexão à internet) até a hora de dormir, e talvez nem veja seus pais no fim do dia. Clarissa é jovem demais para ter a vida medíocre e triste que Luisa Geisler narra em Quiçá, seu primeiro romance.

Até que um primo seu, Arthur, de 18 anos, se muda para sua casa após uma tentativa de suicídio. O jovem deixa a pequena Distante, cidadezinha do interior onde vivia com a mãe, para se recuperar e terminar os estudos em São Patrício, a quinta maior cidade do mundo, aquela em que tudo acontece e todos são aquilo que possuem. No início, Clarissa se mostra meio arisca com o primo. Ele fede a cigarro, tem tatuagens, fala de um jeito estranho. Ele é estranho. Ela sempre recusa os convites dele para sair e encontrar seus amigos. Arthur tenta convencê-la: pare de estudar, se dê um descanso, você precisa conhecer pessoas, você não tem amigos. A mensagem entra na cabeça de Clarissa até que ela topa, e Arthur se torna a pessoa mais importante para a sua vida – mais até que os seus pais.

Em Quiçá, Luisa Geisler mescla três narrativas diferentes para abordar a amizade entre os primos e o descaso dos pais de Clarissa com a sua criação. Uma delas é o relato de um almoço de Natal na casa dos avós em Distante, com toda a família reunida, que abre e encerra cada capítulo sobre Clarissa e Arthur. A segunda é a história dos dois primos, que detalha a maneira com que eles se aproximam e como o jovem vai apresentando a vida e as pessoas para Clarissa. A terceira, por fim, é uma série de histórias pingadas, não necessariamente ligadas entre si ou com a história principal, que mostram alguns aspectos da vida que podem ser meio complicados de encarar – crescer, ser aceito, lidar com uma gravidez, com o trabalho, com a morte etc. Com tudo isso, o romance de Luisa tem a força necessária para encantar o leitor com suas personagens complexas e perdidas no mundo em que vivem.

“A ONU estima que 4,4 pessoas nasçam por segundo no planeta, e 1,8 pessoa morra por segundo no planeta.

Tique, 4,4

Taque, 1,8

E agora você é mais velho do que jamais foi.

Tique

Taque

E agora você.”

Luisa usa um artifício nos capítulos sobre Clarissa e Arthur que me agradou bastante: ligar através de ações ou frases os tempos e espaços diferentes que aborda. Como uma palavra ou atitude que te faz lembrar algo, ela mescla o passado, os dias de Arthur na casa de Clarissa, com o presente, o almoço de Natal, indo e voltando na história sem prejudicar a fluidez da narrativa. Entre esses tempos, então, o leitor vai percorrendo a história da menina, conhecendo como ela foi se afeiçoando ao primo, confiando nele, procurando ser mais parecida com ele. E como ela desconfia, se irrita e briga com Arthur quando sente que sua rotina está sendo alterada demais, influenciando além do esperado o seu desempenho na escola. Antes de Arthur, tudo o que existia era a escola, as notas altas que conquista procurando chamar a atenção dos pais, que continuam alheios à filha.

É esse alheamento o que mais me chamou a atenção durante a leitura, mais do que a amizade construída entre Arthur e Clarissa – por mais que eu tenha apreciado essa relação e ficado apreensiva quando a menina era deixada de lado também pelo primo, ou se sentia brava com ele. Sempre quando cita a televisão da casa da família, Luisa repete os seus atributos (Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas), assim como faz quando apresenta algum produto novo que a família adquire – como o apartamento decorado pelo arquiteto famoso, o carro do ano, as roupas de marca. Ela deixa bem claro que tipo de pessoas são Lorena e Augusto, por que eles trabalham tanto e o que lhes interessa com esse trabalho: o status, a sensação de pertencer a uma classe privilegiada, de estarem rodeados por pessoas ricas e brilhantes e de poderem ter aquilo que querem. Clarissa, para eles, tem a mesma importância que Zazzles, parece um animalzinho de estimação que eles alimentam com comida congelada e que vive em um quarto cheio de brinquedinhos e coisas modernas para ela se distrair sozinha. Evidenciar essa superficialidade no tratamento que os pais dão à única filha é uma tarefa dolorosa e difícil que Luisa faz muito bem. Conhecendo a condição sentimental e psicológica em que a menina vive, Arthur nunca é visto como um garoto irresponsável que vai corromper a criança inteligente levando-a para o mau caminho, por mais que todas as atitudes dele indiquem isso. Ele é quem vai ensinar de verdade a ela como se deve viver, que há algo além do sucesso nos estudos ou no trabalho.

“Quiçá fosse a falta do que fazer daquela noite, o tédio, a solidão que não incomodava nunca, estava cercada de idiotas, quiçá a saudade, quiçá a verdade, mas Clarissa sentou-se ao lado de Arthur.”

Além de conter personagens bem construídos e de explorar esses dramas internos, Quiçá ainda lida com tramas familiares que se escondem nas entrelinhas do romance, coisas não ditas ou ignoradas propositalmente – como algumas famílias gostam de fazer com temas que são tabus, ignorar até se convencerem de que os problemas não existem. Há segredos na vida dessa família de Distante, e o que mais aumenta o impacto desses segredos no leitor é a maneira com que eles aparecem: escondidos em um parágrafo, em algum comentário, em algum olhar trocado entre as personagens que te leva a preencher os espaços vazios da história com as pistas dadas por Luisa.

Estava curiosa para ler alguma coisa da Luisa Geisler, e não sei por que demorei tanto para fazer isso. Quiçá é inteligente na medida certa, nem pretensioso e nem raso, e sua autora foi cuidadosa na construção das personagens – tão reflexivas e ativas, preocupadas em sobreviver ao cotidiano familiar. O mesmo cuidado foi empregado na estrutura do romance, que dá conta de mostrar toda essa relação complexa que existe entre primos tão diferentes em idade e em comportamento. Em tempos em que ter ou parecer é mais importante do que realmente ser, Quiçá é uma leitura mais do que relevante.