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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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16 livros bons, pois não consegui escolher só 10, muito menos 5

Só porque as listas de bons livros lidos nos anos anteriores sumiram do blog – aquele problema lá que me obrigou a passar horas subindo todas as resenhas novamente -, e porque estou com vontade de fazer uma lista, aqui vai o meu top 16 de melhores leituras do ano. Queria que fosse um top 5, ou no máximo um top 10, mas revendo a lista de livros lidos de 2013 vi que seria impossível fazer uma seleção mais enxuta.

Foi um ano de bons livros, apesar de ter lido menos que o esperado por ter que me dedicar mais ao final do curso de jornalismo e usar boa parte do meu tempo de leitura para isso – aos curiosos, podem me considerar formada. Talvez se eu ainda estivesse no meu ritmo antigo de leitura essa lista fosse maior. Talvez. Mas estou satisfeita com o que li, e principalmente com o que conheci durante esse ano.

E mais satisfeita ainda por ver tantas escritoras mulheres presentes nessa lista. Não sei se foi meu feminismo que cresceu e me fez escolher mais mulheres para ler, ou simplesmente fizeram o certo e deram mais espaço para a mulher publicar em 2013, mas as minhas melhores leituras vieram delas. Antes não pensava tanto nessa questão de gênero, feminino ou masculino, na hora de escolher um livro, mas cada vez mais percebo o quanto é importante que nós estejamos escrevendo e nos lendo, que nossas obras estejam conquistando mais espaço e contribuindo mais para um diálogo igualitário entre homem e mulher. E nós escrevemos bem. Muito bem.

Enfim, aí está a lista que separei em duas partes: os lançados em 2013 aqui no Brasil e os outros (que não são lançamentos ou são novas edições) que também li durante esse ano. A ordem é totalmente aleatória, assim como os comentários.

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Faltou Miranda July, pois está emprestada.

Os Lançamentos

O bom de escrever para o Amálgama é que eu acabo topando qualquer livro que o Daniel Lopes me sugira. Ele é bom em distribuir as leituras para os resenhistas do site. Rostos na multidão veio dessa safra de e-mails cujo título é “livro” e o conteúdo se resume basicamente ao link do livro no site da editora seguido de “quer pegar?”. E eu sempre pego. Valeria Luiselli me chamou a atenção por ser uma nova autora mexicana elogiada na quarta-capa pelo Enrique Vila-Matas – mas acho que escolhi mais por ser uma jovem mexicana do que pelo blurb, leio poucos mexicanos e queria dar um jeito nisso. O que mais gostei na narrativa de Valeria é como ela costura os tempos dentro do romance, misturando o passado e o presente de sua escritora-protagonista em processo criativo enquanto lida com a tarefa de ser mãe. E o livro é cheio de trechos singelos e bonitos – até eu, que não sou lá uma pessoa com muito apreço por crianças acabei me encantando com o seu “filho médio” e o jeito dele ver o mundo. Bom livro.

Esse foi o ano em que eu me interessei profundamente pela mente humana. Li vários artigos e reportagens relacionados ao cérebro e seu funcionamento, tive boas conversas sobre as coisas curiosas que nossa mente faz, fiz uma reportagem que me deu um certo orgulho sobre como a nossa memória funciona para uma atividade de aula, e comprei livros do Oliver Sacks. Eu havia lido um capítulo de A mente assombrada publicado na edição 74 da piauí, Estados alterados, em que Sacks relata as suas experiências com alucinógenos. Achei simplesmente demais. Quando o livro finalmente saiu, tratei logo de ler. E como me espantei com o que o cérebro é capaz de fazer. Li A mente assombrada com maravilhamento e apreensão, pensando que alguma criaturinha minúscula fosse aparecer na próxima virada de página, indicando que “ok, Taize, hora de parar, você está lendo demais, está alucinando também”. Ainda espero escrever sobre esse assunto, como a memória e a mente é representada na literatura, mas isso vai ficar para depois que conseguir ler O olhar da mente, que está há um bom tempo na fila.

Um livro sobre o Alto Vale do Itajaí é de leitura obrigatória. Minha visita ao showroom da Cosac Naify durante minhas férias foi motivada principalmente por conta desse lançamento. Sendo eu daquela região, e sentindo que pouquíssimas pessoas a conhecem e também que nunca vi ela ser representada na literatura, era preciso ler. E que leitura. Provavelmente por empregar um olhar estrangeiro ao lugar é que Sándor Lénárd conseguiu descrever tão bem os comportamentos e os costumes dos colonos imigrantes que povoaram Donna Emma e arredores. Sou de Witmarsum, cidade que faz divisa com aquela que o médico húngaro adotou como morada definitiva, e reconheci muitos traços da minha família na sua narrativa, por mais que ela fale de um tempo diferente, anterior àquele em que meus avós formaram suas famílias por lá. E o livro é lindo. Conseguir me enxergar dessa forma em uma obra literária era uma experiência que eu esperei para ter sem nem ter consciência disso.

Vão aparecer nessa lista vários livros da categoria “Motivação: Flip”. Já que você vai gastar dinheiro e esforços para se embrenhar até Paraty para um festival literário, você tem que no mínimo ler aqueles que vão estar lá. Lydia Davis eu consegui ler antes do evento, e era uma das autoras que eu mais queria ver e ouvir. Acontece que o Freela Surpresa não tem hora para aparecer, e como trabalhei a maior parte do tempo, perdi a mesa com ela. Mas pelo menos tenho um autógrafo, rá! Enfim, o que importa mesmo é a experiência de leitura e a satisfação de conhecer mais uma boa escritora. Tipos de perturbação é daqueles livros que passam rápido, mas deixam marca. A inventividade dos microcontos te deixa abobalhado, pensando em como ela transformou frases tão simples em algo tão significante. Já os contos mais longos são bons pela força da narrativa e pela estrutura diferente que ela encontra para cada história. Se você deixou essa dica de leitura escapar durante o ano, faço um favor a si mesmo e conheça esta senhora amante de gatos.

Ai, Miranda. Por que tão boa? Não conheci Miranda July pelos filmes, O futuro ou Eu, você e todos nós. Conheci, na verdade, por uma cena deletada de O futuro publicada no YouTube que falava sobre procrastinação. Foi amor. E aí comprei uma revista serrote e li um trecho do que viria a ser O escolhido foi você. Foi mais amor. E o livro completo não decepcionou: amei conhecer seus estranhos vendedores do PennySaver e ver como eles enxergam a vida. E mais legal ainda ver as confissões da própria Miranda dentro do livro, sua ansiedade pelo roteiro inacabado e todas as reflexões sobre o seu futuro. Foi pura paixão.

Não quero fazer jornalismo punheteiro aqui, mas Lila Azam Zanganeh foi sim a musa da Flip 2013. Musa não no sentido de “gostosa”, mas no de GENTE QUE MULHER É ESSA: ela escreve muito bem, ela é extremamente simpática, ela sabe conquistar uma plateia, ela tem uma inteligência invejável. Não tinha prestado atenção nesse nome quando divulgaram os convidados da Flip, e só fui ver quem Lila realmente era e do que seu livro tratava quando assisti, já em Paraty, sua entrevista no Programa do Jô. Tratei de comprar logo o livro, infelizmente perdi a mesa (de novo, o Freela Surpresa), mas também consegui um autógrafo e trocar algumas palavras em português com ela. Li O encantador no avião, voltando pra casa, e o livro inteiro é uma carta apaixonada não só a Nabokov, mas à toda literatura e ao ato de ler.

Livro com raspadinha! Eu precisava ter o livro com raspadinha! Outra motivação flipeana, acompanhada de indicações de amigos e de “é tipo David Foster Wallace”. John Jeremiah Sullivan foi uma leitura pós-evento, depois de ter visto a mesa (e entendido pouco dela, pois, né, não conhecia o autor). Ele é, sim, meio tipo DFW, mas mais pela decisão de tratar de assuntos aleatórios sob olhares diferentes e inusitados que pelo texto em si – e é mais “alegre” que Foster Wallace, convenhamos. Seus ensaios, tão diversos em tema e abordagem, são uma motivação para escrever, para ver como um texto pode ser tão divertido até quando fala de política ou de música gospel. E sério, você precisa ler “Violência dos inocentes”, sobre uma possível futura guerra entre humanos e animais. É genial.

Engraçado como várias leituras foram motivadas por trechos lidos anteriormente em revistas. Acabo de notar que, quando começo uma leitura, tenho que ir até o final mesmo, e esse negócio de “leia o primeiro capítulo, leia um trecho” realmente funciona. O mesmo aconteceu com o livro a seguir, cujo primeiro capítulo foi também publicado na GrantaNão vou entrar em detalhes sobre a história ou sobre a boa narrativa da Carol. Só quero dizer que foi lindo ler um romance protagonizado por duas mulheres que não gira em torno da figura de um homem. O girl power ficou feliz e justiçado.

Ainda quero abraçar Otto quando lembro dele. Olho com mais atenção para as bulas de remédio. Tempero minha alface com bastante azeite, vinagre e molho de pimenta para que ela não chegue nem perto do chá de alface que Ada obrigava Otto a tomar. Acabou de me dar vontade de ler o livro novamente. Quero abraçar o Otto.

Boa literatura. Boníssima literatura de fantasia e aventura. Estamos todos aqui defendendo a literatura de entretenimento, porque a melhor parte de ler, de se encantar por uma história e querer ler mais ainda, é quando você lê e fica tão entretido e preso ao livro que não vê o tempo passar. Samir defende isso e faz isso muito bem. Que belo personagem, o Andaluz, e que boas aventuras ele vive.

O coração é de pedra, mas ele é mole mole. Lawanda é mole mole. Lawanda é apaixonada, é desimpedida, é forte, é louca, é uma protagonista tão diferente e ousada que gostar dela não é difícil. Não sei mais o que dizer, só vou deixar isso aqui:

“Às vezes tenho a sensação de hibernar. Gosto de idealizar o mundo com hibernação. As pessoas dormiriam durante meses e isso não seria um coma. Seria natural. Um dia antes do casamento, a noiva hiberna. Fazer o quê? Desmarcar. Para as lágrimas do noivo, sempre prostrado junto à cama, esperando por sua bela prometida vagina adormecida. A moça acordaria com os olhos grudados de remela, se movimentaria como uma aleijada e diria: “Este marido não serve. Traga outro”. Seria comum mudar de ideia durante o sono. E ninguém discutiria.”

 

Os Outros

Esse foi o primeiro livro lido de 2013, apreciado no calor de Indaial, na maior parte do tempo deitada na rede na varanda da casa dos meus pais. Jovens inteligentes demais para a juventude, como os aprecio. Jovens com uma consciência sobre a vida grande demais para que consigam fazer alguma coisa com ela. A única tristeza é saber que esse é o livro “fora do padrão” de Murakami, que se destoa de todos os outros. Gostaria de ler mais coisas assim. Voltei a comer miojo depois desse livro.

The bell jar veio como um presente. Um lindo presente com uma dedicatória mais linda ainda (Juju, obrigada <3). Há muito tempo queria ler Sylvia Plath, e como esse é seu único romance, resolvi começar por aí – quiçá ano que vem vou definitivamente para a poesia. E aí entendi todo o frisson com ela, e fui mais uma leitora fortemente impactada pela identificação com Esther. O livro geralmente é lido e interpretado como se fosse uma autobiografia da autora, e é difícil separar a figura da autora de sua obra, mas além de enxergar Sylvia em Esther, enxerguei a mim mesma – e mais um monte de amigas e conhecidas que sei que também se sentem assim, como ela. Leitura perigosa, leitura divina.

É de conhecimento geral que uma das minhas obsessões literárias desse ano foi o suicídio, e depois de escolher Norwegian Wood , The bell jar, e agora As virgens suicidas, isso ficou bem claro. O livro de Jeffrey Eugenides não podia faltar nessa lista de leituras suicidas, e  ele foi um dos principais dessa lista. Ele é bom por dois motivos: a narração apaixonada dos garotos da rua onde as Lisbon moravam, presos ao encantamento da presença das meninas mesmo anos depois de seus suicídios; e a forma como Eugenides vai deteriorando essa família, o desespero das meninas e suas tentativas de escapar das regras opressivas da mãe. Apenas não é fácil ser uma garota de 13, 14, ou 15 anos nesse mundo.

Para fechar os livros suicidas, essas e mais outras leituras foram fonte para esse texto sobre literatura e suicídio lá no Posfácio.

A lista desse ano está bem mais contemporânea, eu sei, e não dei tanta atenção aos clássicos em 2013. Mas este aqui foi acima da média. Primeiro, eu já escolheria ele por toda a experiência da leitura: o projeto gráfico diferenciado e bem elaborado, com os livros embrulhados numa réplica de um jornal de São Petersburgo da época, as páginas divididas ao meio, em azul e vermelho, que te faz ir e voltar no volume para ler a história e percorrer com  os olhos toda a extensão da Avenida Nivéski. Mas o projeto gráfico está aí só para ser fiel à qualidade do texto de Gógol, e esse é um motivo mais do que bem justificado para ele estar aqui.

E termino com Quiçá. Só vou copiar o último parágrafo da resenha que fiz para explicar: “Estava curiosa para ler alguma coisa da Luisa Geisler, e não sei por que demorei tanto para fazer isso. Quiçá é inteligente na medida certa, nem pretensioso e nem raso, e sua autora foi cuidadosa na construção das personagens – tão reflexivas e ativas, preocupadas em sobreviver ao cotidiano familiar. O mesmo cuidado foi empregado na estrutura do romance, que dá conta de mostrar toda essa relação complexa que existe entre primos tão diferentes em idade e em comportamento. Em tempos em que ter ou parecer é mais importante do que realmente ser, Quiçá é uma leitura mais do que relevante.”

 

That’s all, folks!

Fica aqui a lista de boas leituras do ano. Comentem, critiquem, deixem suas listas aqui também para, quiçá, eu adicionar mais livros na minha já assustadora pilha de leitura. Pois é isso o que me aguarda no ano que vem:

2013-12-05 11.22.43 1

Resultado de promoções da Companhia das Letras, showroom da Cosac Naify, Feira do Livro, editoras queridas e tudo o mais. Me aguardem.