r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

A festa é minha e eu choro se eu quiser, de Maria Clara Drummond

a-festa-e-minha-e-eu-choro-se-eu-quiserFelicidade é ter status, conhecer pessoas, ser convidado para festas. É ter um emprego badalado, que paga bem e te faz conhecer mais pessoas e ir para mais festas. Essas afirmações podem ser verdadeiras para muitos jovens de hoje. Mas para Davi, protagonista e narrador de A festa é minha e eu choro se eu quiser, romance de estreia de Maria Clara Drummond, não há felicidade nisso – nunca houve. Nem todos os amigos do mundo são capazes de fazer você esquecer que está insatisfeito, sem saber com o quê ou por quê. A vida é mais complicada que uma noite de festas e um círculo social da modinha, e felizmente (ou infelizmente), não são todos que possuem uma autoconsciência capaz de lhes dizer que aparentar felicidade não é o mesmo que ser feliz.

Davi é um cineasta do Rio de Janeiro que aceita um emprego para dirigir vídeos publicitários em São Paulo. É um jovem bonito, com um bom salário, que frequenta festas todas as noites e também viaja para Berlim. Mas é a sua autoconsciência a responsável pela narrativa. Ela aponta o que parece falso nas relações que mantêm e nas que observa durante as noitadas com seus supostos amigos. Ela o lembra de seu passado pouco popular, de quando era um menino gordinho que tomava antidepressivos e dormia no palco durante uma apresentação da feira de ciências. Ela repete o tempo todo que ele está perto do fracasso, que seu sucesso não é real e logo ele será desmascarado. Ela o trava, o desanima e o arrasta para um buraco interno do qual ele luta para sair.

“Na verdade, o objetivo disso tudo é: beber durante a noite para tentar esquecer a angústia ou ao menos deixá-la em segundo plano. No dia seguinte, dormir muito e só acordar no meio da tarde. Aí só falta metade do dia em consciência, e logo posso voltar a dormir ou beber. Mas não importa. De tudo o que eu faço o objetivo principal sempre é escapar.”

A interação de Davi com o mundo parece normal, até que sua cabeça dê um giro e passe a apontar tudo o que há de errado à sua volta. Os amigos estão longe de serem reais, em poucos minutos de conversa o cansam e irritam. A vida plastificada, editada no Instagram e no Facebook não admite falhas, medos e dores. Para o círculo social frequentado por Davi, o meio artístico e cultural do Rio e São Paulo, essas coisas não existem – embora, estranhamente, a arte sobreviva das tragédias. A mente de Davi passeia toda hora por aquilo que ele é, um homem inseguro com o seu próprio talento e cansado da vida social, com aquilo que ele aparenta ser: um cara divertido, misterioso, um profissional invejável com uma carreira promissora pela frente.

Essas características fazem parte da geração a qual Davi pertence, aquela nascida nos anos 1980, impaciente e que quer tudo agora. É uma geração que não aceita falhas, pois, como o próprio protagonista fala, é mimada e busca a felicidade imediata e constante. Mas quanto mais ele procura essa felicidade, mais ela se afasta, ou mais curta ela é. Não é possível ser feliz o tempo todo – e aí está um dos motivos de Davi desconfiar das pessoas com que convive, pois todos parecem fingir que são. Mas para essa geração, se não é possível ser feliz, então a vida não vale a pena, ela deve ser mascarada para parecer valer. Maria Clara Drummond monta bem o raciocínio do seu personagem evidenciando como esse mundo sobrevive da superficialidade.

“Quanto mais você se aproxima de ser um adulto bem-sucedido mais você se afasta da felicidade. E aí, cara, chega num ponto que não tem mais jeito, babou. Você não vai abrir mão das suas regalias. São as festas, são as meninas, os amigos badalados que te querem sempre por perto, é ouvir toda hora você é o máximo! de pessoas que também são consideradas o máximo e ser exaltado primeiro no microcosmo da Incógnito e, logo depois, no Rio de Janeiro todo, e ouvir que pessoas de São Paulo já sabem quem você é e querem estar sempre por perto, é receber uma proposta de trabalho em São Paulo por um salário muito melhor, em um cargo muito melhor e com muito mais oportunidades de ganhar mais e mais dinheiro e conhecer mais e mais gente e assim você vai crescendo seu status e sua suposta felicidade, que na verdade já deixou de ser felicidade há muito tempo, lá na sua primeira conquista, e agora é só um turbilhão de acontecimentos instagramados que vão se multiplicando, porque você sabe que se parar por um minuto você não volta do seu buraco interno jamais.”

O problema de Davi é pensar demais, e assim ele começa a ver além das pessoas e do que elas postam no Facebook. Assim como ele, você começa a questionar as coisas e a procurar autenticidade em tudo. E não encontra. Por que ser sociável é bom? Por que você tem que estar perto de alguém e ser querido pelas pessoas sempre? O que as pessoas têm a ver com a sua vida ou como contribuem de verdade com ela? Quando se pergunta isso, você percebe que aquilo que há um minuto tinha valor pode não ser tão valioso assim. E se você não encontrar uma resposta para essas perguntas, ou se a resposta que encontra não é satisfatória ou parece ser ridícula demais, essas coisas perdem importância.  Mas se para todos os outros essas questões nem passam pela cabeça, o problema só pode estar em você. É assim que Davi pensa, embora as rodas de conversa sobre antidepressivos aponte que não é ele o único a passar por tais sessões particulares de tortura mental. Contudo, até essas conversas soam como uma autoficção mal feita, pois não compartilham reais sentimentos, medos ou falhas. Não existem conflitos na vida editada e, no raciocínio do protagonista, isso torna todo mundo igual e insosso.

A solução que Maria Clara Drummond encontra para o drama de Davi é fácil e esperada, mas isso não diminui o efeito contestador do livro. Ao escolher se ausentar de sua vida social, abandonar o emprego em São Paulo e voltar a morar com os pais, Davi reencontra sua natureza, por mais que isso soe como um fracasso. E realmente é um fracasso, mas necessário para a sua sanidade, que ele aceita e que vê como um acontecimento genuíno em sua vida. Ao se livrar de todas as ambições, Davi volta para o início do tabuleiro e joga sem pretender o sucesso, gastando suas energias em coisas mais simples e sem pressão por adulação ou aprovação alheia.

Para um romance de estreia, A festa é minha e eu choro se eu quiser é uma leitura rápida que levanta bons questionamentos sobre a superficialidade das nossas relações e sobre essa busca irracional por uma felicidade constante.