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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Nocilla dream, de Agustín Fernández Mallo

nocila-dreamHá um certo perigo na literatura experimental, que é o leitor não entender direito qual é a intenção do autor. Por que a estrutura desse livro é assim? O que esse capítulo tem a ver com o anterior – e com o próximo? Por que tantas personagens e histórias paralelas? Eu só queria ler uma boa história, mas já estou na página 100 e ainda não entendi qual é a desse livro… Quando me perguntavam o que eu estava achando de Nocilla dream, primeiro livro da trilogia de Agustín Fernández Mallo, era essa a minha resposta: “não entendi qual é a vibe do livro ainda”.

Mas você não precisa saber resumir o enredo de um livro em 140 caracteres para que ele seja bom. É só deixar se levar capítulo a capítulo até a última página para reconhecer o potencial da narrativa e tentar elaborar algumas interpretações e explicações. Pois é melhor, então, falar daquilo que me pareceu mais importante na obra de Mallo: o álamo no meio do deserto de Nevada. Nesse deserto, todos os álamos pereceram, mas restou apenas um, perdido no nada, e carregado de pares de sapatos presos em seus galhos pelos cadarços. Botas, tênis, sandálias, são centenas de pares que, apesar de ocuparem todos os cantos da árvore, não a danificam. Ela segue viva.

Esse álamo será visto ou comentado por diversas personagens de Nocilla dream: a prostituta de um bordel, o piloto do único teco-teco de Carson City, o designer de tampas de bueiro nos aeroportos da Europa, os moradores das centenas de micronações espalhadas pelo mundo… Os capítulos curtos do livro não estão estritamente ligados um ao outro, e às vezes uma situação narrada lá no início reaparecerá apenas quase no final, mas de uma hora para outra o álamo de sapatos reaparece, e Mallo meio que resolve o mistério sobre a sua existência inventando uma bela explicação – embora esse não seja o objetivo do livro.

Então qual é o objetivo? Talvez seja criticar uma sociedade capitalista que absorveu até um famoso líder revolucionário que não morreu, mas está praticando o mais selvagem turismo consumista no Vietnã. Talvez seja retratar a solidão, não como algo ruim, mas como um sentimento necessário e apreciado, sentido plenamente em um quarto de hotel na China. Talvez seja reinventar o mundo tedioso e parado criando um novo esporte radical, o Extreme Ironing. Ou talvez enxergar o mundo como ele realmente é: limitado, confuso, contraditório, errado, a imagem e semelhança do homem que também é limitado, confuso, contraditório e que resolve um problema com outro problema. Ou é tudo isso junto, sem objetivo específico, sem a pretensão de dizer realmente algo sobre alguma coisa.

Assim, entre citações inteiras de autores consagrados que compõem vários de seus microcapítulos, entre aeroportos, mega-cidades, pequenos municípios, esportes e profissões estranhas, Agustín Fernández Mallo cria um romance capaz de englobar o universo inteiro, tanto em espaço quanto em reflexões. Diferente da impressão inicial de que este seria um romance espanhol, Nocilla dream é um romance global, que percorre o mundo todo em suas estranhezas. A comparação que a orelha do livro faz entre ler este romance e zapear os canais da televisão ou abrir várias abas ao mesmo tempo no navegador é fiel, pois é assim que o livro funciona: você vai lendo trechos, pegando fragmentos de histórias, mudando novamente e voltando a eles, recebendo um jorro de informação que pode te confundir em algum momento, se fundindo a narrativas que não pertencem.

Se Nocilla dream é tão difuso, inclassificável em um gênero literário único e impossível de descrever com exatidão, por que lê-lo? Bem, certamente você vai encontrar em uma das centenas de capítulos alguma cena que te prenderá, que te fará parar por vinte minutos para pensar nas sensações que essa passagem específica despertou, independente de você recordar dos outros dez trechos ou não. A verdade é que, se você chega até o final do livro, ele valeu a pena. E que se Agustín Fernández Mallo conseguiu te levar até lá, é porque sua obra possui aquele elemento crucial para uma boa história: fazer você não conseguir parar de ler.