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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Mudança, de Mo Yan

mudanca-mo-yanMudança era para ser um livro sobre as mudanças pelas quais a China passou nos últimos 30 anos. No povoado rural em que nasceu, Mo Yan viveu os últimos dias da era maoista, vivenciou a Revolução Cultural e se tornou escritor enquanto a China caminhava para um grande crescimento econômico. Mas o livro, uma encomenda feita por Tariq Ali para a coleção What Was Comunism, acabou tomando outra forma do que um relato preciso sobre as transformações da China comunista. Na verdade, é uma “autobiografia ficcionalizada” em que Mo Yan mostra a mudança por um viés mais humano, focado nas pessoas de seu povoado e em um velho caminhão soviético.

Um caminhão soviético porque, desde quando ainda estava na escola, a vida de Mo Yan esteve ligada ao Gaz 51 dirigido pelo pai de uma de suas colegas, Lu Wenli. Na comunidade rural em que cresceu, dirigir um caminhão conferia um status superior ao seu motorista e sua família, pois poder sentar atrás de um volante e ser responsável por ele era um sinal de importância que deveria ser respeitado. Havia satisfação em ver o Gaz 51 percorrendo as ruazinhas, levantando poeira sem se importar com o que vinha pela frente – o que causava a morte de muitas galinhas por atropelamento. Todas as crianças sonhavam em sentar no banco do caminhão com o pai de Lu Wenli para sentir sua velocidade.

Em Mudança, Mo Yan não centra a narrativa apenas nele mesmo. Há pelo menos mais duas personagens importantes além dele e do Gaz 51, que são Lu Wenli e He Zhiwu. Este último faz parte de momentos importantes da narrativa, pois é dele a maior vontade de um dia poder dirigir o Gaz 51 do pai de Lu Wenli, e era ele quem mantinha na escola de Mo Yan certa imagem de encrenqueiro, alguém que não tinha exatamente objetivo na vida, mas que faria de tudo para sobreviver à ela. Do relato de seus dias e diatribes na escola, logo Mo Yan passa a falar dos caminhos que ele e seus colegas tomaram, trabalhando em fábricas e, no caso do autor, se alistando no Exército Popular da Libertação como uma forma de sair do lugar onde sempre viveu e alcançar distâncias maiores.

Foi no período em que esteve no exército, ali por meados dos anos 1970, que Mo Yan começou a escrever ficção, mantendo entre os soldados a fama de saber lidar com as palavras, apesar de nunca ter terminado seus estudos na escola básica – havia sido expulso, mas continuou frequentando as aulas como uma sombra, ignorado pelos professores. É no exército, também, que Mo Yan reencontra o velho caminhão soviético. Não o mesmo que o do pai de Lu Wenli, mas um irmão gêmeo, um Gaz 51 da mesma idade, o que o fazia imaginar como seria um encontro grandioso das duas máquinas – o que quase acontece quando ele é incumbido de acompanhar o motorista deste caminhão até Pequim, sua primeira grande viagem.

“Quem diria que um rapaz pobre de Gaomi pisaria o solo da capital nacional no dia de 18 de janeiro de 1978 e veria todos aqueles carros brancos e pretos, e jipes verdes, todos aqueles prédios altos e edifícios enormes, todos aqueles estrangeiros narigudos de olhos azuis. A Pequim daquela época não era nem um décimo do que é hoje, mas para mim já parecia monstruosa e assustadora.”

Enquanto narra sua história, como começou a escrever e publicar e a ficar conhecido nacionalmente e internacionalmente – há partes em que cita as gravações de Sorgo vermelho, adaptação de seu romance homônimo –, Mo Yan volta ao destino de seus antigos colegas, redescobre suas personagens em situações diferentes daquelas em que as havia conhecido. Lu Wenli não é mais uma menina admirada por ser filha de um motorista de caminhão, é só mais uma jovem que passa os dias trabalhando em uma fábrica comum. E He Zhiwu não é mais uma promessa de delinquência que jogaria sua vida fora. Ele retorna rico, tendo feito fortuna criando e vendendo gado, entre outros trabalhinhos que lhe rendiam dinheiro por serem, de certa forma, ilegais. É aqui que o leitor nota a presença da mudança do título do livro: a vida deles se transformou, filhos de camponeses viraram homens cheios de bens materiais, aproveitando a abertura da acumulação capitalista; ou então viraram pessoas influentes, como o próprio Mo Yan ao fim do livro, procurado por uma velha Lu Wenli em busca de uma chance para a neta em um concurso cultural. Pelas transformações políticas e comerciais da China, esses dois jovens camponeses conseguiram mudar seu destino, enquanto os dias de prestígio da família de Lu Wenli não existiam mais.

Mo Yan mostra tudo isso através de uma narrativa simples, marcada pela repetição – os nomes das personagens são ditos constantemente, por exemplo, assim como o escritor reconta casos que há pouco havia narrado. É uma leitura que, apesar de leve, não deixa de abrigar nas entrelinhas as principais transformações pelas quais a China passou, não só por um viés econômico e político, mas também cultural como, por exemplo, quando Mo Yan explica a mentalidade dos jovens que queriam ir à combate na ofensiva vietnamita para poderem morrer como heróis, tornando-se motivo de honra para suas famílias.

A China ainda é vista sob um clima de exotismo, um país de costumes e cultura estranhos aos ocidentais. A leitura de Mudança não vai, claro, esclarecer tudo sobre a história do país, mas dará uma ideia de como as transformações sociais e políticas atuaram em seus habitantes, para melhor ou para pior.