reconhecimento-de-padroesDe todas as alergias que existem no mundo, certamente a mais estranha que tive conhecimento até agora foi a aversão à marcas registradas. Quando li a sinopse de Reconhecimento de padrões, de William Gibson, imaginei algo ideológico. Pensei que Cayce Pollard, sua protagonista, tivesse algum tipo de pensamento contra o marketing em geral, a cultura das marcas e sua exposição excessiva. Mas não: a aversão que ela tem é realmente física. Iniciada quando criança, ao ver aquele bonequinho dos pneus Michelin, e daí para frente se repetindo com qualquer marca famosa reconhecível em todo o mundo: ânsia de vômito causado por bolsas Louis Vuitton, dores de cabeça espontâneas ao ver uma placa do McDonald’s. Coisas desse tipo.

Cayce sofre com essa aversão por ter uma sensibilidade aguçada para logotipos. Por ter esse dom – ou fardo, dependendo do ponto de vista – ela é capaz de dizer rapidamente se uma nova marca ou tendência fará sucesso no mercado ou não. Usando a sensibilidade a seu favor, ela atua como uma espécie de consultora, contratada por grandes agências do mundo todo para avaliar suas ideias e campanhas e indicar o que será ou não desejado nos próximos meses – uma coolhunter. Contudo, o último trabalho para o qual foi contratada se mostrou um desafio maior do que ela poderia imaginar. Por trás da avaliação de um novo logotipo para uma marca de tênis esportivos havia uma disputa de cargos na qual ela não queria se envolver, o autor misterioso de um filme cultuado pela cena artística alternativa e um novo pedido de cooperação com o dono da agência Blue Ant, que ela considera ser a pessoa mais repugnante do planeta.

Reconhecimento de padrões, primeiro livro da trilogia Blue Ant, é um daqueles thrillers que você lê sem ter ideia do porquê está fazendo isso. Não que a história não mereça a atenção do leitor, mas você não tem uma noção ampla de para onde está sendo levado e o que está realmente acontecendo. Assim como Cayce, o leitor é levado de um lado para o outro à procura daquilo que é o seu trabalho mais desafiador: descobrir quem é o autor – ou autores – de uma série de fragmentos audiovisuais que formariam uma obra completa, publicados anonimamente na internet e que, mais de centenas de trechos depois, já angariou milhões de fãs no mundo todo. Apesar de não concordar com o objetivo desse trabalho, provavelmente com a pretensão usar o método de distribuição do “filme” para inspirar uma nova maneira de viralizar produtos e marcas, Cayce se une a Hubertus Bigend para rastrear o seu autor – mais pelo motivo de Bigend poder lhe provir todo o financiamento necessário para empreender essa tarefa.

Gibson não é de dar ao leitor todos os detalhes de seus personagens de uma vez só. Com Cayce, por exemplo, somos capazes de antecipar algo que ela vá pensar, mas quase na metade do livro ainda não somos capazes de descrevê-la totalmente, não temos ideia de como ela é fisicamente além de sua característica mais marcante, que são as roupas customizadas para não mostrarem nenhum indício de marca registrada. É mais ou menos por aí que mais coisas começam a ser reveladas: o mistério do desaparecimento de seu pai, Win Pollard, que sumiu durante os ataques de 11/9; algumas memórias do passado, detalhes que antes não tinham importância mas que ressurgem e mostram a Cayce novos caminhos para fazer o seu trabalho.

A narrativa de Gibson é daquele tipo que faz o leitor se sentir parte da história, inserindo-o no ambiente que descreve e deixando nele o desejo de estar realmente lá, andando pelas ruas de Londres, Tókio ou São Petersburgo. Não que isso pareça ser uma reação consciente, mas tudo o que é descrito no livro parece ser cool e chique, desejável, como as tendências que Cayce antecipa. A história não é tão aventuresca, mas é interessante e bem fluida, sem antecipar demais o seu desfecho. Cayce é uma protagonista que realmente prende a atenção, e você desenvolve um sentimento de proteção por ela, angustiando-se com as situações de risco em que ela se coloca.

“Homo sapiens é reconhecimento de padrões (…) O que é ao mesmo tempo um dom e uma armadilha.”

Mas por que, ainda, essa aversão a marcas registradas? Ou como podemos interpretar essa característica da protagonista e a importância disso para o livro? Acho que esse elemento está presente por termos nos tornado tolerantes demais com o bombardeio de propagandas a que somos submetidos diariamente. Não conseguimos mais distinguir o que é necessário  e o que consumismos com impulsividade, influenciados pelo marketing. Um dos trechos mais interessantes do livro, e que me levaram a pensar muito sobre esse assunto, é quando Magda, uma jovem russa que trabalha para uma das subsidiárias da Blue Ant, descreve o seu trabalho em casas noturnas, onde é paga para falar bem de determinado produto para que a fama dele se espalhe entre pessoas de grupos estratégicos. Ela descreve a sensação de estar mentindo constantemente, contando como ela foi parando de confiar nas indicações dos próprios amigos porque a propaganda não seria autêntica, baseada em uma experiência real, mas apenas um boato plantado durante uma festa pop. Tudo parece fazer parte de um plano que pretende implantar em você desejos que antes não tinha. Você não precisa daquilo, mas a propaganda bem feita cria em você essa necessidade – uma necessidade falsa. E daí eu me pergunto: estou indicando este filme, este livro, esta pizzaria, porque realmente gostei da experiência ou porque a propaganda deles fez eles parecerem melhores do que são? Em uma época em que compartilhar qualquer coisa custa apenas alguns segundos do dia, recebemos e fazemos indicações e propagandas a uma velocidade que não conseguimos processar, parar e pensar direito.

Ainda não cheguei a uma conclusão final sobre Reconhecimento de padrões. Não foi um tempo de leitura perdido, claro, pois Gibson conseguiu me manter entretida em todas as páginas. Porém, tenho algumas dúvidas quanto ao desfecho romântico que ele deu ao livro, e também quanto a algumas ligações da vida de Cayce e da história de seu pai com o filme que ela investiga – que não parecem se encaixar muito bem. Mas essa reflexão toda que Gibson propõe sobre marcas e marketing faz a leitura valer a pena.