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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Vício inerente, de Thomas Pynchon

vicio-inerentePara quem conheceu Thomas Pynchon lendo Contra o dia – seu calhamaço de mais de mil páginas com inúmeras histórias e personagens que não parecem fazer sentido algum – enfrentar Vício inerente é bem mais tranquilo. Sim, fiz a doidice de começar a ler o autor mais recluso e zoeira de todos com uma história nada fácil, e maravilhosa. Vício inerente já estava há algum tempo na minha pilha de leituras – assim como está Mason & Dixon – e decidi dar a vez a ele por um motivo bem claro: o livro está sendo adaptado para os cinemas por Paul Thomas Anderson, e deve estrear ainda este ano. Em casos especiais, eu gosto de ler o livro antes de ver o filme.

Vício inerente é uma história de detetive que resgata o protagonista de Vineland e O leilão do lote 49. Larry “Doc” Sportello é um detetive particular que viveu intensamente a época do Flower Power e toda a cultura hippie dos anos 1960. Mas neste livro, que situa o protagonista no início dos anos 1970, a cultura hippie já não está tão em alta, e aos olhos de muitos Doc não passa de um maconheiro fracassado. Pois sim, ele vive chapado, e não esconde isso de ninguém. A maconha, aliás, tem papel importante em toda a jornada do livro.

A história começa quando Doc é contratado pela ex-namorada, Shasta, para investigar o desaparecimento de seu novo amante. Refreando os sentimentos por ela, Doc embarca na busca por Mickey Wolfmann, um grandão do mercado imobiliário de Los Angeles. Mas o que parecia ser só mais um trabalho simples esconde muito mais mistérios que Sportello terá que se desdobrar para resolver: na busca por Mickey, o detetive apaga numa casa noturna e é acordado sendo preso por Pé-Grande, um policial que vive no seu pé, bem no meio da cena de um crime, o assassinato de um dos seguranças do empresário. Com a ajuda de seu advogado tão-loucão-quanto-ele, Doc escapa da cadeia, mas fica com um abacaxi grande nas mãos: descobrir com o que Mickey está metido, o que é esse tal de Canino Dourado que todos dizem para ele manter distância e arranjar boa erva entre uma investigação ou outra.

Vício inerente mantém aquele ambiente paranoico e surreal que encontrei na leitura de Contra o dia, mas, como falei no início, é um livro bem mais fácil de acompanhar. Não é só pela história ser mais curta, mas sim porque neste livro Pynchon estrutura o romance de forma linear, interrompido apenas com as viagens e devaneios da cabeça de Sportello. O detetive vai recolhendo as pistas estranhas e se aprofundando em um esquema obscuro, topando com pessoas que sabem um pouco mais sobre aquilo que tenta desvendar e tendo seus insights regados a maconha e LSD. É tudo uma loucura que ainda respira o ar de amor livre e liberdade dos hippies, marcada pelos diálogos de Doc com as outras personagens – seja amigos, suspeitos, mulheres pelas quais se interessa ou policiais –, cheio de gracejos e sarcasmo. A maior graça do livro está em Sportello, por ele ter um jeitão fracassado, mas ainda assim charmoso, que consegue organizar as pistas de uma maneira particular que, em algum momento, vão fazer sentido e guiá-lo para outra pista importante. E a maconha, para ele, tem quase o mesmo efeito do espinafre para o Popeye: amplia o seu raciocínio e o faz chegar a conclusões de maneiras inesperadas – por mais que ele fique lerdo e desajeitado em vários momentos.

“(…) ‘Mas como é o Sherlock Holmes, ele cheirava coca o tempo todo, bicho, ajudava a resolver os casos’.
‘É mas ele… não era de verdade?’
‘O quê. O Sherlock Holmes não era –’
‘Ele é um personagem inventado nuns contos aí, Doc.’
‘Qu… Nem! Não, ele é de verdade. Ele mora lá num endereço de verdade em Londres. Bom, quem sabe não mora mais, isso faz anos, ele deve estar morto a essas alturas.’”

A oralidade do texto é importante para o leitor criar essa empatia por Sportello. É o jeito que ele fala as coisas, a maneira com que emprega certa interjeição ao que algum suspeito, testemunha ou pessoa aleatória fale. Praticamente todo o ritmo do texto está aí, nos diálogos de Doc, mas também na exposição de seu raciocínio em conseguir ligar tantos elementos diferentes – surfistas, dentistas, traficantes, grupos nazistas, gurus espirituais ou seja lá que tipo de pessoa surja no meio da investigação – e que revelam uma teia conspiratória muito maior do que imaginamos. É esse o clima de Vício inerente, de que a todo momento você não vai ter ideia do que uma coisa tem a ver com a outra.

Naturalmente, eu já tenho um certa quedinha por histórias assim, com tramas embaralhadas e uma confusão constante sobre a índole verdadeira das personagens e reviravoltas, temperadas com as referências culturais com que Pynchon recheia seus romances. Vício inerente com certeza tem um dos detetives mais carismáticos e loucos da literatura, não é possível ignorar a força de Doc Sportello e não se entreter com sua confusão e seus casos. Experimente ler o livro antes do filme, não haverá arrependimento.