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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Olhe para mim, de Jennifer Egan

olhe-para-mimFui daquelas leitoras que ficou entusiasmada com A visita cruel do tempo, que tratou de ler o romance premiado de Jennifer Egan assim que ele chegou ao Brasil, e que considerou o livro uma das melhores leituras daquele ano. Sim, ele é ótimo, e aquele capítulo todo em slides de powerpoint foi uma bela sacada. Não consigo lembrar de alguma parte do livro que eu não tenha gostado. Jennifer Egan conseguiu me fazer ficar atenta a cada um de seus inúmeros personagens, e eu esperaria em seus próximos livros encontrar esse mesmo talento. Apesar de ter O torreão autografado aqui do meu lado, ainda não parei para ler seu segundo livro publicado em português. Mas uma das minhas últimas leituras foi o terceiro livro a chegar por aqui, lançado originalmente em 2001, pouco antes dos atentados do 11/9: Olhe para mim.

Neste livro já é possível notar algumas características presentes em A visita cruel do tempo: a narrativa é construída através de vários pontos de vista – mais focado em quatro personagens – com leves mudanças no estilo. A protagonista é Charlotte Swenson, uma modelo de 35 anos (mas diz ter 28) que vê sua carreira decair cada vez mais. Ela conta sua história em primeira pessoa a partir de um acidente de carro que mudou drasticamente a sua vida: ao visitar sua cidade natal, Rockford, ela perde o controle do veículo e o impacto do acidente quebra os ossos de seu rosto. Sua face foi totalmente reconstruída, deixando-a ainda bonita, porém completamente diferente do que era antes. Nem seu agente de Nova York é capaz de reconhecê-la mais, muito menos seus colegas de profissão ou pessoas que antes eram conhecidas, mas não passavam de interesseiros de olho no prestígio de modelo que Charlotte um dia teve.

Charlotte, enquanto narra sua recuperação do acidente, detalha a sua juventude em Rockford, onde era a melhor amiga de Ellen, com quem teve um caso romântico breve que acabou afastando-as. Ellen, hoje casada, tem dois filhos. A mais velha, Charlotte, tem 15 anos e não puxou os traços da mãe. Rick, de 13, herdou toda a beleza dos pais, porém se recupera de um câncer. É a Charlotte adolescente quem assume outra parte da narrativa, essa feita em terceira pessoa, onde um narrador invade seus pensamentos e confessa toda a sua inadequação na escola, com as amigas, e seu desejo de ser diferente ao mesmo tempo em que quer fazer parte de um grupo. Desajeitada e adoradora de peixes de água salgada, Charlotte engata um relacionamento com um homem mais velho, Michael West, que dá aula de matemática em sua ex-escola. Charlotte também é sobrinha de Moose, um homem que era considerado o galã do colegial, mas que de uma hora para outra largou os esportes e virou um acadêmico excêntrico obcecado com a história de Rockford. Fora o antigo círculo de amizade de Charlotte (a modelo), ainda há Z, um amigo seu que desapareceu misteriosamente e é procurado por Anthony Halliday, um detetive particular de Nova York; e Irene, uma jornalista que intriga Charlotte ao tentar contar a sua história e acaba tendo de conviver com ela por mais tempo que o esperado.

Olhe para mim é um romance sobre identidade. Todas as personagens lidam de alguma forma com a procura de saber quem são, o que as pessoas enxergam sobre elas e o que elas realmente querem ser. São personagens que ou passaram a ser ignoradas pelo meio em que vivem ou que sempre foram desapercebidas, implorando para que o mundo as veja, que sintam a sua presença e as considerem importantes. Isso é notado nos momentos em que Charlotte, depois de todas as suas cirurgias, volta a tentar frequentar os lugares em que sempre ia antes do acidente, vendo seus conhecidos olharem para ela sem a reconhecer; acontece com a menina Charlotte, sendo sempre a última opção para os garotos e suas próprias amigas; com Moose, cuja família o mantém afastado devido ao seu comportamento estranho. Apenas Michael procura por uma vida com menos atenção, escondendo detalhes sobre sua origem, mas também mudando o tempo todo sem conseguir se fixar em um lugar. Essa inadequação e procura pela identidade, pela história que torne essas pessoas seres interessantes, Jennifer Egan conseguiu construir muito bem. Porém, é justamente com sua protagonista que o livro não convence completamente.

Eu gostei muito mais da trama que envolve Moose, Charlotte (adolescente) e Michael do que a que se desenrola em torno da modelo. Embora todas essas personagens estejam ligadas de certa forma, o cenário em que a modelo atua está muito distante, pouco verossímil. Logo após voltar para Nova York, tentando reerguer sua carreira, Charlotte experimenta a rejeição, a falta de perspectiva sobre o que fazer com a vida, mas o abalo que isso causa em sua vida não tem um impacto positivo no leitor. Até que conhece Thomas, um homem que lhe apresenta um serviço pioneiro na internet: um site que reúne perfis de pessoas “comuns” e “incomuns” que oferece a seus assinantes a experiência de ver em detalhes como é a vida do outro. Quase um reality show, vamos dizer, em que as pessoas contratadas escrevem tudo aquilo sobre elas, seus anseios, medos, planos, o que pensam, como e com o que trabalham. Charlotte é chamada para ser uma das “incomuns”, pessoas com características mais interessantes e que ganhariam mais destaque – e dinheiro. Esse é um momento do livro que evidencia bem o que Egan quer dizer sobre construção de identidade, pois o projeto que começa simples, apenas com fotos e textos, cresce para algo maior, incontrolável, em que Thomas passa a exigir que seus clientes ajam de forma a ficarem mais interessantes, tirando desses seres comuns ou incomuns a liberdade de serem quem realmente são. Mas mesmo tendo que lidar com esse furto de sua própria identidade, faltou algo em Charlotte que me convencesse a gostar dela.

O que me fez preferir a Charlotte adolescente à adulta foi uma questão de segurança. Mesmo estando acidentada, se recuperando de difíceis cirurgias, tendo sua carreira já decadente em risco totalmente parada e sem expectativa de recuperação, a modelo não parece nada vulnerável. Ela é decidida demais, possui um excesso de segurança e crença na sorte que a deixa imune aos problemas. Nem mesmo quando tenta se jogar da sacada do seu apartamento Charlotte se deixa invadir pelo medo, Egan não conseguiu extrair dela o desespero que devia. Já a adolescente é carregada de drama, da sensação de deslocamento que a faz tomar decisões precipitadas e perigosas emocionalmente. Ela está tentando entender o mundo, ainda lida ingenuamente com relacionamentos (ela inventa um jogo para saber se Michael a ama ou não, por exemplo: se o sino tocar agora, é porque ele me ama), e não se sente confortável nem com sua família. A única pessoa que parece ser psicologicamente mais próxima a ela é seu tio, com quem começa a ter aulas e de quem fica mais próxima, curiosa sobre o que aconteceu com ele no passado que o fez mudar tanto. A modelo já tem personalidade concreta, age como se soubesse tudo sobre o mundo e fosse blindada de seus problemas. A adolescente não está nem perto de adquirir a maturidade que pensa ter, e por isso mesmo ela cresce dentro da história. Por conta disso, essa pequena Charlotte é muito mais “gostável” que a outra.

A leitura de Olhe para mim terminou com aquela sensação de que o livro seria melhor se fosse mais curto, se Egan focasse a narrativa muito mais na Charlotte adolescente do que na modelo. Até porque algumas coisas dos trechos sobre a modelo não são bem concluídas, como a história de Irene e do detetive, que se encerram de supetão. A técnica narrativa de Jennifer Egan se apresenta com timidez, mas é possível perceber alguns detalhes que a levaram até A visita cruel do tempo.