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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Garota exemplar, de Gillian Flynn

garota-exemplarGarota exemplar deve ter sido um dos lançamentos estrangeiros mais comentados do ano passado – e um dos com o maior número de leitores evitando spoilers por aí. Acabei adiando a leitura até saber que estava sendo adaptado para o cinema com direção do David Fincher – com estreia prevista para outubro. Queria ler até lá.

Não vou dizer que os spoilers estragaram a experiência da leitura – nunca estragam, insisto que essa é a maior frescura da internet –, mas quando passei para a segunda parte do livro, percebi que sabia bem pouco sobre ele – quem procura acha. Garota exemplar é uma espécie de thriller de investigação com um romance doentio e a dúvida constante sobre quem é o mocinho e quem é o vilão da história. Amy Elliot Dunne some de casa no dia do aniversário de cinco anos de seu casamento com Nick Dunne. O sumiço da mulher já começa envolto em várias dúvidas: Nick não tem um bom álibi para a hora em que Amy desapareceu, e sua reação ao desaparecimento deixa a polícia desconfiada. É um caso típico em que a culpa sempre recai sobre o marido, e claro que ele é o principal suspeito.

Acontece que não são só os detetives Jim Gilpin e Rhonda Boney que pensam isso. O leitor também tem certeza de que Nick é o culpado, pois ele revela em sua narrativa em primeira pessoa que está a maior parte do tempo mentindo para a polícia, da mesma forma que fazia com a esposa. O casamento não ia bem, as brigas eram constantes, Amy e Nick estavam infelizes depois de perderem seus empregos e terem de mudar de Nova York para Carthage, às margens do Mississipi. É óbvio que Nick chegou ao seu limite e matou Amy. É o que a polícia desconfia, o que a imprensa alimenta, o que o próprio Nick insinua e o que o diário de Amy confirma. Mas nesta história a conclusão mais óbvia acaba se mostrando a mais errada.

“Os homens realmente acham que essa garota existe. Talvez se deixem enganar porque muitas mulheres estão dispostas a fingir ser essa garota. Durante muito tempo a Garota Legal me ofendeu. Eu costumava ver homens – amigos, colegas de trabalho, estranhos – babarem por essas medonhas mulheres fingidas, e eu queria sentar com esses homens e dizer claramente: você está saindo com uma mulher que viu filmes demais escritos por homens socialmente estranhos que gostariam de acreditar que esse tipo de mulher existe e poderia beijá-las.”

Gillian Flynn é boa em fazer a história mudar de rumo a todo tempo. O romance alterna capítulos narrados por Nick com trechos do que seria o diário de Amy sobre como o casal se conheceu, como ela era uma mulher perfeita (para fazer o “crime” cometido por Nick parecer ainda mais assombroso), e sobre como essa relação foi ficando cada vez mais ameaçadora e torturante para ela. A cada final de capítulo, Gillian joga uma bomba para mudar a visão do leitor sobre as personagens – e manter ele preso ao livro pelo maior tempo possível. O bom e velho truque do suspense que faz você não conseguir esperar para ler mais tarde. O livro é um jogo de manipulação: qual personagem consegue conquistar mais a simpatia do leitor, assim como tentam trazer o público fictício para o seu lado na cobertura que a imprensa faz do caso.

Amy é uma personagem complexa e instável. Ela cria diversas versões de si mesma a fim de atingir algum objetivo específico (conquistar um homem, receber ajuda, fazer a culpa recair sobre outra pessoa etc.). Ela tem visões bem claras sobre o que as pessoas esperam de uma mulher bonita e inteligente, e consegue manipular o cenário para que tudo aconteça a seu favor. Por um momento, você ama Amy pelo seu raciocínio frio e calculado, para logo depois achá-la uma louca psicótica que não suporta ser contrariada. Amy tem tudo para ser uma mulher independente e madura, mas no fundo ela não é muito diferente das Garotas Legais que ela critica no trecho acima. Ela quer ser amada por todos e não suporta ser deixada de lado. Quando nota que nem a sua versão de mulher mais inteligente, engraçada e simpática não prendeu Nick definitivamente, ela perde a sanidade.

“Sou um ótimo marido porque tenho muito medo que ela me mate.”

Na segunda parte de Garota exemplar, a visão que o leitor tem sobre Nick muda completamente. Ele não passa de uma marionete sendo comandada por uma Amy assustadora e perigosa. A primeira reação a isso é apoiar Amy, gostar de seu plano de vingança mirabolante. Um castigo irreversível, que o faria pagar para sempre por ter arrastado a esposa para o nada e ainda trai-la com uma mulher bem mais jovem – algo que seu orgulho não consegue suportar. Quanto mais Gillian revela as intenções e motivações das personagens, mais o leitor percebe que o relacionamento de Nick e Amy é doentio, construído sobre um monte de mentiras pensadas milimetricamente com o objetivo de agradar ao outro. Nesta parte já não importa tanto quem está falando a verdade ou não. O suspense é saber se eles vão sobreviver um ao outro.

Garota exemplar é um ótimo romance de entretenimento. Ele tem os seus momentos de romantismo clichê – plantados por Amy –, e às vezes os planos das personagens podem parecer inverossímeis, difíceis de aceitar, mas é inegável que Gillian Flynn escreveu um livro que consegue mexer com a percepção do leitor sobre a história e surpreendê-lo a cada página.