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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Serena, de Ian McEwan

serenaEra pouco mais de meio-dia do dia 7 de julho de 2012 quando Ian McEwan revelou para uma Tenda dos Autores lotada – e para quem assistia de fora – o final de seu novo romance, lançado mundialmente no Brasil durante a Flip. O segredo de Serena pertencia agora à todos, não só àqueles que já tinham dado conta do livro. Se o próprio autor de uma obra faz isso – entrega de mão beijada, durante um bate-papo, o final de uma história surpreendente –, quem sou eu para reclamar. Mas tudo não poderia passar de mais uma estratégia de manipulação de McEwan com o público, agora podendo ver ele fazer isso ao vivo, cara a cara, e não só através dos livros. Afinal, neste mesmo lugar, ele diria – ou já tinha dito, não lembro direito – que “manipular o leitor é o meu maior prazer”.

Serena é inteiramente um jogo de manipulação. O leitor é levado a pensar uma coisa durante o decorrer da leitura, enquanto o que acontece na verdade é outra. É de se esperar isso de um romance ambientado na Inglaterra do início dos anos 1970, protagonizada por uma funcionária do serviço de inteligência britânico, o MI5. Agentes, espiões, documentos secretos e disfarces, essas coisas todas dos filmes do 007 – mas sem armas, basicamente. Serena Frome é uma jovem de vinte e poucos anos recém formada em matemática pela universidade de Cambridge. Do seu envolvimento com o ex-orientador de um ex-namorado, um professor mais velho, ela acaba conseguindo uma entrevista com o MI5. O professor sumiu da sua vida, mas o emprego foi conquistado, em uma função burocrática e chata que não interessou muito a ela logo no começo.

Serena é uma boa leitora. A carreira matemática não teria sido cogitada se não fosse a insistência de sua mãe, que gostaria de ver a filha ter sucesso em uma área predominantemente masculina, conseguindo conquistar sua independência. Sua verdadeira vocação eram as letras, a literatura, os romances que devorava no ritmo de dois ou até três por semana. Seu poder de leitura dinâmica a fez conhecer autores dos mais variados estilos e a adquirir um senso crítico bem apurado. Essa sua especialidade chamou a atenção de seus empregadores, e em poucos meses no serviço secreto ela foi recrutada para participar de um projeto pequeno, mas audacioso: a Operação Tentação, que consistia em apoiar financeiramente escritores e intelectuais para continuarem sua produção artística/filosófica. Sem eles saberem de onde o dinheiro vinha, claro. Serena aceita, encarregada de contratar o romancista Tom Healy.

Apesar de certa independência emocional que Serena conquista, ela sempre está envolvida em algum romance. Começa com Jeffrey, um colega da faculdade. Depois Tony, o professor, de quem é amante. Continua com Max, um superior seu no MI5 que logo revela estar noivo. E, claro, acaba desaguando em Healy. Serena é uma romântica inveterada, mas aberta a manter apenas alguns casinhos, sem pretensões maiores. Com Tom o envolvimento é diferente, e por isso mesmo ela está em constante dúvida entre contar ou não quem realmente é: uma “agente secreta” que trabalha para aqueles que pagam Healy esperando que sua ficção e ensaios espalhem seus ideais de direita. Com medo de que a verdade a afaste de Tom, continua alimentando seu disfarce de funcionária de uma fundação que apoia artistas.

McEwan concentra todo o romance nas percepções da protagonista. É ela quem narra seus primeiros dias na faculdade, seus romances que a levaram a trabalhar no MI5, as poucas amizades que teve e os novos homens que foram surgindo na sua vida. Serena não é uma jovem satisfeita com sua posição e profissão, mas tem uma ânsia tão grande em ser reconhecida e adorada que se esforça a seu jeito para agradar os superiores. A vaga como funcionária comum do MI5 não parece ser muito importante para ela, mas ser demitida por incompetência também está longe de ser suportado. Então ela continua com seu trabalho, dividida entre a afeição por Tom e o sucesso da Operação Tentação.

Nisso se vê que tipo de jogo McEwan está fazendo com o leitor. Por mais que ela deixe claro as suas posições e pensamentos, não se sabe exatamente para onde Serena quer ir, onde sua história vai terminar. Apenas assistimos os segredos da garota se estreitarem ainda mais com as complicações que vão surgindo enquanto tudo parece ir bem. Serena sente que as coisas podem explodir no seu colo a qualquer momento, mas não tenta fazer nada para evitar que isso aconteça. Essa tensão de não saber exatamente o que e quando vai acontecer é bem montada por McEwan. Sabe-se que algo ruim está por vir, mas não a que nível e com quais consequências.

Enquanto lia, lembrava da discussão que surgiu durante a Feira de Frankfurt no ano passado após o discurso de Luiz Rufatto na abertura do evento, carregado de críticas ao Brasil e seu governo. Muitos aplaudiram e outros rechaçaram as palavras do escritor, dizendo que um autor de ficção não devia nada que se meter em assuntos políticos – mais especificamente Ziraldo, dizendo que aquele não era o momento de fazer críticas ao país homenageado. Bem, sou da opinião de que um escritor deve ser politizado sim – se ele quiser, ninguém é obrigado. Mas como o próprio romance de McEwan mostra, a literatura de ficção está próxima da realidade e serve como base para difundir ideais e formas de ver o mundo. Um autor que tem conhecimento sobre o que acontece dentro do governo de seu país sabe o poder que suas palavras têm, e é esse poder que o MI5 quer explorar com a Operação Tentação – sem fazer parecer que estão metendo o bedelho em algo que deve – e é – ser livre de intervenção.

O final de Serena foi mais feliz do que eu imaginava. Sim, a minha surpresa com a reviravolta do último capítulo tinha sido desfeita bem antes de eu iniciar a leitura, mas não importa. A qualidade do romance ainda está na forma com que Ian McEwan o montou, levando o leitor a acreditar em um narrador, simpatizar com ele, e revelar que na verdade quem nos conta esta história é alguém totalmente diferente. Desde as primeiras páginas é uma tragédia que se espera, mas ela não acontece, não da forma que premeditamos. Se estamos lendo esse livro – aqui estou entrando dentro da ficção – é porque tudo acabou bem.