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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Diga o nome dela, de Francisco Goldman

diga-o-nome-dela-capaNo dia 25 de julho de 2007 (dia do meu aniversário, aliás, quando eu estava prestes a me mudar para o Rio Grande do Sul), a escritora mexicana Aura Estrada estava se banhando na praia de Mazunte com seu marido, o escritor Francisco Goldman. Quando tentou pegar um jacaré em uma onda, Aura foi arrastada pela força da água, bateu com a cabeça em um banco de areia e perdeu a sensibilidade dos braços e das pernas. Horas depois, ela morreria em um hospital na Cidade do México. Aura deixou para trás sua mãe, Juanita, seus amigos do México e de Nova York e seu marido que, além de lidar com a perda da mulher que mais amou na vida, também era acusado injustamente pela mãe da esposa de ter culpa em sua morte.

Morte, luto e amor podem ser ingredientes para uma história dramática e melosa, mas Diga o nome dela está longe disso – apesar de sugerir tais exageros que tendemos a ver como característicos das novelas mexicanas em alguns trechos. Sensível é a palavra certa para descrever esse livro. Goldman junta nele cada detalhe, objeto, lembrança e textos inacabados de Aura para narrar seu amor por ela, sua dor pela perda dela e a superação dessa dor – não queria usar a palavra “superação” aqui, mas não consegui pensar em outra que fosse descrever melhor a jornada do livro.

Goldman e Aura se conheceram em Nova York quando ela ainda estudava para o seu mestrado, e começaram a se relacionar quando ela iniciou seu doutorado em literatura latino-americana em Columbia. O que o namoro dos dois tinha de excepcional era a grande diferença de idade do casal, e, claro, a paixão enorme que um sentia pelo outro. Goldman se descreve como um senhor com alma adolescente, que se recusou a “crescer” e vive como se ainda fosse jovem. Isso pode parecer um defeito, mas não é. Goldman é maduro, mas com espírito jovial. Já Aura é uma garota impulsiva, talentosa, porém insegura com seu trabalho – não conseguiu publicar um livro quando viva. E a história de amor dos dois é mesmo linda, cheia da cumplicidade que se espera de um casal, com pequenas brigas e sem vergonha de demonstrar pro mundo que sim, eles se amam e esperam passar a vida inteira juntos.

Enquanto eu lia, olhava fotos do autor com Aura, fotos da cerimônia de casamento em que eles aparecem sorridentes, extasiados, realmente felizes de estarem oficialmente se unindo – a minha preferida é a deles com um burrico, sorrisos largos, olhos cerrados de alegria. E quanto mais eu observava essa foto, pensava: “Não se vê uma felicidade assim todos os dias. Você consegue sentir que esse é o dia mais feliz deles”. E isso contribuiu para deixar a leitura de Diga o nome dela mais triste e bonita.

Há outro aspecto importante da história de Aura que Goldman também utiliza na narrativa, que é a relação dela com sua mãe, uma personagem tão importante para o livro quanto a própria Aura. A educação da escritora sempre foi a prioridade de Juanita, que se viu abandonada pelo marido e foi, com uma Aura de quatro anos de idade, viver na Cidade do México. Usando os diários de Aura como fonte, Goldman mostra como é forte a ligação entre mãe e filha, e mesmo depois de adulta Juanita ainda exercia grande influência sobre ela – Aura foi criada para ser uma grande acadêmica, enquanto o que ela realmente queria era trabalhar em sua carreira literária. O que Goldman aborda é como esse amor exacerbado da mãe por Aura a levou a culpar – injustamente – ele pela sua morte. A dor de mãe, aqui, é tão grande ou maior como a dor do marido, algo que ele nunca chega a desprezar ou diminuir. Ele reconhece o quão difícil deve ser para quem passou quase 30 anos com uma pessoa perdê-la assim, de maneira tão trágica, enquanto ele compartilhou apenas quatro desses anos com Aura.

“Em menos de um ano, eu era não mais um marido por mais tempo do que havia sido um marido. No entanto, vivemos juntos dois anos mais do que isso. E virá o dia em que não terei mais estado com Aura mais tempo do que estive com Aura.”

O luto de Goldman é constante. Até o detalhe mais insignificante de sua casa o faz lembrar da esposa morta e sentir a sua ausência. Números não são só números, mas dias, meses e anos em que Aura não está mais viva. Tomar um café guarda um significado maior, ele resgata mais lembranças de Aura, momentos em que eles estiveram naquela cafeteria, conversas que tiveram, conversas que poderiam ter tido. Após a morte da mulher, tudo na vida de Goldman começa a girar em torno dessa perda. E uma das coisas que mais comovem é como o autor projeta um futuro em que Aura está viva – teriam uma filha chamada Natália, teriam se mudado para a Cidade do México, poderiam ter um animal de estimação etc.

“Todo dia uma ruína fantasmagórica. Todo dia a ruína do dia que deveria ter sido. Todo segundo no relógio tiquetaqueando adiante, tudo o que faço ou vejo ou penso, tudo é feito de cinzas e fragmentos carbonizados, as ruínas do futuro.”

Esse trecho descreve bem esse aspecto do livro. Você não perdeu só aquilo que ama. Você perdeu o seu futuro, planos frustrados que não vão se concretizar. Uma vida inteira que morreu na praia junto com Aura, existente apenas na imaginação de Goldman. Não se perde só aquilo que se tinha, mas tudo aquilo que se poderia ter tido.

Durante toda a narrativa, fica evidente como Goldman viveu anos em um estado inconsolável. Ninguém era capaz de ajudá-lo a superar a perda, e ele tentou tirar o peso da morte de Aura de suas costas de todas as formas: mergulhou nas leituras de obras sobre o luto, tentou esquecer a dor com os amigos, com o sexo, com a bebida. Chegou a ter momentos de alucinação, imaginou ver Aura do seu lado, na cama, se convenceu de que seu espírito vivia em uma árvore na rua de sua casa no Brooklyn – tudo isso pode parecer surreal demais, mas a forma com que Goldman narra todos esses estágios te faz entender exatamente o que ele estava sentindo, pois ele envolve o leitor com seu pensamento.

Talvez eu tenha perdido o “fator de surpresa” do livro por ter lido anteriormente o trecho em que ele detalha o dia da morte de Aura e como a tragédia se sucedeu – esse trecho foi publicado ano passado na revista piauí. Isso porque Goldman guarda esse momento para as últimas páginas de Diga o nome dela, e imagino que quem não tenha lido essa parte antes tenha ficado mais ansioso para saber o que aconteceu com Aura exatamente. O que se tem são referências ao lugar em que ela morreu, ao mar, às ondas, a Goldman entrando no hospital com Aura e recebendo de Juanita uma acusação sem fundamento: “Esto es tu culpa”. Goldman sabe que ele não é o culpado, que tudo foi um acidente, mas ele entende por que Juanita pensa isso. A morte é trágica demais e, quem sabe, culpar alguém por ela diminua a sua dor – como viver num mundo onde ninguém nem nada pode ser culpado por um acidente, onde ele é tão inevitável?

Diga o nome dela é, enfim, uma leitura comovente, forte na descrição do luto e na maneira como Goldman homenageia Aura sem endeusá-la exageradamente. Ele é um homem apaixonado, sim, mas não é uma paixão cega, por mais que possa parecer ser. É só amor, amor puro e simples, que emociona até quem pode desacreditar nesse sentimento. O que resta é o desejo de um dia poder ter a relação que Goldman e Aura tiveram, ao mesmo tempo em que se tem medo de perder isso em fração de segundos, tempo o bastante para uma onda levar o que você mais ama embora.

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“Abrace-a com força, se você a tem; abrace-a muito, pensei, é meu conselho para todos que estão vivos. Respire o perfume dela, encoste o nariz em seu cabelo, respire profundamente o perfume dela. Diga o nome dela. Será sempre o nome dela. Nem a morte pode roubá-lo. O mesmo nome, viva ou morta, sempre. Aura Estrada.”