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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Dez de dezembro, de George Saunders

dez-de-dezembroÉ difícil falar sobre contos e blábláblá. A leitura é mais leve, mas ao mesmo tempo profunda e blábláblá. Resenhar um livro de contos é complicado porque ou você fala de cada texto, ou faz um comentário que consiga abranger todos os contos em uma coisa só e blábláblá. Não sei quantas vezes já comecei a falar sobre um livro com essas frases, mas a sensação, terminada a leitura, é essa: como explicar que os textos de tal autor são ótimos e como resumir a sensação da leitura como um todo? Isso só acontece, claro, com os bons livros, como foi o caso de Dez de dezembro, de George Saunders.

Não sei se é uma questão cultural, mas minha experiência com contos (que não é lá muita) diz que autores estrangeiros tendem a escrever narrativas mais longas, que abrangem 10, 20, 30, até mais de 60 páginas para uma única história (levantando a discussão de “mas isso é um conto ou uma novela?”), enquanto os escritores nacionais tendem a rechear seus livros com até 50 contos curtos, de três ou quatro páginas cada um – pelo menos foi assim com várias estreias literárias de autores daqui que caíram nas minhas mãos. (Ok, eu sei que alguns brasileiros mandam muito bem em contos mais longos, como os de Pó de parede, da Carol Bensimon, e alguns textos do Antônio Xerxenesky em A página assombrada por fantasmas.) Bem, tendo a gostar mais dos contos maiores, talvez justamente por terem a extensão necessária para me fazer absorver a história com mais detalhes (o que não é uma regra inquebrável, só para deixar claro). Os textos de Saunders são assim. 

Dez de dezembro é composto por dez contos, todos eles de alguma forma ligados a questões como a realidade obscura da vida no subúrbio, conflitos morais, o cotidiano com suas falhas, acertos, dramas e comédias. E uma coisa que gostei bastante em alguns textos são que eles tratam de um futuro não muito longe do nosso, apresentando algumas “novidades” com uma naturalidade própria de algo que já existe e que já conhecemos. É o caso de “Semplica Girl – os diários”, um diário escrito por um pai de família da classe média que não tem controle sobre seus gastos, esbanjando dinheiro que não tem para manter um status maior que a conta bancária permite, tudo para que seus filhos não passarem vergonha por viverem numa família que não é “classe A”. Ele gasta o dinheiro que ganhou na sorte com moças de países pobres que vão aos EUA em busca de uma vida melhor e são expostas em jardins com aventais de linho branco, como bonecas zumbis, símbolo de riqueza e bom gosto entre as famílias. Tal futuro aparece também em “Fuga da cabeça da aranha”, uma narrativa em primeira pessoa feita por um prisioneiro cobaia de certos experimentos sociais realizados nessa instituição, com um mecanismo no seu corpo que administra substâncias que ampliam suas sensações, o tornando mais falante, sincero, forte ou triste conforme a vontade de seus controladores. Esses dois contos exploram o impacto moral dessas “invenções”, provocando as personagens e levando-as a extremos – o extremo é, justamente, o fim do protagonista de “Fuga da cabeça da aranha”, por exemplo.

George Saunders coloca dentro de um só conto diversos pontos de vista que deixam o texto muito mais interessante – podendo ser em primeira ou terceira pessoa. Como no conto que abre o livro, “No colo da vitória”, e “Filhote”, em que Saunders alterna o ponto de vista entre duas ou mais personagens. No caso do primeiro, não é só a narração dos pensamentos de Alisson, a adolescente raptada, e de Kyle, o vizinho que assiste ao sequestro, que tomam conta da narrativa, mas também existe a intervenção imaginária dos pais do garoto, influenciando no seu raciocínio e trazendo muito mais aflição para o texto. Já em “Filhote” o leitor é exposto ao relato de duas mães, uma que leva seus dois filhos para uma casa simples afim de adotar um filhote de cachorro, a outra a dona do cãozinho, que observa da janela seu pequeno filho problemático brincando amarrado no quintal. A visão de uma realidade distante e desconhecida que espanta uma é o alívio e a prova de amor da outra.

A convivência em sociedade também é um dos temas de Saunders, que cria personagens que, em uma autoavaliação, se considerariam bondosas, direitas, mas que guardam dentro de si pensamentos não tão lisonjeiros. É o caso de “Al Roosten”, um conto sobre um homem de meia-idade observando as pessoas da comunidade onde vive, fantasiando diálogos e encontros com seu vizinho, fazendo pequenas maldades movido por uma impressão errada que teve do homem, chegando às vias de sentir ódio do sucesso dele e de sua vida perfeita – que certamente é perfeita só na cabeça Al, embriagado pela visão da felicidade alheia que logo desmorona quando percebe ter cometido um erro. “De volta para casa” também tem um pouco disso, mas o que provoca o comportamento meio intempestivo do protagonista é a sensação de abandono – ele é um veterano da guerra que volta aos EUA, abandonado pela mulher, pela irmã, e que não encontra na mãe impulsiva e inconsequente a recepção que espera.

Dez de dezembro é um livro repleto de retratos da vida no subúrbio calmo que é abalado pela violência, pelos julgamentos alheios, pela percepção que um tem da vida do outro e os desejos escondidos por trás da impressão de bondade e calma que ostentam. Coisas que se escondem, que não se mostram aos vizinhos, pensamentos que não se revelam nem para os mais íntimos, que têm proporções bem diferentes quando são vistas por outros ângulos e por outras pessoas. E George Saunders faz tudo isso tão bem que, quando você percebe, já está devorando o próximo conto.

Ps.: Sinto que ando cada vez mais superficial nos meus comentários – não que eles já tenham sido muito profundos –, então, para quem quer ler resenhas realmente boas, recomendo a que a Camila fez no Livros Abertos e o comentário do Emílio Fraia lá no blog da Companhia das Letras.