como-ficar-podre-de-rico-na-asia-emergentePara Mohsin Hamid, a literatura é um tipo de autoajuda. Nas entrevistas que concedeu aqui no Brasil e durante sua mesa na Flip 2014, era isso o que ele dizia quando perguntado sobre o motivo de ter escrito um romance com a linguagem dos livros de autoajuda. Tudo começou com uma brincadeira, disse ele, até que pensou: peraí, mas por que lemos? Não é para nos encontrarmos dentro dos livros, ou então escaparmos da nossa realidade? É uma boa maneira de enxergar a literatura e os livros. Que, mesmo que não estejamos lendo pequenas pílulas de inspiração e conselhos provindos da sabedoria popular, filosófica ou macrobiótica (vai saber), nosso impulso inicial ao escolher uma leitura é o entretenimento e o conhecimento que podemos adquirir através dela. Logo, a literatura tem um papel, sim, de nos ajudar – mas não em todos os casos, claro.

Tudo isso só para dizer que Como ficar podre de rico na Ásia emergente é um livro de “autoajuda”. Escrito como um desses livrinhos famosos que enumeram passos para uma vida plena e de riquezas, ele conta a sua história. Você é o filho caçula de uma família que vive numa aldeia de algum grande país da Ásia. Você está tremendo de febre no chão, na sua cabana, e sua mãe e seu pai não podem fazer muito para te ajudar. Você já perdeu irmãos para a doença. Mas você sobreviverá, sua família vai sair do interior e fixar residência em uma das cidades mais populosas do mundo, você vai trabalhar numa locadora de DVD como entregador e vai conhecer a menina bonita, uma garota que mora próximo à sua casa e com quem você sonha um dia ter coragem para puxar papo. Mas seu maior desejo é ficar rico. E você vai começar do nada o seu “império”, primeiro vendendo comida vencida barata, e depois água engarrafada.

O livro de Mohsin Hamid é curto e objetivo, do jeito que um livro de autoajuda deve ser. Só que no lugar de oferecer grandes revelações que vão transformar a sua vida de uma vez por todas (não), ele conta uma interessante história sobre amor, dinheiro e o que deixamos para trás em busca de um sucesso que pensamos ser o nosso sonho de conquista. Os 12 capítulos curtos do romance correspondem aos passos para se chegar à riqueza – 1. Mude-se para a cidade grande; 2. Consiga um diploma; 3. Não se apaixone –, iniciando sempre com um parágrafo que sugere uma reflexão, um conselho, uma moral, algo que você deve ter dentro de si para chegar ao objetivo de um desses passos – 4. Evite os idealistas; 5. Aprenda com um mestre; 6. Trabalhe para si mesmo.

Você é um homem que conquista a riqueza entrando no jogo burocrático e corrupto que move o país, embora o leitor te considere uma pessoa de bom coração. Sem a violência, os subornos, os “jeitinhos” – 7. Esteja preparado para fazer uso da violência; 8. Faça amizade com um burocrata; 9. Patrocine os artistas da guerra – você não teria como ascender da forma que ascendeu. E enquanto os anos passam, você se casa com uma moça mais jovem, tem um filho, expande o seu negócio da água, vive às voltas com a lembrança da menina bonita, que é tão ambiciosa quanto você e certamente seguiu esses 12 passos que lhe levaram à fama – 10. Faça malabarismo com as dívidas; 11. Concentre-se no essencial; 12. Planeje uma estratégia de fuga.

Como ficar podre de rico na Ásia emergente pode ser um romance de formação? Pode. Apesar de não parecer, ele mostra a evolução do protagonista da infância à velhice, resumindo a vida de alguém que percebeu tarde demais que toda a sua dedicação ao objetivo de enriquecer e manter o seu patrimônio, no fim, não importou tanto quanto ter alguém ao seu lado na hora de ir embora. Dos 4 anos aos 80, você viveu uma vida inteira na lembrança de um amor que se concretizou poucas vezes, se afastou de quem gostava e, apesar de todo o dinheiro, perigou passar seus últimos dias em completa solidão – assim como a ambiciosa menina bonita. Mas o livro está longe de ser uma crítica ferrenha de Hamid para esse estilo de vida que persegue a riqueza. O final que você tem é bonito, poético, e provavelmente você repetiria todos esses 12 passos novamente para poder passar os últimos 5 anos de sua vida ao lado de quem sempre quis estar. É uma boa narrativa que sabe utilizar os clichês da autoajuda a seu favor.