as-cavernas-de-acoAs três leis da robótica dizem que: 1 – “Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano venha a ser ferido”; 2 – “Um robô deve obedecer as ordens dadas por seres  humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei”; 3 – “Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou com a Segunda Lei”. Essas leis são fundamentais para a construção e convivência pacífica entre robôs e humanos, e são as primeiras coisas “instaladas” em seus “cérebros”. Mas a ameaça dos robôs vai além dessas três leis para os personagens de As cavernas de aço, o primeiro romance que trata do universo da robótica escrito por Isaac Asimov.

Como o próprio texto introdutório de Asimov publicado nesta edição lançada no ano passado pela Aleph explica, o autor já havia colocado os robôs como centro de seus contos, publicados em revistas especializadas em ficção científica a partir dos anos 1940. Apesar de já ter escrito romances, As cavernas de aço foi o primeiro texto longo com os homens de lata e cérebros artificiais. Na história, Elijah “Lije” Baley, um investigador da polícia de Nova York, é colocado para trabalhar num caso de assassinato ocorrido na Vila Sideral – local onde moram os Siderais, um povo dos mundos exteriores pouco apreciado pelos humanos. O homem morto é um famoso cientista que projeta robôs, e o caso é mantido às escondidas pelo fato de ser impossível um humano entrar, cometer um crime e sair sem ser visto da Vila – o que pode abalar muitas relações diplomáticas com os outros mundos.

Contudo, o novo parceiro de Lije designado para esta investigação não lhe agrada muito. O detetive terá que trabalhar com R. Daneel Olivaw, um robô projetado pela vítima e que pode passar facilmente por um humano. E aí está o medo que abate todas as pessoas da Terra: os robôs começaram a tomar os seus empregos e, caso Lije não consiga resolver o caso, ele também será desclassificado e substituído por um robô mais eficiente que ele.

A trama de As cavernas de aço oferece boas questões para se pensar sobre o avanço da tecnologia e como um mundo dividido entre o trabalho de robôs e humanos pode se estabelecer, porém não é nenhuma grande invenção literária. O texto de Asimov é bem seco, os diálogos não são muito empolgantes, e até as conclusões de Lije sobre o caso parecem surgir do nada, sem muito sentido para o leitor – embora é possível admitir que essas teorias que ele trabalha sobre o crime são explicadas pelo seu próprio medo de ser passado para trás por um robô. Mas o interessante do livro é a própria maneira que eles vivem nesse futuro não tão distante. Nova York não é como a cidade que conhecemos hoje. Os humanos não vivem ao ar livre, mas em grandes “cavernas de aço” alimentadas com luz e ar artificial, as pessoas moram em grandes conjuntos habitacionais com cozinhas e banheiros coletivos, e são divididas em classes que, quanto mais altas, mais privilégios têm – como andar sentados na via expressa, poder fazer duas refeições por semana dentro de casa, ter um banheiro particular etc. A comida e outras provisões são rigorosamente controladas. Apenas os ricos podem ter o privilégio de ver a luz do Sol natural (mas separados por uma redoma de vidro, claro), o resto são pessoas que nunca tiveram a oportunidade de ver a Terra como ela realmente é.

E no meio desse controle da vida humana e da vivência com os robôs, surgem os Medievalistas, pessoas que rechaçam a inserção dos robôs na sociedade e sonham com o mundo do jeito que ele era antes. Esses momentos em que Asimov coloca o mundo altamente tecnológico em conflito com o antigo são os mais interessantes, os que levantam as verdadeiras discussões dentro do livro sobre como o mundo deveria ser, onde os robôs deveriam estar. Contudo, Asimov nunca chega a ir realmente a fundo nessas questões, pois o romance está muito mais focado na investigação de Lije e Daneel, em como tentam por conta própria resolver o caso, e como Lije vai, aos poucos, aceitando o seu parceiro e a visão dos Siderais sobre o futuro do planeta Terra e da raça humana.

As cavernas de aço foi assim: uma leitura rápida e descompromissada sobre o medo dos humanos frente à ameaça de serem inúteis perto dos robôs em um mundo que deve ser prático e eficiente. Asimov escreveu uma história com pontos interessantes, mas que não surpreende muito pela sua escrita simples. Mas até que vale a leitura, a visão de como o mundo poderia ser nunca vai deixar de ser curiosa.